Coleo Barbara Cartland n 75
BARBARA CARTLAND
A DERROTA DE LADY LORINDA
"The taming of Lady Lorinda"
Traduo de DAVID JARDIM JNIOR
EDIES DE OURO - 1978
Copia digitalizada por Edna Fiquer - 2006

CAPTULO I
1794
O Homem da Mscara Verde parou, olhando para o salo de baile, que parecia um caleidoscpio, brilhando sob os lustres de cristal.
Os convidados tinham tido liberdade de "comparecer de acordo com sua fantasia", e, como era inevitvel, havia uma dzia de Clepatras, um grande nmero de palhaos, 
e a predominncia de penteados e golas em estilo elisabetano. 
Enquanto olhava os pares que danavam ao som da msica executada por uma orquestra localizada na Galeria dos Menestris, o Homem da Mscara Verde inteiriou-se e 
disse, ao amigo que se encontrava ao seu lado, com voz que revelava surpresa: 
- Pensei que voc me tivesse trazido a um baile onde eu pudesse realmente encontrar o beau monde. 
- nele que estamos. 
- Mas essas mulheres no so prostitutas? 
-  claro que no! So a nata da sociedade, damas de qualidade e ornamentos das mais nobres famlias do pas. 
- Custo a acreditar! 
Ao falar, o Homem da Mscara Verde no olhava para os lbios vermelhos que se entreabriam sob as mscaras de veludo, para os olhos que brilhavam atravs das aberturas 
ovaladas, ou para os rolios pescoos, cobertos de jias. 
Olhava, sim, para os seios pontudos que se exibiam atravs dos tecidos transparentes, que mais pareciam revelar que ocultar as curvas dos quadris estreitos e das 
pernas esculturais que, na maior parte, estavam nuas.
- Estarei realmente na Inglaterra? - admirou-se, afinal. 
O amigo deu uma risada. 
- Voc esteve fora durante muito tempo, ocorreram muitas mudanas e, como pode ver, muitas delas para melhor. 
- Quando parti para o exterior - observou o Homem da Mscara Verde - as mulheres eram respeitveis e dceis, delicadas e obedientes aos seus maridos, 
- Isso est completamente fora de moda - disse-lhe seu informante. - Hoje em dia, as mulheres no so mais alfenins, participam de corridas de cavalos e de carruagens, 
tomam parte em caadas, jogam crquete contra outras equipes de mulheres e, no caso das princesas reais, at futebol! 
- Deus do cu! 
- Consideram-se iguais aos homens, e isso se revela em sua prpria aparncia. 
- Notei que os cabelos no esto mais empoados. 
- Tanto para as mulheres, como para os homens, graas a Deus! Podemos, sem dvida, agradecer ao Prncipe de Gales pela moda do au naturel. 
- Sem dvida,  um alvio, no que nos diz respeito - observou o Homem da Mscara Verde. Mas, quanto s mulheres, o caso  diferente. 
- A nova ordem - replicou o amigo, risonho - exige la victime coiffure, sem dvida, influncia revolucionria da Frana. 
Fez um gesto significativo, explicando: 
- Desapareceram os penteados altos e complicados do velho regime. Temos, agora, os cabelos cuidadosamente revoltos e, para completar a iluso, uma estreita fitinha 
vermelha em torno do pescoo. 
- Considerando o horror da guilhotina, acho isso de pssimo gosto! - replicou o Homem da Mscara Verde. 
- Meu caro, h muita coisa de mau gosto em voga, mas todos continuam a faz-lo.. 
 Olhou para o companheiro com uma expresso galhofeira e acrescentou: 
- Muitos dos vestidos usados em Carlton House deixam os seios, na verdade, descobertos, ou coberto por tecidos to finos que nada mais fica por conta da imaginao. 
O Homem da Mscara Verde no replicou. 
Continuou a contemplar os danarinos, no salo, um pouco abaixo dele, notando que a prpria dana estava se tornando mais frentica e os movimentos dos participantes 
muito exagerados. 
- Pode me achar retrgrado ... - comeou a dizer, mas parou no meio da frase. 
As altas portas envidraadas que davam para o jardim estavam abertas, pois aquele baile se realizava em uma quente noite de junho e, por uma delas, estava entrando 
na sala, inesperada e surpreendentemente, um cavalo preto. 
Montando-o, vinha uma mulher, que,  primeira vista, parecia estar completamente nua, coberta apenas pelos compridos cabelos ruivos, que caam at a cintura. 
Somente observando mais de perto, poder-se-ia notar que a sela, de formato mexicano e ornamentada de prata, era alta adiante e atrs, e que os cabelos estavam dispostos 
de tal modo, que tudo o que se via do corpo da amazona eram as pernas e os braos nus. 
A mulher, contudo, estava montada no cavalo, e no sentada em um silho, o que j constitua uma ousadia, e nem sequer se disfarara com uma mscara. Seus grandes 
olhos verdes, que pareciam ocupar o rosto inteiro, tinham uma expresso galhofeira. 
O Homem da Mscara Verde recuperou a voz. 
- Meu Deus do cu! Quem  aquela? 
- Aquela - informou seu companheiro -  Lady Lorinda Camborne, a mais atrevida de todas. 
- Ser possvel que pertena a uma famlia respeitvel? 
-  filha do Conde de Camborne e Cardis. 
- Se ele tivesse a menor dose de bom senso, deveria dar uma surra na filha e lev-la para casa. 
-  pouco provvel que ele veja a filha, pois no levanta os olhos da mesa de jogo! 
-  jogador? 
- Viciado! 
- E aquela moa que idade tem? 
- Acho que Lady Lorinda tem vinte anos. Sei que h dois anos  a sensao em St. James. 
-  realmente admirada? 
- Voc est muito moralista! Ela pode comportar-se de um modo um tanto repreensvel, e no vou negar que sua conduta d margem a muitos mexericos, mas, pelo menos 
 de uma beleza excepcional, enlouquecedora.
 O Homem da Mascara Verde ficou em silencio. Observava Lady Lorinda andar pela sala de baile montada no cavalo negro, um animal magnfico.
Os danarinos haviam parado e a aplaudiam. Todos os homens gritavam, aclamando-a, e alguns atiravam-lhe flores, quando ela passava. 
- As apostas no White's eram que ela no apareceria nua - informou o amigo do Homem da Mscara Verde. - Pois no s ela ganhou a aposta, como muito dinheiro vai 
trocar de mos, como acontece em todas as ocasies que ela apronta das suas. 
Tendo rodeado o salo de baile duas vezes, Lady Lorinda recebeu os aplausos da multido e, to inesperadamente quanto chegara, desapareceu por outra das portas envidraadas, 
sumindo no jardim. 
- No a veremos mais? - perguntou o Homem da Mscara Verde. 
- Veremos sim! Lady Lorinda vai voltar, metida em alguma nova fantasia que, com toda a certeza, de modo algum a tornar annima! E vai ser uma das ltimas a sair 
do baile. 
- Gosta das festas desse tipo? 
Havia um indisfarvel desdm na pergunta. 
- Parece que sim.  assim que passa a vida; festas todas as noites, excurses malucas a Vauxhall ou outras loucuras noturnas. E aonde quer que v, deixa um rosrio 
de coraes amargurados. Contam-se muitos casos a seu respeito, e o ltimo  que o Marqus de Queensbury ... 
- Meu Deus do cu, aquele velho devasso ainda anda a  solta? - atalhou o mascarado. 
- Somente a morte por fim. sua devassido! Mas, como eu estava dizendo, ele teve idia de fazer o papel de Pris, julgando quem seria digna de receber a ma de 
ouro com a inscrio "A mais bela". 
- Trs deusas a reclamaram ... se no me esqueci da lenda. 
- Exatamente. 
- E estavam nuas? 
- Naturalmente! 
- E uma delas era Lady Lorinda? 
- Foi o que me disseram. 
- E os homens se apaixonam mesmo por uma mulher assim? 
-  claro que sim! E vou dizer-lhe uma coisa a respeito de Lady Lorinda: ela tem coragem e uma personalidade que  rara entre as mulheres. Ningum pode deixar de 
lev-la em considerao. 
- Ou deixar de not-la - observou ele, secamente. 
- Acho que devo apresent-lo a ela disse o companheiro, sorrindo. - Ser bom para Lady Lorinda conhecer um homem que no se impressionar muito com sua beleza e 
nem se deixar pisar pelos seus lindos pezinhos. 
Calou-se, olhando para o salo, mas logo acrescentou: 
- Estou vendo que o Prncipe de Gales chegou. Venha, quero que o conhea. Sei que ele ficar muito satisfeito de ouvir as novidades do exterior que voc tem a contar. 
Mais tarde, o Homem da Mscara Verde deixou o salo de banquete, onde jantara na mesa real, e, achando que fazia muito calor no salo de baile, saiu para o jardim. 
O baile tinha lugar em Hampstead, e ele tinha a impresso de encontrar-se no campo. 
Uma leve brisa agitava a copa das rvores frondosas, dos canteiros vinha um perfume de flores e as estrelas brilhavam no cu. 
O homem respirou fundo, pensando quanto aquela atmosfera to suave era diferente do sufocante calor da ndia. 
De sbito, ouviu uma voz de homem dizendo: 
- Pelo amor de Deus, Lorinda, oua-me! Eu a amo! Case comigo, ou juro que me matarei!
O Homem da Mscara Verde ficou tenso, pois a voz tinha um tom angustiado inconfundvel. 
- Case comigo, Lorinda, e me far o homem mais feliz do mundo. 
- Esta  a dcima ou a undcima vez que eu o recuso, Edward? 
O Homem da Mscara Verde percebeu que o par se encontrava logo do outro lado da sebe de teixos. Era impossvel v-los, devido  escurido, mas imaginou que deveriam 
estar sentados, de costas para a moita, e que ele prprio se encontrava a poucos metros de distncia dos dois. 
- J pedi antes e torno a pedir: case comigo! 
- E sempre eu recuso. Para falar a verdade, Edward, voc j est ficando tremendamente enfadonho! Quero voltar ao salo de baile. 
- No me deixe, Lorinda! Por favor, fique comigo. No a importunarei. Farei tudo o que quiser, tudo, contanto que voc se preocupe um pouco comigo. 
- Por que haveria de preocupar-me? Se quisesse um co fraldeiro, compraria um. 
Havia desprezo na voz, logo a seguir, veio a advertncia:
- Se me tocar, juro que nunca mais falarei com voc! 
- Lorinda! Lorinda! 
Era uma exclamao de desespero. Depois, ouviu-se o rudo dos passos de uma mulher que se afastava, e os gemidos angustiados do homem, que ficara s. 
O Homem da Mscara Verde, compreendendo que terminara a conversa que estivera ouvindo, voltou ao salo de baile. 
No foi difcil identificar Lady Lorinda, e, no momento em que atravessou a porta envidraada, ouviu sua voz, alegre e inteiramente despreocupada com o que se passara 
pouco antes. 
Estava fantasiada de cavaleiro, com o gibo bordado, os cales de cetim, deixando  mostra os tornozelos delicados. Os cabelos ruivos tinham sido anelados e penteados 
como uma peruca por trs do chapu emplumado. 
Trazia uma mscara, que no escondia, porm, o narizinho reto, os lbios de uma curva perfeita e o queixinho pontudo. 
Tinha uma taa de vinho na mo e, quando o mascarado entrou na sala, junto com os que se achavam em torno dela, bebendo  sade do anfitrio, estava um homem moreno, 
de olhar sardnico, j de meia-idade. 
O homem agradeceu aos que o brindavam, mas no tirava os olhos de Lady Lorinda, e, quando o brinde terminou, aproximou-se dela. 
_ Venha comigo ao jardim, pois preciso falar-lhe. 
Estavam parados perto do Homem da Mscara Verde, que podia ouvir o que diziam. 
Acabei de voltar do jardim - disse Lady Lorinda. - Se est querendo intimidades comigo, previno-o de que no estou disposta a ouvi-lo. 
- Por que desconfia que tenho essa inteno? 
- Porque a nica coisa do que os homens cuidam  do amor - retrucou a moa. - ser possvel que no achem outro assunto? 
- No, quando esto conversando com voc! 
- Acho maante essa histria de amor!  um assunto pelo qual no me interesso e, portanto, se quer agradar-me, deve falar de outra coisa, 
_ Continua fingindo que no tem corao? 
_ No estou fingindo. Tenho essa sorte. Vamos para o salo de banquete, porque acho que estou com fome. 
Os dois afastaram-se e o Homem da Mscara Verde os ficou olhando. 
- Eu lhe havia dito que ela  bela, mas imprevisvel - disse uma voz ao seu lado, e ele viu que era o amigo com quem fora ao baile. 
- Todo mundo rasteja assim aos seus ps, e faz o que ela manda? - perguntou o Homem da Mscara Verde. 
- Todo mundo obedece a Lady Lorinda. 
- E se no obedecer? 
- Ela corta relaes com ele. Tal ostracismo, devo dizer,  pior do que a excomunho! 
O forasteiro deu uma risada. 
- Tenho a impresso de que, enquanto estive fora, vocs perderam a noo dos valores, ou talvez seja mais justo dizer, perderam o senso do equilbrio moral. 
Horas depois, quando a maior parte dos convidados j se retirara e os primeiros albores da aurora j comeavam a apagar as estrelas no cu, os dois amigos atravessaram 
o porto e ganharam a estrada. 
Estavam em um faton, s com um lacaio atrs, e os dois cavalos eram excepcionalmente bons. 
- Gostou? - perguntou o dono do faton. 
Seu amigo, que j tirara a mscara, deu uma risada. 
_ Foi, sem dvida, uma revelao! Eu esperava encontrar mudanas, mas no da maneira que deparei esta noite. 
_ Est referindo-se aos homens ou s mulheres? 
_ O prncipe surpreendeu-me, sem dvida. Engordou muito, e devo confessar que no tive boa impresso de seus joviais companheiros. 
_ Quem teria? - concordou o amigo. 
_ E, agora, diga-me o que achou das mulheres. Ficou muito escandalizado? 
O homem que usara a mscara deu uma risada. 
- Garanto-lhe que coisa alguma me escandaliza. Mas, sem dvida, fico estarrecido, quando imagino que aquelas criaturas indecentes, irresponsveis, sero as mes 
da prxima gerao. 
_ Est pensando em tomar alguma providncia a respeito? 
_ Que me sugere fazer? 
_ Reformar Lady Lorinda! Que desafio seria para um homem! 
_ No seria impossvel. 
_ J tentou domar uma fmea de tigre? Sou capaz de apostar qualquer quantia com voc de que seria de completa e absoluta impossibilidade. 
O homem que usara a mscara verde ficou em silncio durante algum tempo, depois disse, pausadamente: 
- Mil guinus. 
- Est falando srio? - perguntou o amigo, incrdulo. 
Depois, deu uma risada. 
- Aceito a aposta! No iria perder o desfecho dessa tarefa herclea, nem por uma importncia dez vezes maior. 
Tinham avanado uma pequena distancia, quando ele exclamou: 
- Por falar na fmea de tigre, ei-la logo em nossa frente! 
Apontou para onde, subindo a encosta em direo  Estalagem dos Espanhis, uma carruagem de viagem preta avanava, ostentando o braso dos Camborne nas portas. Dificilmente 
seria percebida, se no fosse a libr do cocheiro e dos lacaios que viajavam na parte de trs. Em vez das cores habitualmente usadas pela aristocracia, como o azul, 
verde ou vermelho-desbotado, as librs dos criados de Lady Lorinda eram brancas com enfeites prateados. 
O homem que usara a mscara verde olhou, atnito. 
*********************************
A carruagem chegara ao alto da colina e, tendo entrado na estreita passagem entre a hospedaria e o porto era cobrado o pedgio, tinha parado de sbito.
- O que est acontecendo? - perguntou o homem que dirigia o faton, e logo exclamou: - Meu Deus do cu! Salteadores! Lady Lorinda est sendo assaltada!
Chicoteou os cavalos, para que avanassem, mas, ao mesmo tempo, ouviu-se a detonao de uma pistola, e o homem que estava de p junto  porta aberta da carruagem 
caiu, de costas,  beira do caminho, enquanto o outro homem que estava junto dele fugia.
Antes que os dois amigos tivessem tido tempo de galgar a encosta e alcanar a carruagem, o lacaio que estava  sua traseira, de mos para o alto, foi atirado para 
frente e o veculo partiu.
O veiculo parou junto ao salteador, que ficara estendido na valeta que ladeava a estrada, com os braos abertos e ainda segurando a pistola.
Estava mascarado, com o aspecto de um bandido comum e a mancha de sangue que se espalhava em seu peito no dava margem a dvidas. 
O lacaio desceu da retaguarda do faton. 
- Est bem morto, milorde! - anunciou. 
O homem que dirigia o carro chicoteou os cavalos. 
- Nesse caso, no  de nossa conta disse, seguindo viagem. 
Houve um silncio, depois o homem recm-egresso perguntou: 
- Havia algum com a moa ou foi ela mesma quem atirou naquele homem? 
- Naturalmente, foi ela mesma! - respondeu seu amigo. - E no foi a primeira vez. 
Foi como se estivesse achando aquilo muito engraado que continuou: 
- Eis um perfeito exemplo de como as moas de hoje sabem defender-se sozinhas. Ouvi falar sobre a maneira com que Lady Lorinda enfrentava assaltantes e bandidos, 
mas, agora, vi com os meus prprios olhos! 
Dando uma risada gostosa, observou: 
- Parece que, mal o assaltante abre a porta da carruagem, ela atira. Os criados nem se do ao trabalho de proteg-la. 
- Estou atnito! - confessou o companheiro. - No meu tempo, as mulheres ficavam apavoradas, soluando,  espera de que um homem as defendesse. 
- Se voc prefere, ainda h algumas desse tipo e, com a sua riqueza, ser fcil conquist-las.
No houve replica,e os dois amigos seguiram em silencio pela charneca de Hampstead.
Lady Lorinda estava recostada no banco da carruagem, com os olhos fechados. Tivera, contudo, a precauo de tornar a carregas a pistola e coloca-la no regao, antes 
de acomodar-se.
A charneca de Mampstead era afamada pelo numero de assaltantes, que a jovem detestava tanto quanto aos apaixonados que a perseguiam, por mais brutalmente que repelisse 
seus galanteios.
Lorde Edward Hilton era apenas um dos muitos admiradores, que no se resignavam no serem aceitos.
Lembrando-se do quanto ele fora importuno, durante toda a festa, Lorinda decidiu que, dali para diante, deixaria bem claro que, se Edward fosse convidado para uma 
festa, ela no aceitaria o convite.
Nada que dissesse ou fizesse o impedia de continuar insistindo para que se casasse com ele. O anfitrio, Lorde Wroxford, no era muito melhor mas, pelo menos, no 
podia falar em casamento. J era casado e, assim sendo, suas propostas eram confessadamente desonrosas e, como tal, mais fceis de serem repelidas.
Podia rir de Ulric com desdm, e ambos sabiam que no havia mais possibilidade de Lorinda aceitar suas sugestes do que dar um pulo na lua.
Ulric, no obstante, continuava tentando, cnica e despudoradamente, mas, com Edward, o caso era diverso. Ameaara tantas vezes suicidar-se, se ela no casasse com 
ele, que Lorinda j ficava enfadada antes mesmo que ele abrisse a boca.
Edward, no entanto, era um partido muito conveniente, e sempre havia a possibilidade de tornar-se duque um dia, caso seu irmo mais velho continuasse a ter filhas 
e nenhum descendente varo.
"Se fosse sensata, o aceitaria", pensou Lorinda. "Mas como iria tolerar suas atenes para comigo o resto da vida?"
Sentia a mesma coisa com relao a muitos outros homens, muitos dos quais tinham a oferecer-lhe no somente o dinheiro, como tambm um lugar de destaque na sociedade.
S Lorinda sabia quanto eram precrios os laos que a prendiam a uma sociedade ftil e hedonista, to pronta a aclamar como a vilipendiar.
"Que realmente desejo?", perguntou a jovem a si mesma, enquanto descia o morro de Hamptead, j livre de qualquer perigo.
Teve a impresso de ver, diante de seus olhos, a interminvel sucesso de bailes e festas, com os quais estava to familiarizada, viajando de Londres para Brighton; 
para Newmarket,a fim de assistir s corridas; para Bath, a estao de guas,e voltando a Londres, para iniciar outra temporada alegre.
Seria aquilo o que ela realmente desejava ou queria na vida?
Sabia muito bem que, no dia seguinte, todas as mes de famlia que a detestavam iriam comentar, falando como papagaios, seu aparecimento como Lady Godiva.
Lorde Barrymore, um nobre conhecido por sua devassido, apostara que ela no seria capaz de fazer tal coisa, e isso bastara e constitura o incentivo de que Lorinda 
precisava para seus escndalos.
- Posso fazer o que quero! - disse, em voz alta.
Deu uma risada, pensando como o caso, naturalmente sem ser poupado qualquer detalhe, seria levado, pelos mexericos, at o rei e a rainha, no Castelo de Windsor. 
Suas Majestades, sem dvida alguma, iriam atribuir tal fato ao pernicioso e devasso exemplo do Prncipe de Gales. 
- Velhos hipcritas! - exclamou Lorinda, alegremente. 
Viu, com alvio, que a viagem terminara e que a carruagem estava diante de Camborne House, em Hanover Square. 
Era uma manso grande, mas pouco confortvel e bastante feia, construda pelo 7. Conde de Camborne, av de Lorinda. Esta fizera o possvel para melhorar a casa, 
com algumas inovaes. E, quando o lacaio abriu a porta, metido na libr branca e prateada que ela mesma desenhara, a moa pensou que, sem dvida, o casaro era 
menos sombrio agora do que quando ela era criana. 
- O Sr. Conde est, Thomas? - perguntou. 
- Est sim, milady. O Sr. Conde voltou h meia hora, e encontra-se na biblioteca. 
- Obrigada, Thomas. 
Lorinda atirou o casaco para um lado, sem notar que o lacaio estava olhando, horrorizado, para o seu traje masculino, enquanto ela caminhava pelo cho de mrmore, 
rumo  biblioteca. 
Abriu a porta. 
Seu pai estava sentado diante de sua secretria, no centro do aposento, carregando uma pistola de duelo. 
O Conde de Camborne e Cardis olhou surpreso para a filha. Era um homem bonito, de cabelos grisalhos, mas com a palidez de quem nunca aproveitava o ar livre. As salas 
de jogo eram, notoriamente, abafadas ... 
Baixou a pistola, que tinha na mo, depressa demais para ser um gesto natural, enquanto dizia: 
- No estava esperando que voc voltasse to cedo, Lorinda. 
- O que aconteceu, papai? No v me dizer que pretende bater-se em duelo! 
Como o conde no respondeu, a jovem caminhou at junto dele, e baixou os olhos. 
- Diga-me, papai! 
A princpio, o conde no pareceu disposto a atender ao pedido da filha. Depois, recostando-se na cadeira, disse, desafiadoramente: 
- Eu ia dar um tiro na cabea! 
- No est falando srio, papai! 
- Perdi tudo que temos. 
Durante um momento, Lorinda ficou imvel. Depois, sentou-se na cadeira em frente ao pai. 
- Diga-me exatamente o que aconteceu. 
- Estive jogando com Charles Fox respondeu o conde. 
Lorinda cerrou os lbios. 
Sabia muito bem que Charles James Fox era o mais perigoso adversrio que seu pai poderia ter escolhido. 
Poltico whig, de notvel eloqncia, Charles Fox, gordo, barrigudo, desgracioso, com uma papada no queixo e sobrancelhas espessas e arrepiadas, era um homem dotado 
de extraordinria simpatia. 
Detestado pelo rei, tornara-se, em conseqncia, amigo ntimo do Prncipe de Gales. Na verdade, houve ocasio em que o prncipe o olhava quase que com idolatria. 
Filho de um homem riqussimo, Charles Fox adquirira, quando estudante em Eton, insacivel paixo pelo jogo, e, quando tinha dezesseis anos, ele e seu irmo perderam 
trinta e duas mil libras esterlinas em uma noite! 
Era uma ironia do destino, pensou Lorinda, que uma das poucas vezes em que Charles Fox ganhara no jogo, em toda a sua vida, fora  custa de seu pai. 
Suas palavras seguintes confirmaram o que ela temia. 
- Eu estava ganhando, Lorinda disse o conde, com voz cansada. - Estava ganhando uma quantia considervel, quando a sorte de Fox mudou. Achei que aquilo no iria 
durar, mas, quando me levantei, no tinha mais nada para apostar. 
Houve uma pausa, depois Lorinda perguntou, com voz bem firme: 
- Quanto perdeu? 
- Cem mil libras! 
No era uma quantia astronmica, para muitos dos que jogavam no White's Club, mas Lorinda sabia, to bem quanto o pai, que, para eles, aquilo significava a catstrofe. 
Tinha a casa de Londres e a manso da famlia na Cornualha, mas a renda era relativa
- Eu estava ganhando, Lorinda - disse o conde, com voz cansada. - Estava ganhando uma quantia considervel, quando a sorte de Fox mudou. Achei que aquilo no iria 
durar, mas, quando me levantei, no tinha mais nada para apostar. 
Houve uma pausa, depois Lorinda perguntou, com voz bem firme: 
- Quanto perdeu? 
- Cem mil libras! 
No era uma quantia astronmica, para muitos dos que jogavam no White's Club, mas Lorinda sabia, to bem quanto o pai, que, para eles, aquilo significava a catstrofe. 
Tinha a casa de Londres e a manso da famlia na Cornualha, mas a renda era relativamente pequena, e, embora parecessem opulentos e vivessem de maneira extravagante, 
era apenas porque, sempre otimistas, acreditavam que "aconteceria alguma coisa". 
Quando o conde ganhava nas mesas de jogo, Lorinda tratava de tomar-lhe o dinheiro ganho, antes que ele o perdesse de novo. Jamais, porm, suas pernas tinham sequer 
se aproximado de cem mil libras esterlinas. 
- S me resta uma coisa para fazer - concluiu o conde, com voz soturna. -  dar um tiro na cabea. Fox no pode exigir que eu salde a dvida, se j no estiver neste 
mundo. 
- O senhor sabe perfeitamente, papai, que  uma dvida de honra e que, de uma maneira ou de outra, eu teria que pagar - replicou Lorinda. 
- O que est querendo dizer? 
- Estou querendo dizer  que seria muita covardia sua, se me deixasse sozinha para consertar o que fez! 
A voz da moa era desdenhosa. Tendo falado, ela se levantou, chegou at a janela e abriu as pesadas cortinas de veludo. 
O dia nascera, e os primeiros e plidos raios do Sol iluminavam os telhados das casas. 
- Pensei - disse o conde, atrs dela, com a voz hesitante - que, se eu morresse, Fox cancelaria a dvida e tudo se resolveria. 
- Seria fcil para o senhor, mas no para mim - disse Lorinda, sem se exaltar. - E seja o que for que os Camborne possam ter sido, pusilnimes nunca foram! 
- Bolas! No admito que voc me chame assim! - explodiu o pai. 
- No posso admitir maior covardia do que o senhor sumir, deixando as dificuldades para mim - replicou a jovem. 
o pai empurrou a pistola pra um lado, impaciente. 
- Se acha assim, deveria pensar em uma soluo. 
-  evidente, no ? - replicou Lorinda, deixando a janela, para ir assentar-se de novo  mesa. 
- No vejo nada de evidente. 
- Pois ento, vou dizer-lhe - retrucou a moa. - Venderemos esta casa, com tudo que tem. Com isso, apuraremos uma quantia considervel, e iremos, ento, morar na 
Cornualha. 
- Na Cornualha? 
- Por que no? At vendermos o priorato, se encontrarmos algum que se interesse em compr-lo.
O conde deu um murro na mesa com tanta fora que o tinteiro deu um pulo. 
- No venderei o lar que pertenceu aos meus antepassados, desde antes da conquista normanda! - gritou. - Embora ele no esteja vinculado, nenhum Camborne jamais 
chegou to baixo at o ponto de vender a casa de seus ancestrais. 
Lorinda encolheu os ombros. 
- Podemos ter que faz-lo - replicou. - Duvido que esta casa, com tudo que contm, inclusive as jias de mame, nos permita apurar ao menos cinqenta mil libras! 
o conde escondeu o rosto nas mos. 
- Meu Deus do cu! - exclamou. - Por que maldio fui to louco? 
- O arrependimento no resolve nada 
- observou Lorinda, friamente. - Temos de encarar a situao com esprito prtico, e segundo presumo, isso quer dizer que terei de providenciar tudo. O senhor deve 
pedir um prazo a Charles Fox para pagar, pois, evidentemente, no vai poder entregar-lhe as cem mil libras dentro do prazo estabelecido de duas semanas. 
- Terei de pedir-lhe de joelhos, assim como sofrer todas as outras humilhaes? - perguntou o conde, furioso. 
- A dvida  uma - lembrou Lorinda. 
O pai, encarando-a, notou em seus olhos uma expresso que o levou a exclamar, irritado: 
- Meu Deus do cu! Voc deveria mostrar-se um pouco mais solidria e compreensiva! No sente afeto por mim ou por ningum? 
- Quer saber de uma coisa? - perguntou Lorinda. - Para falar a verdade, eu o desprezo. 
Como o pai ficou calado, ela acrescentou: 
- Eu o desprezo, como desprezo todos os homens. Todos so os mesmos, muito bonzinhos quando tudo corre de acordo com os seus desejos, mas que esperam que as mulheres 
sofram pelas leviandades que cometem e chorem por causa das atrapalhaes que vocs mesmos provocam. Fique sabendo que no farei nem uma coisa nem outra. 
Pegou a pistola que estava em cima da mesa, dizendo asperamente:
- Vou levar isto comigo, pois o senhor no merece confiana sequer para guard-la. Amanh, vou tratar de vender a nica casa que conheci como lar, ver se arranjo 
uma oferta razovel para os tesouros que os nossos antepassados acumularam e as jias que deram tanto prazer  minha me. 
Encaminhou-se para a porta, mas virou-se para encarar o pai, com a luz das velas iluminando em cheio seus cabelos ruivos. 
- Se est muito preocupado - disse, desdenhosamente - sugiro que parta imediatamente para a Cornualha e procure dar um certo aspecto de ordem s runas que nos restam 
ali.
*** < 
Na manh seguinte, depois de um sono profundo, quando a criada abriu as cortinas, Lorinda lembrou-se das tarefas que tinha pela frente. 
No se sentiu apavorada, como qualquer outra moa de sua idade sentiria, face s grandes dificuldades que teria de defrontar, e a incapacidade de seu pai de resolver 
qualquer delas. 
Sua me morrera quando contava doze anos. Embora lembrasse dela com saudade, sabia que pouco tinha de comum com aquela mulher tmida e delicada, que achava o marido 
maravilhoso e sempre estivera disposta a aceitar seu precrio modo de vida, sem fazer coisa alguma para alter-lo. 
Lorinda herdara as qualidades de seus antepassados Camborne, que tinham travado batalhas contra inmeros inimigos.
A Cornualha fora a ltima parte da Gr-Bretanha, no sul, a subjugar os invasores saxes, e os Camborne tinham lutado contra o Rei Egberto, negando-se a reconhecer 
sua supremacia. Noventa anos mais tarde, haviam ajudado Aethelstan a expulsar os galeses ocidentais de Exeter, tornando Tamar o limite de seu territrio. 
Durante todos os tempos, os Camborne mostraram-se ferozmente independentes: tinham combatido em apoio  causa de Lancaster e se destacado entre as tropas de Sir 
Bevil Grenville, quando derrotou as foras do Parlamento em Bradock. 
Havia, nas veias de Lorinda, um sangue ardoroso, que no parecia ter recebido de seu pai. No se submetia a nenhum domnio e sempre se revoltava contra qualquer 
autoridade, desde criana. 
_ Voc se nega sempre a fazer o que lhe mandam, como aqueles lutadores da Cornualha que combateram em Agincourt _ disse-lhe sua bab, quando ela era bem pequena. 
E agora, naquele momento de dificuldades, procurava lutar contra o comodismo de aceitar o inevitvel, como seu pai estava disposto a fazer, evidentemente. 
Lorinda ficou em silncio, enquanto a criada a ajudava a vestir-se e a penteava, de acordo com a moda de cabelos revoltos, que parecia ter sido adotada, de propsito, 
para fazer destacar a beleza de seu rostinho em forma de corao. 
No era baixa, ao contrrio, era mais alta do que a maioria das mulheres. Era, porm, to esbelta e graciosa que os homens, instintivamente. desejavam proteg-la, 
encontrando, porm, uma vontade de ferro e um orgulho invencvel, que no combinavam muito com sua beleza excepcional, de extrema feminilidade. 
Ningum poderia negar que ela era bela, mas, ao olhar-se no espelho, Lorinda perguntava a si mesma se sua beleza lhe trouxera alguma felicidade. 
No tinha a menor dvida de que, se pedisse o conselho de qualquer uma das nobres damas que a acompanharam, tantas vezes, a pedido do pai, depois que passara a freqentar 
a alta sociedade londrina, sua resposta seria a mesma: 
- Case-se com um homem rico. 
Tinha a impresso de as estar ouvindo aconselhar tal coisa, sabendo que lhe seria faclimo aceitar Edward Hinton, Anthony Dawlish, Christopher Conway ou qualquer 
um dos outros jovens aristocratas que imploravam o seu amor. 
Todos eles, incontestavelmente, pensava Lorinda, viriam correndo  sua casa, se lhes escrevesse um bilhete chamando-os. 
O orgulho, o prprio brio que herdara dos antepassados, porm, faziam-na repelir a idia de aceitar um marido, simplesmente, como uma soluo. 
Desceu ao andar trreo, de cabea erguida, com o crebro trabalhando intensamente, planejando, manobrando, quase como se fosse um militar que iria participar de 
uma batalha, em vez de uma mulher que no deveria conceber tais tticas. 
Entrando na biblioteca, verificou que seu pai no se deitara. Dormira em uma poltrona, junto da lareira, e uma garrafa vazia perto dele contava o que acontecera. 
Lorinda sacudiu-o pelo ombro. 
- Acorde, papai! 
Quando conversara com ele na noite anterior; notara que andara bebendo, mas o que tomara depois que ela se separara dele, o tinha deixado com os olhos congestionados 
e com bafo alcolico. 
- Acorde, papai! - tornou a dizer, e o conde abriu os olhos .. 
- Ah,  voc, Lorinda? O que deseja? 
- Desejo que voc lave o rosto e se componha - respondeu a moa. - J  de manh e o caf est servido, se  que se interessa por isso. 
O conde estremeceu. 
- D-me primeiro um gole de bebida! Lorinda no discutiu com ele. Foi at a bandeja de bebidas, que estava a um canto da biblioteca, e serviu uma dose farta de conhaque, 
que lhe entregou, desdenhosamente. 
o conde bebeu-o de uma s vez. - Que horas so? - perguntou. 
- Nove horas. O senhor vai  Cornualha, ou vai ficar aqui comigo? Devo avis-lo de que no vai ser muito confortvel, pois pretendo despedir os criados logo depois 
do caf. 
Fortalecido pelo conhaque, o conde ps-se de p. 
Os raios do Sol entravam pelas janelas, uma das quais dava para o pequeno jardim, no fundo da casa. 
Os canteiros estavam repletos de flores, e Lorinda ficou pensando quanto custara plantar e cuidar daquelas plantas, o que ficara a cargo de um jardineiro, que trabalhava 
quatro vezes por semana. 
- H uma coisa que no lhe disse ontem  noite - falou o conde, depois de hesitar por algum tempo. 
- O que ? 
- Voc impediu-me de executar o que a honra me ditava, e que eu tencionava fazer - disse o conde. - Assim,  melhor que fique sabendo da verdade. 
- Que verdade? - perguntou Lorinda, rispidamente. 
- No fim do jogo, comecei a trapacear! 
- Trapacear?! - exclamou a moa, quase gritando.
- Eu estava bbado e desesperado e nem ao menos pude trapacear direito. 
- Quantas pessoas ficaram sabendo? 
- Fox e mais trs outros scios do White's, que estavam na mesa. So todos meus amigos, e acho que vo ficar calados, mas no terei coragem de voltar ao clube, durante 
muito tempo. 
Era um golpe com que Lorinda no contava. 
Sabia muito bem que um homem apanhado trapaceando no jogo tornava-se um proscrito social, um pria entre seus pares. 
Como seu pai era muito bem relacionado, havia uma possibilidade, simples e nica, de que os que haviam presenciado o acontecido atribussem o fato  ,embriaguez, 
e no o comentassem com outras pessoas. 
Sabia, porm, que seu pai tinha razo, ao afirmar que no poderia mais voltar ao White's. 
Durante um momento, quase se arrependeu de no t-lo deixado suicidar-se, como pretendia. De fato tal desfecho era considerado como a nica soluo honrosa para 
situaes semelhantes. 
Refletindo melhor, porm, Lorinda concluiu Que suicidar-se seria apenas agir com mais covardia ainda. 
- O senhor nada pode fazer, a no ser partir imediatamente para a Cornualha disse, com voz firme. - Leve um dos criados, qualquer um,  sua escolha, e dois dos melhores 
cavalos. O resto ser vendido. 
Sua voz era muito calma, ao acrescentar: 
- Levarei comigo seus objetos particulares, junto com os meus, na carruagem de viagem. 
- E o meu faton? 
- Como  mais novo que o resto de nossos veculos,  o que dever render mais dinheiro e tem que ficar aqui. Vou tomar caf, e depois conversar com a criadagem. 
Se precisar de mim, estou na sala de estar. 
Caminhou em direo  porta. Ao alcan-la, ouviu o pai dizer, em voz baixa: 
- Desculpe-me, Lorinda. 
Ela saiu, sem olhar para trs. 
*** 
CAPTULO 11 
Lorinda olhou para a mesa do vestbulo, inteiramente vazia, e sorriu com amargura. Parecia incrvel que, apenas uma semana antes, estivesse coberta de cartes de 
visita, convites para festas e inmeros buqus de flores, enviados por seus ardentes admiradores. 
Se alguma coisa a pudesse fazer detestar os homens mais do que j o fazia, pensou, seria o que tinha acontecido, logo que se falou, em Londres, que o Conde de Camborne 
e Cardis estava vendendo tudo que tinha. 
Lorinda esperava o que acontecera, mas, ainda assim, ficara chocada. 
No dia seguinte ao da festa de Hampstead, ela havia recebido o nmero habitual de bilhetes bajulatrios e uma profuso de flores, e no cessaram as pancadas  porta 
de Hanover Square. 
Seu pai no estava em condies de viajar, mas Lorinda o obrigou a escreveu uma carta a Charles Fox, dizendo-lhe que a dvida seria paga o mais depressa possvel, 
e que o dinheiro apurado na venda de seus bens lhe seria encaminhado pela firma encarregada. 
- Ele vai ter sorte se receber o resto! resmungou o conde, ao terminar a carta. 
- No posso permitir que o senhor o lese, papai - replicou Lorinda. - Teremos de arranjar o dinheiro, de qualquer modo, mesmo que leve a vida inteira. 
O conde, murmurando uma praga, tomou outro gole de conhaque. 
Dois dias depois, partia para a Cornualha, levando consigo os dois melhores cavalos e o palafreneiro de mais confiana. 
Lorinda achou que mesmo uma concesso to pequena era, de certo modo, uma fraude contra o homem a quem devia tanto dinheiro, mas no protestou. No pde, por outro 
lado, deixar de pensar que era bem tpico de seu pai ter partido sem sequer perguntar-lhe como iria providenciar tudo, sozinha. 
Sem dvida, a presena de seu pai iria ser mais um transtorno do que uma ajuda, mas, de qualquer modo, no era ligeira a tarefa de vender a casa e encaixotar todas 
as coisas que precisaria levar para a Cornualha. 
Dois dos criados mais velhos, que estavam havia muito tempo na casa, concordaram em ajudar Lorinda, at que ela tambm partisse. O resto fora despedido e ainda foi 
preciso escrever cartas dando boas referncias a todos, a fim de que no tivessem dificuldade em arranjar outro emprego. 
A firma encarregada da transao felizmente mostrou-se bastante otimista, admitindo que seria arrecadada uma importncia considervel. Lorinda receara que, pelo 
seu grande tamanho, a manso pudesse transformar-se num "elefante branco", mas o fato  que, logo depois de posta  venda, os corretores imobilirios comearam a 
enviar muitos clientes interessados.
Embora Lorinda estivesse desconfiada de que a manso no continuaria a ser uma residncia particular, mas se destinaria a ser clube de jogo, no estava disposta 
a discutir o assunto. 
Havia alguns quadros de grande valor, e os mveis que no se tinham estragado com o passar do tempo podiam ser vendidos. O conde, contudo, no pudera substituir 
os tapetes j muito gastos e as cortinas desbotadas e, para estes, era indiscutvel no conseguirem achar comprador. 
Se estivesse inclinada a lamentar ou sentir-se abatida com o que ocorria em torno dela, Lorinda certamente teria pouco tempo para tal. 
Durante todos os momentos do dia, um dos criados estava indagando b que poderia ser encaixotado e o que deveria ser deixado, e constantemente os homens encarregados 
de inventariar os mveis estavam por l, examinando e marcando os objetos. 
Uma coisa que, inexplicavelmente magoou Lorinda, embora ela prpria talvez no se apercebesse disso, foi a conduta de Lorde Edward Hinton. Embora o tivesse sempre 
tratado asperamente, no esquecera os seus protestos de amor e pensou que, ao menos ele seria leal, mesmo quando todos os outros fingissem ignorar suas dificuldades. 
No entanto, dois dias depois da festa de Hampstead, recebera um bilhete dele, dizendo o seguinte: 
Lorinda: 
Devido a circunstncias independentes de minha vontade, tenho de sair de Londres. Sabe perfeitamente quais foram meus sentimentos por voc nestes ltimos doze meses 
e, embora tenha deixado bem claro que no me correspondia, no pude partir sem dizer-lhe adeus. 
Adeus, linda Lorinda de olhos verdes. Sempre me lembrarei de voc. 
Edward 
Lorinda olhou para o bilhete durante muito tempo, depois foi procurar o pai, que ainda no partira para a Cornualha. 
- Diga-me uma coisa, papai - perguntou. - Quais eram os amigos que estavam no White's quando o senhor perdeu aquele dinheiro todo para Charles Fox e, por cmulo 
do azar, ainda o viram trapaceando? 
Viu gravado no rosto do pai o ressentimento provocado pela pergunta, mas esperou a resposta. Um momento depois, o conde respondeu, com a voz abafada: 
- Davenport e Charles Lambeth estavam l. 
- E o Duque de Dorset? - perguntou Lorinda. 
Seu pai inclinou a cabea. 
A jovem afastou-se, sem dizer mais nada. 
Tivera a explicao do bilhete de Edward. 
O Duque e a Duquesa de Dorset nunca tinham gostado dela, e no podiam resignar-se a t-la como nora. O duque era um puritano, e de modo algum admitiria qualquer 
relacionamento com um trapaceiro. 
Edward dependia inteiramente do pai, e o duque devia ter agido sem demora. 
Lorinda tinha certeza que Edward, ou fora mandado para o exterior, ou o brigado a passar algum tempo na propriedade rural do duque, at que o escndalo tivesse passado. 
"Por que eu iria esperar que algum ficasse ao meu lado?", pensou Lorinda. 
Por outro lado, nunca se sentira to s e isolada. No vendo ningum bater  sua porta, a no ser os homens interessados em comprar e vender, disse a si mesma, com 
um sorriso sarcstico: 
"Quanto maior a altura, maior a queda!" 
Ouviu uma batida  entrada e achou que deveria ser um dos homens que estava preparando a casa para o leilo do dia seguinte. As criadas estavam em cima, separando 
os objetos que pretendia levar para a Cornualha, de sorte que ela mesma foi abrir a porta. 
Do lado de fora, com um sorriso mais sardnico do que o habitual, estava Lorde Wroxford. 
Lorinda encarou-o durante um momento, depois disse: 
- No estou em casa, Ulric. 
- Preciso falar com voc, Lorinda replicou Ulric. - Posso entrar? 
Lorinda hesitou, depois abriu a porta inteiramente. 
- Veio para espionar, ou quer reservar algum objeto especial pelo qual sua fantasia interessou-se? - perguntou, sarcstica. 
Sabia que a manso de Lorde Wroxford em Hampstead estava repleta de preciosidade e que ele no conseguia interessar-se por coisa alguma de sua prpria casa. 
- Quero conversar com voc - disse ele, pondo o chapu em cima de uma mesa. 
- Vou tentar encontrar-lhe uma cadeira, mas vai ser difcil, pois as cadeiras todas j esto separadas para o leilo - replicou Lorinda. 
Encaminhou o visitante para a biblioteca, que oferecia um espetculo particularmente deprimente, com suas estantes vazias, pois todos os livros j tinham sido removidos. 
Os tapetes enrolados, as cadeiras amontoadas umas sobre as outras e os quadros encostados  parede. 
Lorde Wroxford, porm, s olhava para Lorinda, achando-a mais bela do que de costume, com seus cabelos ruivos e revoltos fazendo destacar a alvura da ctis. 
A moa parou no meio da sala. 
- Ento, o que me tem a dizer? - perguntou, com indiferena. 
- Vim para fazer uma sugesto que pode livr-la de todo este aborrecimento. 
Lorinda encarou o visitante com os olhos fuzilando, mas nada disse, e ele prosseguiu: 
- Poderemos ir para o exterior, fora do alcance dos mexericos maldosos. Estou convencido, como sempre estive, de que nos daremos muito bem juntos. 
Lorinda sorriu. 
-  muita bondade sua sugerir-me isso, Ulric, mas acho que j sabe a minha resposta. 
- O que voc ter a perder? - perguntou Ulric. - Apenas esta confuso em que seu pai a meteu. 
Lorinda inclinou a cabea para um lado, ligeiramente. 
- No sei quanto tempo levaria antes de voc se enfarar de mim - disse. - Acho que voc no  do tipo que acha que o amor compensa tudo, Ulric. 
- Se voc me amasse, acredito, sinceramente, que eu no desejaria mais voltar para a Inglaterra, e nem ao menos sentiria saudades. 
- Se!. .. - exclamou Lorinda. -  uma palavra muito prtica! Sabe, to bem quanto eu, que tambm ficaria enfarada de voc antes mesmo de comearmos. 
- Eu a quero, Lorinda! Posso ensin-la a amar-me. 
Lorinda deu uma gargalhada. 
- Voc  mesmo bobo a ponto de acreditar nisso? Detesto todos os homens, e jamais amarei nenhum deles! No conheo o amor nem me interesso por ele. 
Lorde Wroxford caminhou em direo  jovem. 
- Com todos os diabos, Lorinda! Voc esgota a pacincia de um santo!
- E voc no  santo! 
Encarou-o, com uma expresso maliciosa nos olhos. 
_ Eu o conheo muito bem, Ulric, e sei que me fez esta proposta, esperando, no fundo, que eu no aceitasse. 
_ No  verdade! - protestou Ulric. - Voc me excita at  loucura, sempre excitou! Se voc tiver o mnimo juzo, vir comigo e deixar que eu a proteja. 
_ Nunca tive juzo, e sei melhor do que voc que j estaramos brigando antes de atravessar o canal da Mancha - replicou Lorinda. - Voc iria querer tocar-me, e 
detesto ser tocada! 
Falava com tal veemncia, que apagou o fogo que lavrara nos olhos de Lorde Wroxford. 
_ Pode haver algum mais insensata e intratvel? - perguntou ele. 
Lorinda no respondeu, e caminhava, agitada, pelo soalho nu, enquanto o outro prosseguia: 
_ J imaginou o que vai ser sua vida, na Cornualha, tendo que agentar seu pai, desesperado por no poder jogar? 
Pela expresso dos olhos da jovem, achou que tocara no ponto nevrlgico. 
_ Sem festas, sem admiradores - insistiu. - A no ser que voc arranje alguns roceiros. 
Fez uma pausa, e acrescentou, maldoso:
 - Em tais circunstncias, Lorinda, a beleza no dura muito tempo. 
Sentiu, embora no tivesse certeza, que nos olhos da jovem havia uma expresso diferente, de preocupao, e, aproximando-se dela, passou o brao em torno de seus 
ombros. 
- Venha comigo - disse, em voz baixa. - Havemos de nos divertir, de qualquer maneira. Poderemos mesmo ir ao Oriente, que sempre tive vontade de conhecer. 
Lorinda no se afastou dele, mas Lorde Wroxford percebeu que ela se inteiriara. 
- E quando tivermos esgotado o Oriente? - perguntou ela. - E ento? 
- Minha mulher pode morrer. No goza de boa sade. 
Lorinda deu uma risadinha e afastou-se do homem. 
- Ora, Ulric! Isso  uma bobagem to grande como dizer que ela no o compreende. As pessoas no morrem s porque a gente tem vontade disso. 
Lorde Wroxford encarou-a, hesitante. A luz do Sol, atravessando as vidraas, iluminara-lhe os cabelos e dava a impresso de que ela estava envolta em uma aurola. 
_ Meu Deus, como voc  bonita! exclamou ele. - Quero-a, Lorinda! Quero-a, mais do que achava possvel desejar qualquer mulher, e estou disposto a possu-Ia! 
Lorinda olhou-o com desdm. 
_ Minha velha bab costumava dizer que nem sempre querer  poder, e esta  minha resposta. 
_ Voc no pode estar pensando assim! - insistiu o lorde. - Voc no pode ser to idiota, a ponto de rejeitar a nica oferta que receber nas circunstncias presentes. 
Fechou a cara, ao acrescentar: 
_ Ouvi dizer que Edward vai ser levado para o campo, enquanto os outros rapazes que se lanavam aos seus ps esto procurando outra moa para idolatrar. 
Viu o sorriso de troa nos lbios de Lorinda, e isso o enfureceu. 
_ Sou riqussimo, Lorinda, e estou disposto a gastar com voc at o ltimo nquel de minha fortuna. Voc  mesmo to inacreditavelmente idiota a ponto de me recusar? 
_ Eu sabia que acabaramos chegando ao seu famoso dinheiro, mais cedo ou mais tarde - disse Lorinda, desdenhosamente. Se amanh eu for posta  venda, tenho certeza 
de que voc ser um dos licitantes. Talvez possa comprar-me barato! Mas, enquanto a deciso estiver comigo, no estou interessada. 
- Se eu estivesse em meu juzo perfeito, deveria ir-me embora logo, sem lhe dizer mais nada - disse Lorde Wroxford, com amargura. - Mas vou dar-lhe mais uma oportunidade. 
Quer vir comigo? 
Lorinda estendeu a mo. 
- Meu caro Ulric, nunca hei de esquecer-me que voc me fez uma oferta, seja ela qual for, quando ningum mais se lembrou de mim. 
- Insiste mesmo em dizer no? 
- Quando eu estiver sentada na solido da Cornualha, contemplando o mar e imaginando como arranjaremos uma fatia de po, sem dvida hei de lembrar-me de sua riqueza 
e ficarei muito alegre por saber que voc ainda tem dinheiro suficiente para me comprar. 
- O que est querendo dizer com isso? - perguntou Lorde Wroxford. 
- Estou querendo dizer que voc no tem a oferecer-me nada que eu precise, nada pelo qual eu devesse me vender. 
No estou compreendendo. Talvez seja bom. Adeus, Ulric. 
- Est mesmo falando srio? 
- Estou. Obrigada por ter vindo. 
Como se no pudesse refrear-se por mais tempo, Lorde Wroxford deu um passo para a frente e estendeu os braos, mas Lorinda conseguiu escapar. 
- Agora, voc j est ficando importuno - disse, rispidamente. - V, Ulric, que tenho muita coisa para fazer, e no posso perder mais tempo. 
- Com todos os diabos! - praguejou ele. - Estou falando srio. Voc no pode mandar-me embora desta maneira! 
- Pode retirar-se e adeus! 
Assim falando, Lorinda abriu a porta da biblioteca, saiu, e Lorde Wroxford ouviu seus passos, subindo a escada sem tapete. 
Ficou imvel, durante algum tempo, tendo no rosto uma expresso no apenas de frustrao, como tambm de surpresa. Estava certo de que Lorinda preferiria aceitar 
sua proposta do que se meter na solido da Cornualha. 
Aguardou por alguns momentos, como se ainda tivesse esperana de que ela voltasse. Mas reinava apenas um silncio completo e, atravessando o vestbulo, pisando forte, 
saiu pela porta da rua. 
* * * 
o leilo foi mais concorrido do que o prprio leiloeiro esperava. Embora estivesse marcado para as onze horas da manh, s dez j estava chegando gente suficiente 
para encher a casa. 
Realizou-se no grande salo e as cadeiras que tinham sido arrumadas j estavam ocupadas, muito antes de comear a venda. 
Lorinda sabia que metade das pessoas presentes viera por pura curiosidade. Reconheceu um bom nmero de seus inimigos, de ambos os sexos, visivelmente satisfeitos 
com a situao em que ela se encontrava. 
Havia os que ela desprezara e ignorara, os que censuravam o seu comportamento e um certo nmero de mulheres que, no ntimo, a admiravam por fazer o que elas prprias 
desejariam, mas no tinham coragem de fazer. 
Havia, tambm, constatou Lorinda com satisfao, muitos compradores de verdade, que competiam entre si, fazendo com que os preos se elevassem. 
- Quer mesmo assistir ao leilo, milady? perguntara o leiloeiro. 
- Fao questo! - respondeu Lorinda. 
- Acho que a senhora pode sentir-se pouco  vontade. Em geral, essas coisas ficam inteiramente por nossa conta. 
- Estou com vontade de ver de quanto sero os lances. 
Sabia que a maioria das pessoas iria achar incrvel que ela assistisse ao leilo, mas o orgulho no permitiu que fugisse, como seu pai tinha feito. 
"Podem pensar o que quiserem," disse a si mesma. "Mas no vou permitir que pensem que estou morrendo de abatimento ou chorando em cima de uma cama." 
Estava linda, com um ar de desafio, usando um vestido que lhe caa perfeitamente e um chapu de abas largas, enfeitado de plumas, enquanto se mantinha sentada ao 
lado do leiloeiro, anotando o lance de cada lote. 
Mostrou-se, na realidade, de todo indiferente diante de cada lote posto  venda, at que as jias de sua me foram trazidas para a sala. 
Ento, pela primeira vez, sentiu um aperto no corao. 
- Voc brilha como uma fada, mame - dissera  me, quando criana, certa noite em que fora dizer-lhe boa-noite, antes do jantar. 
- Este colar pertenceu  minha tetrav - dissera a me, acariciando as esmeraldas que tinha em torno do pescoo. - Um dia sero suas, minha filha, e iro combinar 
com a cor de seus olhos. 
Olhou, agora, para as esmeraldas, e sentiu-se pesarosa por nunca t-las usado, mas sabia que seria ostentao de mau gosto para uma mocinha usar o colar e sempre 
se orgulhara de ter bom gosto para vestir. 
Muitas vezes, porm, lembrara-se das esmeraldas e, quando retirava do cofre as jias menores, pensava que, quando se casasse, usaria o fantstico colar. Deveria 
fazer um efeito espetacular, pousado em sua ctis muito clara e combinando com as grandes pedras pendentes das orelhas. 
Agora, as lindas pedras verdes seriam vendidas "ao correr do martelo", e imaginava qual das mulheres presentes as compraria. 
Sabia muito bem que no precisava t-las colocado em leilo. As jias lhe pertenciam e, depois da morte de sua me, no permitira que seu pai as vendesse ou empenhasse, 
como muitas vezes desejara. 
- Elas so minhas, papai - dissera, sempre que ele sugerira tal coisa. - Pertenceram  famlia de mame e nada tm a ver com os Camborne. 
- Deixe-me arranjar algum dinheiro com elas - pedira o pai, s vezes. - Dentro em pouco as trarei de volta. 
Lorinda, porm, sempre se recusara, e, se agora as pusera  venda, fora simplesmente por sentir-se envergonhada do pai tentar fugir ao pagamento de uma dvida de 
honra. 
Quando, afinal, as esmeraldas foram vendidas, sentiu como se uma parte de sua mocidade, com seus ideais, tivesse desaparecido para sempre. Aquela jia tinha para 
ela uma significao muito especial, embora no a pudesse definir exatamente por meio de palavras, e sentiu um grande alvio, vendo que no fora comprada por algum 
conhecido. 
O comprador foi um homem idoso, que parecia um alto funcionrio, e que deveria ser um joalheiro, com inteno de revend-la.  
"Pelo menos, no vou ver nenhuma de minhas conhecidas usando o colar de mame", pensou, aflita para que terminasse o leilo. 
Quando terminou, afinal, seu alvio foi, realmente, indizvel. 
- Um resultado muito satisfatrio, na minha opinio, milady - observou o leiloeiro, quando ficaram sozinhos no salo vazio. 
- Quanto alcanou o total das vendas? - perguntou Lorinda. 
- Cerca de quarenta e cinco mil libras e, se a senhora aceitar vinte mil libras oferecidas pela casa hoje de manh, ter o total de sessenta e cinco mil libras, 
antes de deduzir a nossa comisso. 
- J lhe dei instrues para fazer o pagamento ao Right Honourable Charles Fox.
-  o que se far, milady. 
Lorinda pegou a capa de viagem e p-la nos ombros. 
- Vai-se embora, milady? - perguntou o leiloeiro. 
- Vou sim - respondeu a jovem. Saiu, sem olhar para trs. 
A carruagem de viagem a aguardava, diante da porta, entregue a um criado muito jovem, que ela escolhera porque seu ordenado era inferior ao dos outros. 
A carruagem estava repleta de canastras, malas e caixas, e uma coleo variada de terrinas de lata e utenslios de cozinha, que no valeriam nada, se postas  venda. 
Lorinda contemplou-os sorrindo e, subindo  bolia, pegou as rdeas. 
No havia muita gente ainda fora da casa, mas, ao afastar-se de Hanover Square, a jovem tinha certeza de que, antes do jantar, o beau monde, estaria comentando a 
aventura final de Lady Camborne. 
Em Piccadilly, havia uma multido de basbaques vendo sua passagem. Todos estavam acostumados s coloridas librs da criadagem da aristocracia, mas quem j vira uma 
dama de estirpe com plumas no chapu, guiando uma carruagem de viagem, e, ainda mais, com admirvel percia? 
Estando descansados, 0s cavalos atravessaram a boa velocidade as ruas movimentadas, e avanaram ainda mais depressa, quando encontraram a estrada desimpedida.
Quando j no havia espectadores, Lorinda passou as rdeas para o criado.
- Segure estas rdeas por um tempo, Bem - disse - Temos que viajar muito, e preciso ficar mais a vontade.
O criado obedeceu, e Lorinda tirou o chapu, que guardou embaixo do banco, e cobriu a cabea com uma encharpe, amarrada sob o queixo.
- Uma aventura e tanto, hem, milady? - perguntou com uma caretinha.
- Uma aventura no desconhecido - concordou Lorinda. - E, como no haver regresso, tratemos de nos deleitar com ela. 
Dizendo estas palavras, olhou para o horizonte azul, que se estendia no rumo do sudoeste. 
Sabia que dissera a verdade a Ben: no haveria regresso. 
Era o fim de um captulo de sua vida. 
* * * 
A viagem foi longa, e Lorinda sentiu-se cansada muito antes de chegarem  Cornualha. 
Como no queria trocar os cavalos nas estaes de muda, teve de resignar-se a no viajar to depressa quanto queria. Tinham de chegar cedo a cada pouso, e deixar 
os animais descansarem bastante, para partirem no dia seguinte cedo. 
Como precisava economizar, Lorinda no procurou as hospedarias maiores e mais caras, e sim as menores e menos confortveis, onde o seu aparecimento provocava emoo, 
pois eram raros os hspedes de qualidade. 
Em sua maior parte, os proprietrios faziam questo de agradar, e por mais sem conforto que fosse o leito e mais grosseira que fosse a roupa de cama, ela conseguia 
dormir profundamente, e acordar bem descansada na manh seguinte. 
Trocara o melhor vestido, que usara durante o leilo, por um menos bonito e mais prtico. Chegou a pensar que ficaria muito mais  vontade usando vestes masculinas, 
mas refletiu que, se aparecesse vestida como homem, iria escandalizar a maioria das pessoas que encontrasse. Manteve, pois, seu aspecto feminil, embora a falta de 
um chapu parecesse surpreender muitos dos donos de hospedaria e suas esposas. 
Algumas das estradas eram ms, porm, o tempo estava seco, e, pelo menos, as rodas da desajeitada carruagem no se atolavam na lama, o que constitua uma das maiores 
dificuldades das viagens no inverno. 
Caam, s vezes, pancadas de chuva, mas Lorinda negava-se a seguir a sugesto de Ben, de que entrasse na carruagem enquanto ele dirigia. pois sua capa, que tinha 
um capuz, consistia uma proteo suficiente contra os elementos naturais, 
Em certas ocasies, fazia muito calor, e as moscas atormentavam os cavalos, de sorte que Lorinda tinha de parar e descansar durante uma hora, depois da refeio 
do meio-dia. 
A jovem no conversava muito com Ben, e ficava a maior parte do tempo pensando no que teria que enfrentar, refletindo como seria difcil arranjar as quarenta mil 
libras que ainda devia a Charles Fox. 
Estava certa de que ele no iria exigir, de imediato, o pagamento da dvida, pois era, segundo se dizia, um homem de bom corao, e ele prprio j estivera s voltas 
com dvidas de jogo, sabendo que no era fcil arranjar muito dinheiro de uma hora para a outra. O fato, porm,  que era uma dvida de honra que, custasse o que 
custasse, deveria ser saldada. 
Quando comearam a atravessar a rida e rochosa charneca de Bodmin, Lorinda teve a impresso de que entrara em um mundo novo. 
H muitos anos no via o esturio do Fal, e esquecera quanto era belo, e como eram lindas suas flores, em comparao com outras quaisquer do pas. 
O clima quente, que parecia, s vezes, semitropical, tornava possvel o cultivo de flores e plantas que no vingavam em qualquer outra parte da Inglaterra. Naquela 
poca do ano, eram mais abundantes e mais coloridas do que em qualquer outra ocasio. 
Deleitada, Lorinda reconheceu limoeiros e laranjeiras, e mesmo uma bananeira. Sob as rvores, a relva estava coberta de flores, cujos nomes ela ignorava, e orqudeas 
silvestres, cujos tons cor-de-rosa e roxo lhe traziam lembranas da infncia. 
Quando sua me era viva, costumavam ficar muito tempo na Cornualha, e somente depois de sua morte foi que o conde se negara a sair de Londres. 
O prior ato fora fechado, a partir de ento, havendo apenas um casal que tomava conta, a troco de uma ninharia, porque se dava por bastante feliz tendo um teto onde 
se abrigar. 
Sabendo perfeitamente que seu pai iria mostrar-se muito exigente, Lorinda deu instrues ao criado que levara, sobre a maneira com que deveria agir. 
Esperava ser bem recebida, pois o conde sabia que, com a sua chegada, a situao dele prprio se tomaria mais confortvel. 
Os cavalos alcanaram o alto da colina e, olhando para o vale abaixo, Lorinda, apontando com o chicote, disse a Ben: 
- L est o priorato! 
Havia um leve tom de orgulho em sua voz, ao ver a beleza da paisagem. 
A velha casa fora um priorato ligado ao castelo, que se transformara em runas, havia sculos. 
Muito branca, no meio da verdura das rvores que a cercavam, parecia desafiar o tempo, majestosa, e, para alm dela, como contraste natural, ficava o mar, de um 
azul muito vivo. 
-  sua casa, milady? - perguntou Ben, surpreso. 
- , sim! - respondeu Lorinda, pensando que o criado ficaria menos impressionado, quando visse a casa de perto. 
O abandono j era evidente quando desceram a encosta, pela estrada cheia de buracos e margeada por rvores velhas e maltratadas. 
O ptio diante da porta de entrada estava coberto de ervas daninhas, e uma parte das grades, outrora douradas, tinha cado. 
Lorinda parou a carruagem diante da porta, sentindo os braos doloridos, por ter dirigido durante to longa distncia. No ntimo, dava graas a Deus por no terem 
de ir mais longe. 
Desceu do carro, e o criado que acompanhara seu pai apareceu, seguido por um casal de velhos, naturalmente os caseiros. Cumprimentou-os e entrou na casa. 
O estado da casa era ainda pior do que imaginara. As paredes tinham infiltraes e para os tetos nem valia a pena olhar. Os mveis no eram envernizados havia anos, 
evidentemente, e no havia dvida de que nunca tinham sido espanados. 
Lorinda seguiu adiante, adivinhando que seu pai devia estar ocupando o quarto de que sua me sempre gostara, cujas largas janelas davam para o jardim, e que contava 
com uma bela lareira de mrmore. 
De fato, o conde l estava, sentado em uma poltrona, com uma mesinha de jogo em sua frente. Estava jogando pacincia. 
- Aqui estou, papai. 
O conde no se levantou, limitando-se a encar-la, e ela percebeu que ele andara bebendo. 
- Como voc, cheguei s e salva acrescentou Lorinda. - E, uma vez que se mostra to interessado em saber, posso informar que a viagem foi relativamente confortvel 
e tranqila!
- Trouxe algum dinheiro? - perguntou O conde. 
- Todo o dinheiro apurado no leilo foi remetido, como o senhor devia saber, a Mr. Charles Fox.
- Todo o dinheiro? 
- Naturalmente. 
- Mas que absurdo! - observou o conde. - Como  que voc acha que ns vamos viver? 
- Realmente, no pensei nisso - replicou Lorinda, friamente. - Tenho algumas libras para as nossas necessidades imediatas, e espero que se possa colher no quintal 
alguma coisa para a gente comer. 
- Se est disposta a comer erva daninha ... 
Lorinda chegou  janela e contemplou a selva em que o belo jardim e o quintal se haviam transformado. Os gramados, que antes pareciam um manto de veludo, tinham 
virado um matagal; as flores e arbustos mais pareciam uma floresta tropical, numa confuso de folhas e de cores sem qualquer ordem ou disposio. 
No entanto, o Sol brilhava, e ela no deixava de ter a sensao de haver voltado para casa. 
Saiu para o ar livre, como se esperasse ouvir a voz da me chamando-a. Depois, como se no quisesse relembrar o passado, voltou para o quarto onde seu pai se encontrava. 
- Vou examinar a casa - disse - e gostaria de jantar cedo. Estou morrendo de fome. Desde manh cedinho que no como nada. 
- A comida  horrvel! - disse o conde. - No h ningum na casa que saiba cozinhar. 
Lorinda no esperou que ele acabasse de falar. Comeou a examinar a casa, que ainda estava pior do que esperava. 
- Espero que seja tragvel - disse o conde, no jantar, servindo-se de uma travessa oferecida pela velha caseira. 
- Eu  que fiz quase tudo - disse Lorinda. - Amanh, vou dar algumas lies  Sr.a Dogman, para que a gente, pelo menos, no passe fome. 
- Sem dvida, est melhor do que o que andei comendo estes ltimos dias replicou o conde, com a boca cheia. 
- O senhor no tentou matar alguns coelhos? - perguntou Lorinda. - Vi muitos no parque. 
- Ainda no encontrei uma espingarda - informou o pai. 
- O que andou fazendo, meu pai? 
- Estive na aldeia. 
- Sem dvida, para visitar o "Penryn Arms" - observou Lorinda. 
- Aonde mais poderia ir? - disse o conde. - No encontrei nada para beber nesta casa. 
E explicou, muito calmo: 
- L, pelo menos, h um excelente conhaque! 
Como Lorinda mostrasse surpresa, ele esclareceu: 
- Vem da Frana. De onde poderia ser? - Quer dizer que  contrabando? 
- Sempre foi. Na Cornualha sempre foi assim. 
Lorinda ficou em silncio, e o conde acrescentou, depois de refletir um pouco: 
- Ns mesmos podamos tentar fazer um pouco de contrabando! Dizem que os contrabandistas ganham fortunas, algumas vezes multiplicam o investimento inicial cinco 
vezes! 
-  verdade? - perguntou Lorinda. Lembrou-se de que os aldees sempre viviam empenhados no contrabando ou preocupados com ele. Ouvira falar que os lucros compensavam 
o risco, mas no a tal ponto. 
- O contrabando pelo menos tornaria menos montona a vida neste buraco - observou o conde. 
Falava agressivamente e, no querendo discusses, Lorinda perguntou:
- Devem ter ficado surpresos de v-lo na aldeia. Houve muitas mudanas, depois que estivemos aqui pela ltima vez? 
- Nenhuma, que eu saiba - respondeu seu pai. - A no ser que muita gente morreu, e o resto j deveria ter morrido. 
Lorinda deu uma risada. 
_ Anime-se, papai. Aqui pode no ser Carlton House ou o White's, mas  a nossa casa, e, como temos de morar aqui, devemos tirar o mximo proveito dela. 
- No h proveito nenhum que se possa tirar do nada - resmungou o conde. - No estou recordando muito bem, mas, antigamente, tnhamos vizinhos - observou Lorinda. 
- Se existem, no os conheo ainda. 
- No devem saber que o senhor est aqui. Procure lembrar-se de seus nomes. 
O conde encolheu os ombros, como se no estivesse interessado, mas depois disse, como que relutando em transmitir a informao: 
- H uma novidade. 
- O que ? - perguntou Lorinda. 
- Algum maluco, pois s pode ser maluco, est restaurando o Castelo de Penryn. 
- No acredito! - exclamou a moa. 
-  algum dos Penryn? 
- No. Ouvi falar que ele se chama Hayle, Durstan Hayle, e que veio da ndia. 
- Deve ser muito rico para poder restaurar o castelo - observou Lorinda. - Lembro-me de que ele j estava mais estragado do que esta casa. 
- Na aldeia, dizem que ele est nadando em dinheiro. Ser que joga cartas? 
- O que  isso, papai? - advertiu a jovem. - O senhor sabe muito bem que no poder jogar, enquanto no pagar a dvida. 
- E como  que vamos pag-la? perguntou o conde. - O nico meio de ganhar dinheiro que conheo,  o jogo. 
- O senhor no pode jogar, se no tem dinheiro para apostar - lembrou Lorinda, como se estivesse ralhando com uma criana. 
- Se esse indiano quiser jogar, posso perfeitamente jogar com ele - replicou o conde. - Posso ganhar muito dinheiro dele. 
Lorinda conteve a respirao. "No adianta discutir", pensou. 
No conseguiria fazer com que seu pai compreendesse quanto era censurvel, e mesmo desonroso, querer jogar sem pagar o dinheiro que devia. 
- Estou com vontade de ver o Castelo de Penryn - disse, em voz alta. - O que foi que o senhor ficou sabendo a respeito de Mr. Hayle? 
- Apenas que ele  muito rico. 
- Por que ser que est interessado no castelo? Quase todos os homens que ganham dinheiro no Oriente querem ficar em Londres ou l por perto. 
- Imagino s a confuso que ele vai fazer - disse o conde, sombriamente. Lembro-me de que, quando eu era menino, o castelo era um dos lugares onde se realizavam 
as melhores festas de toda a regio! 
Ficou pensativo por um instante, depois continuou: 
- Costumavam oferecer bailes no inverno, recepes ao ar livre no vero, e o velho Lorde Penryn recebia com uma hospitalidade que j no se v hoje em dia. 
Parecia muito animado, e, para estimul-lo, Lorinda disse: 
- O senhor deve ter se divertido muito naquele tempo, papai. 
- Vou dizer-lhe uma coisa: tnhamos cavalos excelentes! - observou o conde. E, quando Penryn herdou o ttulo, eu e ele costumvamos organizar caadas a cavalo e 
corridas de obstculos. Eram divertidssimas, embora diversos corredores acabassem caindo do animal. 
Deu um suspiro, exasperado. 
- No creio que esse tal sujeito saiba distinguir uma extremidade da outra de um cavalo. Deve estar acostumado a montar elefantes! 
Estava visivelmente irritado, evidentemente porque Mr. Hayle era rico, ao passo que ele estava arruinado. 
O conde era muito mesquinho, s vezes, e Lorinda fez votos para que ele no comeasse a implicar com o novo vizinho, antes mesmo de conhec-lo. 
A no ser que o condado tivesse mudado muito, depois de sua infncia, Lorinda sabia que os vizinhos eram poucos e muito espalhados, e, fosse quem fosse o recm vindo, 
seria aconselhvel manter boas relaes com ele. 
"Talvez seja resultante da idade de papai", pensou. "Mas espero que no vire beberro, pois no podemos gastar muito dinheiro com vinhos!" 
Terminado o jantar, voltou com o pai para a sala de estar, e comeou a imaginar como conseguiria tornar apresentvel pelo menos aquele aposento. 
No era aconselhvel reabrir muitos dos cmodos, tendo apenas o casal de velhos para limp-los. O mais sensato seria misturar os melhores mveis, os sofs e cadeiras 
ainda confortveis, e fechar o resto da casa. 
Como se adivinhasse o que ela estava pensando, seu pai exclamou, de sbito, com violncia: 
- No posso agentar isto aqui, Lorinda! No posso ficar aqui encarcerado, a lguas de distncia de qualquer pessoa com quem se possa conversar, e vendo apenas uns 
roceiros em cuja companhia se possa tomar alguns goles. 
Sua voz denotava tanto desgosto, que, pela primeira vez, Lorinda teve pena dele. 
- No posso fazer coisa alguma, papai - replicou. - Temos de ficar aqui, a no ser que consigamos vender a casa e as terras. Encarreguei os corretores de procurar 
compradores, antes de sair de Londres, mas no  preciso dizer que eles no se mostraram muito otimistas. 
O conde no fez comentrios, e Lorinda prosseguiu, um momento depois: 
- Logo que tiver tempo, irei a Falmouth, para conversar com os corretores imobilirios de l, e talvez possamos colocar um anncio no jornal local. 
Esperava um acesso de fria do pai, por no aceitar a idia, como ocorrera em Londres. Em vez disso, porm, ele disse, aptico: 
- Faa o que quiser! S posso dizer que, se tiver de suportar isto aqui por muito tempo, vou mesmo meter uma bala na cabea! 
Sentou-se na poltrona, ao mesmo tempo em que dava um murro na mesa, fazendo voar para .todos os lados as cartas com que estivera jogando pacincia. 
Como se tivesse perdido os ltimos resqucios de autodomnio, o conde comeou a praguejar, violentamente, e, por vezes, de maneira obscena. 
Lorinda no se disps a escutar e saiu pela porta envidraada indo para o jardim. 
O Sol estava desaparecendo em um esplendor de beleza, tingindo o cu de vermelho e dourado. 
A moa ouviu o silvo estridente de um morcego e viu suas asas pontudas desenhadas contra o cu. 
Afastou-se da casa, at j no ouvir a voz de seu pai e, ento, respirou fundo. 
- No me deixarei derrotar! - disse alto, mas a voz se perdeu entre os espessos galhos das rvores.

CAPTULO III
Estava escuro no bosque, e apenas um plido claro do cu estrelado se filtrava atravs dos ramos das rvores. 
Lorinda, porm, achava ter encontrado o caminho, seguindo, cegamente, o trilho sinuoso que, partindo do priorato e atravessando o bosque, chegava at o mar. 
Tropeou e ouviu o tilintar das moedas no bolso do casaco. Pensou com satisfao que, se seu pai tivesse razo, poderia aument-las cem vezes, antes de receb-las 
de volta.  
Fora uma aventura desesperada pela qual se decidira, mas sentia que era uma soluo que lhe fora imposta, porque, de fato, no haveria outra, de que pudesse viver. 
O dinheiro que trouxera de Londres no iria durar muito tempo, e ela sabia que, muito em breve, teria de contar apenas com o que pudesse ser cultivado no quintal 
ou caado nos campos. No haveria, evidentemente, dinheiro para a bebida que seu pai no podia dispensar, e no havia a menor dvida de que ele j fizera uma dvida 
considervel na "Penryn Arms". 
Durante a viagem, ficara sabendo que havia pagamentos por parte dos arrendatrios da terra que viviam na fazenda. Imaginara que deveria haver dvidas bastante considerveis 
a serem recebidas; muito embora tivesse de reconhecer que se tratava de uma esperana muito precria. 
Os arrendatrios estavam, sem dvida, com os pagamentos atrasados, mas quando os visitou, Lorinda no teve coragem de cobrar-lhes o que deviam. 
Com efeito, eles logo reclamaram uma srie de reparos que deviam ser feitos por conta do proprietrio, e no precisavam dizer-lhe, pois ela via com os prprios olhos 
o estado lamentvel dos telhados das casas e celeiros. 
No haveria, portanto, pagamento por parte dos arrendatrios. Como viveriam, ento, ela e seu pai? 
Lorinda sempre se mostrara disposta a assumir qualquer ao corajosa, ou mesmo escandalosa, e os contrabandistas estavam em condies de oferecer ambas as coisas. 
Ela conseguira esconder o dinheiro do pai, cuidadosamente, mas tirou vinte guinus de ouro do decrescente montante, e, por meio de informaes discretamente colhidas, 
ficou sabendo onde os contrabandistas desembarcavam, quando regressavam de sua longa viagem  costa francesa. 
Logo que lhe disseram que era na enseada de Keverne, lembrou-se muito bem do local: um discreto brao de mar, entre altos rochedos, perto do qual, muitas vezes, 
fizera piqueniques em companhia de sua me ou da bab. 
Enquanto Lorinda caminhava, o cu comeou a clarear e as estrelas a se apagarem. A aurora j se avizinhava, e, naturalmente, os contrabandistas iriam aproximar-se 
do litoral, protegidos pela escurido, para evitar a guarda costeira, e deveriam desembarcar na enseada aos primeiros alvores da madrugada, uma vez que tambm no 
poderiam desembarcar no escuro. 
A jovem lady avanou, imaginando se algum dos homens se lembraria dela. Tinha certeza, porm, que, logo que dissesse quem era, eles se mostrariam inteiramente dispostos 
a receber seu dinheiro, a fim de comprar com ele o conhaque, tabaco, rendas e sedas, que alcanavam preos to elevados nos mercados ingleses. 
O contrabando estava entranhado no sangue dos habitantes da Cornualha, que o praticavam no apenas visando o lucro, como tambm pelas emoes que trazia, e que estava 
bem de acordo com sua natureza aventurosa. 
Lorinda percebia, agora, o arrastar de pequenos animais contra o solo, o ruflar de asas que deixavam as rvores... Um pouco adiante, pde ouvir o barulho das ondas 
quebrando-se de encontro aos rochedos, misturado com o canto das aves que despertavam. 
Lorinda movimentava-se com facilidade, pois no era dificultada por nenhuma saia. Sempre preferira as vestes masculinas, e encontrara, nas canastras guardadas no 
sto do priorato, muitas roupas que seu pai usara quando rapaz. 
As saias rodadas eram pouco prticas, ao passo que os cales, que se ajustavam perfeitamente ao seu corpo, eram o de que necessitava em uma aventura como aquela. 
Encontrou um casaco para cobrir a fina camisa, e, embora velho e estragado, serviu-lhe muito bem. 
Refletindo que seria conveniente que parecesse, realmente, um rapaz, at que os contrabandistas ficassem sabendo quem ela era, escondeu os cabelos ruivos sob um 
gorro de veludo preto, que devia ter sido usado por um dos batedores de seu av. 
Olhou-se no espelho, antes de sair do quarto, e achou que, realmente, seu aspecto estava bem: masculino e que somente olhada mais de perto a beleza de seu rosto 
a trairia. 
Agora,  medida que o barulho das ondas ia se tornando mais forte, as rvores rareavam, e ela avistou,  esquerda, o recortado contorno dos rochedos. 
O terreno comeou a descer na direo da enseada, mas Lorinda se manteve escondida pelas rvores, refletindo que, quando os contrabandistas chegassem, poderiam se 
assustar, se encontrassem algum  sua espera. 
Havia a possibilidade de que, pela suspeita de ser um espio ou um guarda aduaneiro, ela recebesse uma bala no corpo, antes que pudesse explicar sua misso. 
O mato tornou-se mais espesso na encosta, mas Lorinda pde ver a enseada perfeitamente. O brao de mar, estendendo-se terra adentro, entre rochedos elevados, constitua 
um esconderijo ideal para um barco de contrabandistas, no podendo ser visto do; mar. 
De onde estava, porm, foi fcil para a moa verificar que a enseada estava vazia, e que, portanto, os contrabandistas ainda no haviam chegado. 
Enfiando a mo no bolso, a fim de certificar-se de que a bolsa de ouro ainda continuava l, encostou-se ao tronco de uma rvore, para esperar. 
As estrelas j haviam quase se apagado, e a primeira claridade da aurora imprimia a tudo uma beleza etrea, quase indescritvel. 
De sbito, sentindo o corao bater com mais fora, Lorinda viu o ponto negro no mar aproximar-se cada vez mais, at que penetrou na enseada e avanou at perto 
de onde ela estava observando. 
O barco era comprido e estreito, e tinha vinte remadores. Lorinda podia distinguir perfeitamente suas cabeas, desenhadas contra o cu cinzento, mas seus rostos 
ainda estavam envoltos pela escurido, e todos eles guardavam um silncio profundo, movendo os remos sem fazer o menor barulho. 
Dois homens, que vinham  proa, pularam na gua, a fim de puxar o barco para uma praia pedregosa. 
Lorinda notou que a popa da embarcao estava repleta de mercadorias'. Nesse momento, um movimento em terra atraiu-lhe a ateno e, olhando por cima das rvores 
do bosque, ela pde ver um certo nmero de potrinhos, conduzidos por meninotes, que se encaminhavam para a enseada. 
Como todos os homens j haviam desembarcado, Lorinda achou que chegara o momento de procur-los. 
Deu alguns passos para a frente, depois escancarou a boca, para dar um grito de horror, que foi, porm, abafado, antes de escapar. 
A mo de algum tampara-lhe a boca, e um brao duro como ao cingia-lhe o corpo. 
No vira ningum aproximar-se, e a surpresa petrificou-a de assombro, durante um momento. 
Depois, comeou a lutar. Lutou, dando pontaps e contorcendo-se, inutilmente, pois o brao que a apertava era to forte, que ela mal conseguia respirar e a mo que 
lhe cobria a boca era brutal. 
Continuou a lutar, silenciosa e desesperadamente, tanto mais amedrontada quanto no podia ver seu captor. Sabia apenas que ele ali estava e que no adiantava querer 
escapar de seu domnio. 
Com a luta, o gorro lhe caiu da cabea e seus cabelos ruivos tombaram em cascata at os ombros. 
Pela primeira vez, o atacante emitiu um som e deu uma gargalhada, que causou a Lorinda mais pavor do que se tivesse sido uma ameaa. 
Sentiu-se, de sbito, exausta com o esforo que fizera para desvencilhar-se. Lutara desesperadamente, mas sem qualquer resultado. Quase sem poder respirar, sentiu 
o corpo desfalecer sobre o do homem, que disse, em voz baixa: 
- Esta espcie de trabalho no lhe serve. Volte para casa! 
Lorinda ficou furiosa com o tom autoritrio de sua voz. 
Recomeou a lutar, embora soubesse que era de todo intil. 
O homem carregou-a nos braos, e no ficou afetado com os pontaps que lhe tentou acertar. Levou-a de volta pelo caminho por onde ela viera e, quando atingiu a parte 
mais fechada do bosque, onde a luz do Sol no penetrara ainda, p-la de p no cho. 
- Volte para casa! - ordenou. - E guarde seu dinheiro para algum melhor empreendimento. 
Tirou a mo da boca de Lorinda enquanto falava, e a moa percebeu, ento, quanto ele a machucara. Embora estivesse bem escuro, quis virar-se e enfrent-lo. 
As mos do homem, porm, aferraram-se em seus ombros, empurrando-a para a frente e, como no houvesse outra alternativa no momento, a moa seguiu pelo caminho que 
ele queria. 
Caminhou, assim, algumas jardas. Depois, sentindo-se furiosa, ao lembrar-se que estava obedecendo s ordens de um estranho, e com a brutalidade com que fora tratada, 
virou as costas. 
Estava escuro dentro do bosque, e era quase impossvel distinguir 'sequer o contorno das rvores. Lorinda olhou, pensando que o homem deveria ter ficado parado, 
depois que a empurrara, mas nada viu. 
No havia sinal do desconhecido, nem se ouvia o menor rudo. 
Lorinda parou indecisa, sem saber se o desafiaria e voltaria a procurar os contrabandistas. 
Refletiu, depois, que talvez o homem fizesse parte do bando. Quem mais poderia adivinhar que ela trouxera dinheiro consigo? Dinheiro que ela queria que os prprios 
contrabandistas aplicassem em sua prxima viagem  Frana. 
Ficou parada, durante alguns minutos, sem saber o que deveria fazer. 
O homem machucara-lhe muito a boca e o queixo, e o aperto de seu brao talvez lhe tivesse at quebrado alguma costela. Em uma competio de fora, ela no teria 
oportunidade, e, portanto, teria de aceitar o inevitvel. 
Sentia-se sufocar, com aquela raiva que no podia dominar, pois, pela primeira vez na vida, fora derrotada e impedida de fazer o que tencionava. 
O pior era saber que, no apenas seu atacante era um estranho, como nem sequer fazia a menor idia de como era ele. 
* * * 
Lorinda saiu da cocheira com as faces em brasa e um sorriso nos lbios.
Acabara de voltar ao priorato, depois de passar a manh amansando um potro bravo, para um dos seus arrendatrios.
O homem lhe dissera que comprara o animal na feira de cavalos, que se realizara em Falmouth, na semana anterior, e que somente quando o trouxera para a casa constatara 
que era inteiramente selvagem. 
- Comprei-o muito barato, milady, mas estou vendo que joguei fora meu dinheiro - lamentou-se o homem. 
- Eu o amanso para o senhor - prometeu Lorinda, com os olhos brilhando. 
- Eu lhe ficaria muito grato, milady. Mas acho muito perigoso. 
- No vai me acontecer nada - afirmou Lorinda, confiante. 
Foi uma luta que durou duas horas, mas da qual no havia dvida de que Lorinda sara vitoriosa. 
Ainda haveria muita coisa a fazer, mas o potro j estava comeando a reconhecer a superioridade da domadora, e no levaria muito tempo para obedecer s suas ordens. 
Quando Chegou em casa, notou que l estava um faton elegantssimo, puxado por uma parelha de cavalos castanhos, que a fizeram ficar boquiaberta de admirao. Junto 
dos cavalos, estava um palafreneiro, e Lorinda deduziu que o dono da carruagem devia estar no interior, com seu pai. 
Apressou os passos, ao atravessar o vestbulo, imaginando quem poderia ser. 
Nem lhe passou pela cabea a idia de que deveria trocar os cales de montar que usava, e que tinham sido de seu pai, e tirar as botas com esporas de prata. 
Como o dia estava quente, o busto estava coberto apenas por uma camisa de homem, com um leno de seda amarrado em torno do pescoo. 
Estava vestida bem a propsito, para amansar um potro fogoso, embora tivesse notado que o arrendatrio a olhara muito espantado, levando-a a pensar que, mais cedo 
ou mais tarde, aquela gente teria que se acostumar com sua aparncia. 
Teria sido impossvel para ela fazer a faanha daquela manh metida em uma amazona, que as mulheres usavam para andar a cavalo, ou sentada em um silho, em vez de 
estar montada em uma sela. 
Os cabelos tinham sido penteados formando na nuca um coque que se desfizera durante a luta com o cavalo, caindo soltos pelos ombros. 
Sem pensar, contudo, em sua aparncia, Lorinda abriu a porta da sala de estar. 
Como esperava, seu pai no estava s, e os dois homens achavam-se de p junto  janela, conversando. 
Viraram-se, quando Lorinda entrou, e a moa viu que o visitante era um homem alto, de ombros largos e, embora no compreendesse bem por que, achou-o diferente de 
todos os outros homens que conhecera at ento. 
No era exatamente bonito, mas tinha um rosto extremamente simptico e, por baixo das sobrancelhas fortemente acentuadas, os olhos escuros eram vivos e observadores. 
Encarou a jovem de um modo que ela achou que refletia mais impertinncia do que admirao e, quando ela se aproximou, havia algo de sarcstico no leve sorriso que 
lhe entreabriu os lbios finos, que a levou a irritar-se. 
- Ah!  voc, Lorinda?! - exclamou o conde. - Estivemos ontem conversando a respeito de Mr. Dustan Hayle, e ei-lo em pessoa! 
Lorinda estendeu a mo.
- Muito prazer! 
O visitante apertou-lhe a mo com fora e, pela primeira vez, ela pensou que deveria ter mudado a roupa e posto um vestido. Naturalmente, Mr. Hayle esperava que 
ela fizesse uma cortesia, o que seria inconcebvel com aqueles cales de montaria. 
- Estive amansando um potro para o nosso arrendatrio Trevin - disse ela, quase que aborrecida consigo mesma, por ter achado necessria uma explicao.. 
Instintivamente, levantou a cabea, e seus olhos tinham uma expresso de desafio, quando encontraram os de Mr. Hayle. 
Algo, evidentemente, o divertiu, antes que ele afastasse os olhos, para dirigir-se ao conde. 
- Tenho que me retirar, milorde, para que reflita sobre a proposta que lhe fiz. Desejaria saber a resposta hoje  noite, ou, no mais tardar, amanh cedo. 
- Que proposta? - perguntou Lorinda. 
- Seu pai lhe dir, depois que eu me tiver retirado - respondeu Durstan Hayle. 
Essa resposta enfureceu Lorinda, embora, afinal de contas, ela soubesse muito bem que seu pai no decidiria coisa alguma, sem consult-la. 
- Gostaria de saber do que se trata - insistiu. 
Mr. Hayle encarou-a, e, mais uma vez, ela sentiu que havia algo de impertinente na maneira com que a olhava, incontestavelmente crtica. 
Estendeu a mo ao conde. 
- Estou muito interessado em saber a sua deciso, milorde - falou, saindo da sala sem sequer olhar para Lorinda. 
Esta olhou-o, atnita. 
No era aquela, sem dvida, a maneira com que os homens habitualmente a tratavam, e ela sentiu-se ainda mais irritada ao admitir que o visitante possua uma distino 
que ela no esperava encontrar no campo. 
Sua roupa era bem-feita e estava no rigor da moda, mas ele a usava com uma displicncia que lhe era intrnseca, e que mostrava quanto tinha confiana em si mesmo 
e que pouco-caso fazia da opinio alheia. 
Lorinda no refletiu muito em como j sabia tanto a seu respeito. Era um conhecimento instintivo, e mal a porta se fechou, deixando-a sozinha em companhia do pai, 
virou-se para este, com uma voz inesperadamente spera: 
- O que foi que ele lhe props, papai? Para sua surpresa, o conde atravessou a sala e foi sentar-se na poltrona de costume, antes de responder. 
Parecia incapaz de encontrar as palavras convenientes, e Lorinda fitou-o, apreensiva. 
- E ento? - perguntou. - Evidentemente,  alguma coisa fora do comum, seno ele no faria tanto segredo. 
Falou com desdm, e o pai parecia sem coragem de encar-la. Lorinda, aproximando-se dele, insistiu, decidida: 
- Diga-me o que , papai. Vou ter de saber, mais cedo ou mais tarde. 
- Hayle props comprar o priorato e todas as terras! 
Os olhos de Lorinda brilharam. 
- Isso seria a soluo de todos os nossos problemas! Quanto foi que ele ofereceu? 
- Oitenta mil libras! 
- Oitenta mil libras? - repetiu Lorinda, estarrecida. - Ele deve estar doido! No vale a metade! 
- Ele me disse que, com quarenta mil libras, pagaria a dvida para com Charles Fox, e sobrariam quarenta mil para mim mesmo. Voc tem de concordar que foi uma oferta 
generosa. 
-  claro que  generosa! Aquele homem deve ser doido varrido, ou ento tem algum outro motivo para andar jogando dinheiro fora. Naturalmente, o senhor aceitou, 
no  mesmo? 
- Achei que deveria primeiro conversar com voc. 
- Devia estar cansado de saber que eu no iria discordar - disse a moa. -  muito mais do que espervamos. O senhor ficaria livre da dvida e, se soubssemos gastar 
com moderao, poderamos viver perfeitamente com quarenta mil libras. 
- Hayle sugeriu que eu fosse para a Irlanda - disse o conde. - Naturalmente, eu nada disse, mas parece que ele sabe que no desejo voltar para Londres, por enquanto. 
- Como foi que ele soube disso? - perguntou Lorinda. 
O conde encolheu os ombros. 
- No fao a menor idia e, evidentemente, no toquei no assunto com ele. 
- Realmente, o senhor no pode voltar, nem mesmo depois que a dvida for paga, e a Irlanda , sem dvida, uma boa alternativa - concordou Lorinda. - No h lugar 
melhor para caadas. Eu vou gostar muito. 
Houve um pequeno silncio, depois o conde observou: 
- Voc no iria comigo. 
- No iria com o senhor? - replicou Lorinda. - O que est querendo dizer? 
- H uma condio para ultimar a transao. 
Era, evidentemente, algo constrangedor, e Lorinda olhou, perplexa, para o pai, antes de perguntar: 
- Qual  a condio? 
- Que voc se case com ele! 
Lorinda arregalou os olhos. 
Durante um momento, ficou de todo sem voz, depois conseguiu articular: 
- O senhor est brincando, papai? 
- No. Foi a oferta de Hayle: que ele compraria o priorato e as terras e, como no h outro Camborne para manter a tradio, ele se casaria com voc, para que voc 
ficasse proprietria em parte. 
- Ele deve estar doido! - exclamou Lorinda. - Nunca ouvi falar de uma coisa to insensata em minha vida! 
Estendeu o brao, para se apoiar na lareira, como se estivesse precisando de apoio, e acrescentou: 
- Presumo que o senhor tenha discutido com ele, papai. Disse-lhe que estamos dispostos a vender-lhe a casa e as terras por menos, se ele no incluir a condio? 
- Ele deixou bem claro que s a compraria se voc se tornasse sua esposa disse o conde. 
- No podia estar falando srio! No me conhecia at hoje, e, se j me tinha visto antes de conhecer-me pessoalmente, hoje no deu a menor demonstrao de estar 
apaixonado por mim. 
Isso, alis, pensou, no era muito surpreendente, em vista da maneira como se achava vestida. Mas, se ele ficara chocado, tanto melhor. Iria desistir de sua idia 
ridcula. 
Na verdade, poderia comprar o priorato e as terras por trinta mil libras. Lorinda, alis, no esperava nem isso. 
Por outro lado, casar-se com aquele estranho, um homem a respeito do qual nada sabia, era uma proposta absurda demais para ser sequer cogitada. 
- Tenho de conversar com ele! - exclamou. 
Seu pai remexeu-se, inquieto. 
- Hayle deixou bem claro que s queria entender-se comigo. Acho que ele no gosta de mulheres que se metem em negcios. 
- Ento, vai ficar sabendo que est enganado. 
- Ele faz questo de que a resposta seja dada hoje  noite ou amanh cedo. Acho que pretende sair do castelo amanh  tarde. 
- Est impondo condies, que, como o senhor sabe muito bem, papai, so inaceitveis! 
O conde levantou-se da cadeira. 
- Com todos os diabos, Lorinda! No pode exigir uma coisa dessas! Voc sabe muito bem que no vamos receber oferta melhor. Qual seria a outra pessoa capaz de oferecer 
oitenta mil libras por uma casa arruinada e umas terras que necessitam o emprego de muito dinheiro para serem aproveitadas? 
Lorinda sabia que era verdade. 
- Alm disso, assim eu poderia ir-me embora - disse o conde. - No agentarei isto aqui por muito mais tempo! Na verdade, Lorinda, juro que se voc no aceitar essa 
proposta, eu me suicidarei, como pretendia fazer, quando voc se intrometeu. 
Caminhou at a janela. 
- Execro o campo sem dinheiro! Sem cavalos, sem uma casa aonde possa receber convidados, sem poder caar! Eu poderia ter tudo isso na Irlanda, e jogar com gente 
de minha classe. 
- E para que possa fazer isso tudo, espera que eu me sacrifique? - retrucou Lorinda, asperamente. 
- Voc ter que casar-se algum dia disse o conde. - J recusou muitos pretendentes. Por que diabo iria recusar um marido rico, quando tem oportunidade? 
Lorinda respirou fundo. No tinha resposta. 
- Se eu tivesse cumprido meu dever de pai, j a teria obrigado a casar-se, h muito tempo - prosseguiu o conde. - Afinal de contas, o que  que voc est esperando? 
Que o anjo Gabriel desa do cu? Que o X da Prsia lhe oferea seu trono? Voc no passa de uma mulher e, como toda mulher, precisa de um lar e de um marido para 
dirigi-la. 
- E acha que Mr. Hayle est capacitado para isso? - perguntou Lorinda, com desdm. 
Mal dissera estas palavras, lembrou-se da dureza dos olhos do seu vizinho e do seu sorriso sarcstico. 
- No me casarei com ele! - disse. No vou me sacrificar para que o senhor goze a vida! 
Houve um silncio, depois o conde fechou a cara. 
- Voc ir casar-se com ele! - exclamou. - Desta vez, no vai me desafiar, Lorinda, e no estou disposto a ouvir mais seus argumentos. 
Lorinda fez meno de falar, mas seu pai no lhe deu oportunidade. 
- Vou aceitar a proposta de Hayle, e o casamento se realizar quando for da convenincia dele. Voc fala demais acerca de honra da famlia. Pois muito bem. Quando 
eu estiver com o dinheiro bem seguro no bolso, voc poder fazer o que lhe der na telha, para cumprir a sua parte do contrato. 
Mal acabara de falar, o conde virou as costas e afastou-se. 
- O senhor no pode fazer isto, papai! - protestou Lorinda. 
Ele no respondeu, limitando-se a sair da sala, batendo a porta com fora. A jovem sentou-se, com o rosto entre as mos. 
- No vou me casar com ele! No vou! - disse, e repetiu vrias vezes, durante o resto da tarde. 
Quando viu um dos criados esperando junto  porta de entrada, cerca das cinco horas, entendeu o motivo. 
- Correndo  sala, encontrou o pai fechando uma carta que acabara de escrever e percebeu que ele estava inteiramente bbado. 
- Aceitei a proposta de Hayle! - anunciou ele, com a voz pastosa. - Voc no poder fazer mais coisa alguma! 
Lorinda encarou-o e, vendo o seu estado, percebeu que seria intil qualquer discusso. Era duvidoso que, logo depois, ele se recordasse de qualquer coisa que fora 
dita. 
Tomou uma resoluo. 
D- me esta carta - disse. 
- Se voc rasg-la, escreverei outra. 
- No tenho inteno de rasg-la - replicou Lorinda. - Eu mesmo a entregarei a Mr. Hayle. 
Estendeu o brao, e o conde, embora relutante, entregou-lhe a carta. 
- Se voc me impedir de receber aquele dinheiro para ir para a Irlanda, juro que a estrangularei! - ameaou o conde. Era isto que eu deveria ter feito, quando voc 
nasceu! 
- O senhor queria um filho, e eu o decepcionei - replicou Lorinda. -  tarde demais para fazer qualquer coisa, mas no  tarde demais para eu dizer a Mr. Hayle o 
que penso dele. 
E saiu da sala, sem esperar pela resposta do pai. 
Antes do ch, trocara a roupa de montar por um vestido muito bem-feito, de saia rodada, e com um fichu branco. No estava disposta a trocar de roupa de novo. Mandou 
o palafreneiro arrear o cavalo com um silho, e disse-lhe que seus servios estavam dispensados. 
No se preocupava com o que vestia para andar a cavalo e, sem chapu ou luvas, levando apenas um chicotinho, partiu na direo do Castelo de Penryn. 
A distncia entre o castelo e o priorato era apenas de duas milhas, atalhando pelos campos, embora fosse muito mais longe pela estrada. 
O calor do dia desaparecera, e as sombras se faziam maiores sobre a relva coberta de flores. Se no estivesse to preocupada, Lorinda teria apreciado a beleza da 
paisagem, mas sentia-se apreensiva de uma maneira que nunca experimentara at ento. 
Tinha a angustiante impresso de que iria ser arrastada por uma onda e que coisa alguma a poderia salvar. Era uma ironia do destino que, depois de ter recusado, 
durante dois anos, todos os pretendentes que de joelhos lhe ofereciam o corao, tivesse sido apanhada por uma armadilha. Estava ameaada de ser levada ao altar 
 fora, quando todos os instintos de seu corpo se revoltavam contra isso. 
"Poder haver alguma coisa mais incrivelmente absurda?", perguntava a si mesma. 
Procurava acreditar, como pensara a princpio, que se tratava de uma brincadeira, mas Durstan Hayle parecia realmente disposto a levar a srio tudo que fazia. 
"No o suporto e acho insuportvel a idia de me casar com ele!", pensou. 
Muito antes de se aproximar do castelo, divisou-o  distncia. 
Fora construdo em uma colina, nos dias em que era sempre conveniente ver a aproximao dos inimigos, e j existia h sculos. A construo original tinha sido uma 
fortificao relativamente pequena, que fora, porm, sendo ampliada, atravs dos sculos. Embora houvesse sido conservada a grande fortaleza de pedra original, a 
casa era elisabetana, com acrscimos posteriores nos estilos da Rainha Ana e georgiano. 
Depois que Lorinda nascera, porm, nenhum Penryn residira no castelo. Seus enormes aposentos vazios, com os tetos ameaando cair, e as escadas em caracol, que pareciam 
ter sido construdas apenas para serem usadas por fantasmas, tinham constitudo a alegria e o deleite de sua infncia. 
Lorinda lembrava-se de perseguir os companheiros de brinquedo de sala em sala, brincando de esconder, e gritando, para ouvir o eco repetir-lhe a voz, no enorme prdio 
vazio. 
Agora, ao aproximar-se, viu que as janelas tinham sido envidraadas de novo e os jardins restaurados. Os gramados tinham sido aparados e, embora a tarde j estivesse 
muito avanada, ainda havia um bom nmero de homens trabalhando nos canteiros. 
"O dinheiro pode comprar tudo!", pensou Lorinda, desdenhosamente, lembrando-se, com pesar, do abandonado jardim do priorato, que fora outrora o orgulho de sua me. 
Aproximando-se da enorme porta de entrada com suas guarnies de bronze, um criado correu a segurar seu cavalo, enquanto ela apeava e subia a escada. 
 porta que se abriu, a jovem viu o mordomo que a esperava, ladeado por vrios lacaios de libr. 
- Quero falar com Mr. Durstan Hayle - disse, com voz clara e imperiosa. 
- Pois no, milady - disse o mordomo. - Pode dizer-me o seu nome? 
- Lady Lorinda Camborne - respondeu a moa, notando, pela expresso de seu rosto, que o mordomo a conhecia de nome e devia ser, portanto, da Cornualha. 
Levou-a, caminhando com certa pose, atravs do vestbulo, que havia sido restaurado de um modo que despertou a admirao de Lorinda. Pela primeira vez, pode apreciar 
os maravilhosos trabalhos de estuque, que antes estavam sujos e quebrados; todos os nichos continham esttuas, e a escada curva, de madeira trabalhada, j no estava 
cheia de buracos. 
O mordomo abriu a porta de uma sala que sempre parecera mais vazia do que as outras, porque, sendo destinada  biblioteca, s continha estantes destroadas para 
dar a perceber a sua condio. 
Durante um momento, Lorinda ficou atnita com a transformao ocorrida. 
O teto fora pintado de novo, por mo de mestre, e livros cobriam todas as paredes. Uma magnfica lareira de mrmore, de que Lorinda lembrava negra e suja, agora 
resplandecia, muito clara, e, em vez de fogo, havia flores no fogo. 
- Lady Lorinda Camborne, sir! - anunciou o mordomo, e Mr. Hayle levantou-se de uma cadeira, onde estivera lendo um jornal. 
A moa encaminhou-se para ele, percebendo em seus olhos a mesma expresso penetrante, que a fez lamentar no ter posto um chapu sobre a cabeleira ruiva. 
Lorinda fez uma cortesia, que Hayle retribuiu. 
-  uma surpresa - disse ele - embora eu imaginasse que a senhorita iria querer conversar comigo. 
- Era evidente, no acha? - perguntou Lorinda. 
- Quer fazer o favor de sentar-se? Apontou para uma cadeira, e Lorinda sentou-se, com muita graciosidade, apesar da tenso em que se encontrava. 
- Em que lhe posso ser til? - perguntou Hayle, sentando-se diante dela. - Ou ser ociosa a pergunta? 
- Vim aqui para saber se foi mesmo a srio que o senhor fez aquela ridcula proposta a meu pai. 
- No posso admitir que oitenta mil libras sejam uma coisa ridcula - contestou Durstan Hayle. 
- No estou me referindo  importncia que o senhor ofereceu para comprar o priorato, mas  condio que imps - disse Lorinda. 
- Eu j desconfiava mesmo que a senhorita iria melindrar-se com a proposta - observou Hayle, com o sorriso que tanto irritava Lorinda. 
- Ento por que fez a proposta, se sabia que eu a iria recusar? 
- Se essa  a resposta de seu pai, Lady Lorinda, no temos, realmente, mais nada para conversar - disse Hayle, com frieza, pondo-se de p, enquanto falava. 
Lorinda encarou-o com os olhos arregalados. Jamais encontrara, ou mesmo imaginara, um homem que a tratasse daquela maneira. 
- Ainda quero dizer muita coisa - observou, depois de um pequeno silncio. 
- A oferta que fiz a seu pai  muito clara - insistiu Durstan Hayle. -  tudo, ou nada! 
- Mas por que quer casar-se comigo? - perguntou Lorinda. 
- Acho uma pena que no exista mais um Camborne com a posse, digamos parcial, das terras que foram da famlia durante quinhentos anos. 
- Essa  a verdadeira razo de me pedir em casamento? 
- No posso imaginar outra melhor respondeu Hayle. - Tenho grande apreo pela histria da Cornualha. 
Talvez pela primeira vez na vida, Lorinda no teve argumentos. Nenhum homem jamais a pedira em casamento de um modo to indiferente e pouco comprometedor. 
- O que eu queria sugerir - disse ela, depois de um momento - era que o senhor ficasse com a casa e as terras por um preo menor, excluindo-me do negcio. 
- No estou disposto a discutir isto - respondeu Durstan Hayle. - E, como disse a seu pai, prefiro tratar de negcios com um homem. 
- Como o negcio, por me incluir, me interessava muito de perto, achei justo participar da discusso. 
- Muito bem, Lady Lorinda. Acho que a senhorita entende bem as coisas. Minha oferta ficar de p at amanh cedo. Depois disso, ser retirada. 
- Estou lhe propondo um compromisso. 
- E eu estou recusando. Se no temos mais nada a dizer, permita-me que a reconduza  sua carruagem. 
Evidentemente, Hayle esperava que a jovem se levantasse, mas ela continuou sentada. 
Sua mente era um turbilho. Tinha a impresso de haver chegado diante de um paredo intransponvel, mas no queria reconhecer a derrota. 
Imaginava, febrilmente, todas as maneiras possveis de fazer com que Hayle mudasse de idia e aceitasse o compromisso que lhe vinha propor. 
Notou que ele a estava encarando e, mais uma vez, seu sorriso sarcstico deu-lhe a impresso, embora isso parecesse inconcebvel, de que ele a desprezava. 
Talvez esperasse que ela se humilhasse, que implorasse, mas isso jamais haveria de acontecer, pensou, cheia de orgulho. 
Ele a acuara e, no momento, ela no sabia como escapar. Estava disposta, porm, a no se humilhar, mas a desafi-lo da maneira que pudesse. 
- O senhor pensou, realmente, nas conseqncias de sua extraordinria oferta? - perguntou. 
- Sou um homem de negcios - respondeu Durstan Hayle. - Assim sendo, examino cada negcio de que trato sob todos os ngulos possveis. 
Lorinda irritou-se com o emprego da palavra "negcio", no que lhe dizia respeito. 
- Naturalmente - disse, encarando o adversrio - o senhor no pode admitir a idia de se casar com uma mulher que no o estima. Realmente, quero deixar bem claro 
que considero sua oferta como um insulto e o que tenho visto me faz encarar o futuro com muita preocupao. 
-  muito franca - observou Durstan Hayle. 
- Podia ser outra coisa? - perguntou Lorinda. - O senhor no me conhece e no sabe, portanto, que abomino a simples idia de me casar. Detesto os homens! Embora 
tenha recebido muitas propostas de casamento nos ltimos dois anos, nunca sequer me passou pela cabea a idia de aceitar qualquer delas. 
- Isso, sem dvida, facilita as coisas disse Hayle. - Se a senhorita estivesse apaixonada por algum rapaz com quem no pudesse casar, a situao entre ns dois no 
seria agradvel. 
- No me pode acontecer nada mais desagradvel do que casar com um homem a respeito do qual nada sei - replicou Lorinda. - E que, alm disso, parece de todo insensvel 
aos meus sentimentos. 
- Como, evidentemente, a senhorita  insensvel aos meus - retrucou o outro. 
Lorinda conteve uma exclamao exasperada e ps-se de p. 
- O senhor pretende mesmo continuar com essa farsa? - perguntou. - Casar-se comigo porque sou uma Camborne... 
Mudou o tom de voz, acrescentando: 
- Ser essa a razo? Tendo enriquecido, o senhor est querendo uma esposa aristocrata? Devo dizer-lhe ento, Mr. Hayle, que existem muitas mulheres que aceitariam 
o senhor e sua riqueza com o maior prazer. Por que no procura uma delas? 
- Porque elas no apresentam a vantagem de ter uma propriedade que, anexada  minha, d exatamente a rea de terreno de que preciso - respondeu Durstan Hayle. 
O seu modo de falar despertou em Lorinda vontade de gritar com ele, e at de bater-lhe. Como podia aquele homem ser to convencido, to satisfeito consigo mesmo, 
julgar-se to superior, quando no tinha superioridade alguma? 
- O senhor pode ficar com a terra, mas por que no levanta seu corao um pouco mais alto? - disse. - No  crvel que se contente com a filha de um conde arruinado. 
Tenho certeza de que o senhor poderia encontrar uma moa cujo pai ostente a coroa ducal. Ento, todas as portas da sociedade lhe sero abertas. 
. - Sem dvida,  uma idia digna de ser levada em considerao - replicou Durstan Hayle, algidamente. - Mas eu a escolhi. 
Parecia um sulto, concedendo seus favores a uma concubina, pensou Lorinda, furiosa. 
Ficou de p diante dele, com os olhos verdes fuzilando de raiva, e sentiu um tumulto dominar-lhe o peito, sob o fichu que lhe envolvia os ombros. 
- Sim ou no? - perguntou Durstan Hayle, sem se alterar. 
Lorinda teve vontade de recusar, de rasgar o bilhete que seu pai enviara, e de mandar aquele homem para o inferno. 
Depois, lembrou-se de quo pouco dinheiro lhes sobrara e que, se seu pai tivesse de enfrentar a pobre e a solido do priorato, poderia, realmente, concretizar sua 
ameaa de suicidar-se. 
Lentamente, odiando o homem que estava em sua frente com uma violncia que ela mesma no sabia possuir, tirou o bilhete de seu pai do bolso da camisa. 
Durante um momento, teve a impresso de que estava assinando a sua prpria sentena de morte, ou sua condenao a uma priso perptua de onde no poderia escapar 
e onde sofreria a tortura dos condenados. 
Ento, fingindo um orgulho que no sentia, apresentou o bilhete. 
- Aqui est a carta de meu pai aceitando sua oferta - disse, desdenhosamente. - Mas quero que fique tudo bem claro. Isso se faz contra a minha vontade e a idia 
do casamento me repugna fisicamente! 
Durstan Hayle recebeu a carta e fez uma mesura, irnico. 
- Sua deciso  sensata. Realmente, no tinha outra alternativa - disse. 
Lorinda no se dignou a responder, mas atravessou a sala, e ficou esperando que ele abrisse a porta para ela. 
Caminhou  sua frente, em silncio. No vestbulo, havia a mesma exibio de lacaios, e, sem despedir-se, ela saiu da casa e desceu a escada, indo at o local onde 
o cavalo a estava esperando. 
Estava certa de que Durstan Hayle se surpreendera com a maneira pela qual fora visit-la. 
Um palafreneiro ajudou-a a montar, depois, esporeando o animal, ela f-lo partir a galope. 
No olhou para trs, mas tinha a desagradvel sensao de que Durstan Hayle continuava a olh-la, com o sorriso cnico e zombeteiro que lhe era habitual. 

CAPTULO IV 
Lorinda ficou de p  janela, contemplando o parque. 
Era um dia de um sol brilhante, e a profuso de flores no jardim flamejava no verde das sebes de teixo e dos arbustos mais delicados. 
Lorinda acordara com a sensao de que uma coisa horrvel estava prestes a acontecer, e lembrou-se, depois, como se tivesse sido atingida por um raio, que era o 
dia de seu casamento. 
No conseguira dormir seno a altas horas da noite e, mesmo ento, ainda pensava que talvez ocorresse um milagre e que aquele dia jamais chegasse. 
Agora, porm, faltava menos de uma hora para que seu pai a conduzisse at a igrejinha cinzenta onde fora batizada, a fim de que se casasse com o homem que odiava. 
No tornara a ver Durstan Hayle, desde o dia em que fora ao castelo, e s conseguira sofrer uma derrota diante dele. 
Ele estivera fora, Lorinda no sabia onde, mas as providncias para o casamento tinham sido tomadas, e ela fora informada pelo administrador de Hayle a respeito 
da maneira com que tudo se desenrolaria. 
Depois da cerimnia do casamento, que seria celebrado pelo vigrio, os dois iriam ao castelo, o almoo de npcias, ao qual estariam presentes todas as personalidades 
de destaque do condado. Lorinda no sabia quem eram essas personalidades, nem se dignara a indagar a respeito. Achava, contudo, que no deveria ser muita gente. 
Depois do almoo, seriam reunidos os arrendatrios e os empregados, aos quais seria oferecida uma festa, no grande celeiro de Tithe, que, segundo se lembrava Lorinda, 
no tinha telhado, mas que tambm deveria ter sido restaurado. 
 noite, haveria fogueiras e danas ao ar livre, em que os danarinos de Morris constituiriam o ponto alto da festa. 
Lorinda manifestara sua desaprovao por esses preparativos, ao passo que seu pai se regozijava, repetindo que tais festas seriam a reproduo das que se celebravam 
no passado, e que ele tivera ocasio de assistir, quando criana. 
Lorinda no recebeu qualquer comunicao pessoal do futuro marido mas, sempre que pensava nele, sentia a repulsa crescer em seu ntimo, at ficar apreensiva com 
a intensidade do seu ressentimento. 
"Eu o odeio! Eu o odeio!", dizia a si mesma, sabendo que a armadilha que recebera havia se fechado em torno dela e, depois daquele dia, no haveria mais possibilidade 
de escapar. 
J estava com o vestido que pretendia usar no casamento. 
Naquela manh, muito cedo, logo aps ter acordado, a idosa Sr.a Dogman subira a escada levando uma caixa enorme, que fora trazida por uma carruagem vinda do castelo. 
Mesmo antes de abri-Ia, Lorinda desconfiou do que continha. Quando levantou a tampa e olhou seu interior, viu que no se havia enganado. 
Durstan Hayle lhe mandara o vestido de noiva! 
Era, na realidade, o vestido mais lindo que j vira, e lhe assentava como uma luva. De cetim branco, coberto por tnue e alva gaze, fazia destacar a perfeio de 
sua ctis, e os cabelos ruivos eram mais lindos ainda sob o belssimo vu de renda que o acompanhava. 
No tinha inteno, porm, de permitir que Durstan Hayle escolhesse ou pagasse seu vestido de casamento. Iria usar o que quisesse, e Hayle no teria autoridade sobre 
ela, enquanto a aliana de casamento no estivesse, realmente, em seu dedo. 
No tinha dinheiro para comprar um vestido novo, ainda que pretendesse us-lo, mas seu guarda-roupa estava repleto de vestidos elegantes, que usara em Londres, e 
que tinham sido muito admirados quando se apresentara com eles. 
Olhara-os, pondo de lado primeiro um, depois outro, at que, com um sorriso de contentamento, escolhera, no um vestido branco, mas um cor de esmeralda. 
Sabia perfeitamente que aquela atitude pouco convencional, que no espantaria seus antigos conhecidos, iria causar surpresa, e talvez mesmo revolta, aos moradores 
de Cornualha, gente mais conservadora, e principalmente a Durstan Hayle. 
Com o vestido verde, de fato apropriado para a noite, pusera um chapu de abas largas, que enfeitara com penas verdes de avestruz. 
Com o vestido, ficou muito bela e, ao mesmo tempo, sensacional. Ao olhar-se no espelho, pensou que, sem dvida alguma, Durstan Hayle iria achar que ela estava querendo, 
deliberadamente, assumir um ar de desafio. 
"No lhe serei submissa!", disse a si mesma. "J que ele me comprou, tornarei sua vida to infeliz quanto me for possvel." 
Levantou a cabea, e seus olhos fuzilaram, ao sentir-se pronta para a batalha. Ao afastar-se do espelho, para acabar de arrumar as malas, ouviu que o pai a chamava. 
Ainda no era hora de ir para a igreja, e ficou imaginando o que seria. 
Talvez o conde descobrisse mais coisas que quisesse levar consigo para a Irlanda. Durante os dez dias que precederam o casamento, Lorinda no pudera dedicar um minuto 
a si mesma. A excitao do pai diante da iminncia de partir para um outro pas parecia com a de um rapazinho, preparando uma viagem de frias. 
O conde estava bebendo muito menos que de costume, e arrecadando tudo que encontrava e que julgava til para facilitar- lhe a vida no novo lar que pretendia estabelecer. 
- E se Mr. Hayle se opuser a que o senhor leve essas coisas para fora da casa? _ sugeriu Lorinda. - Afinal de contas, ele comprou tudo, de porteiras fechadas. 
- Ele no vai querer todos os retratos da famlia, nem voc tambm vai! - replicou o conde. - E fao questo de ter alguns de meus antepassados perto de mim. 
Sem dvida, queria impressionar os conhecidos. Realmente, j se lembrara de alguns conhecidos radicados na Irlanda, e fizera Lorinda escrever cartas a dois ou trs 
antigos amigos, anunciando sua chegada. 
Seria desnecessrio dizer que tudo que queria levar tinha de ser emalado por Lorinda ou pelos criados. Era uma tarefa exaustiva, e o pequeno monte de objetos pessoais 
havia se transformado em uma montanha de bagagem, que aumentava de dia para dia, no vestbulo. 
- No acha melhor levar a casa consigo? - perguntou-lhe a filha. 
- Se eu pudesse, levaria - replicou o conde. - Se eu tivesse o dinheiro de Hayle para gastar no priorato, eu o teria transformado em uma esplndida manso! 
- Mas teria de morar na Cornualha, que o senhor acha horrvel, papai. 
-  verdade - admitiu o conde. Sempre ouvi dizer que Dublin  uma cidade muito alegre, e que tem salas de jogo quase to boas quanto s de Londres. 
Lorinda deu um suspiro. No adiantava pedir ao pai que no continuasse jogando. Sabia que era perder o tempo, mas a verdade era que, se, daquela vez, ele tivera 
a sorte de livrar-se de sua dvida, no iria ser to fcil da prxima vez. 
"O que adianta falar?", disse a si mesma. "Papai continuar jogando, forem quais forem as conseqncias." 
- Lorinda! 
A voz do conde retumbou pela escada, e a moa abriu a porta do quarto. 
Lorinda! - gritou ele, de novo. - O que , papai? 
- Venha aqui embaixo! 
A jovem obedeceu, caminhando devagar, olhando, ao mesmo tempo, para a montanha de canastras, malas e caixotes que ocupava quase todo o vestbulo. 
O conde devia estar na sala de visitas, mas, ao abrir a porta, Lorinda viu que ele no estava s. 
Durstan Hayle encontrava-se em sua companhia. 
Lorinda teve de confessar a si mesma que seu noivo tinha uma aparncia extremamente distinta. A elegncia de seu vesturio chamaria a ateno em qualquer festa da 
alta sociedade, mas, quando seus olhos se encontraram, Lorinda notou que seu olhar penetrante era ainda mais desagradvel e desconcertante do que ela se lembrava. 
- Voc tem de assinar os papis do casamento - disse o conde. - Seu futuro marido teve a gentileza de traz-los aqui, de maneira que no nos demoraremos na sacristia, 
depois de terminada a cerimnia. 
Consciente de que Durstan Hayle no tirava os olhos dela, Lorinda aproximou-se da secretria, onde se encontravam alguns pergaminhos que deveriam ser assinados. 
- Recebeu o vestido de noiva que mandei hoje? - perguntou Hayle. 
- Ele chegou - respondeu Lorinda. 
- Ento, por que no est com ele? 
- Porque prefiro casar-me com um vestido realmente meu. 
- O que est usando agora? 
- Espero que goste dele - respondeu Lorinda, tendo certeza de que isso no era verdade. 
- Sou supersticioso. 
- , realmente, to infantil, a ponto de achar que verde d azar? 
- No casamento, sim! Peo-lhe o favor de mudar o vestido. 
- No pretendo mudar. Tem de me aceitar como sou. 
- No considero o verde como cor conveniente para um vestido de noiva e, sem sombra de dvida, iria escandalizar os amigos e conhecidos que iro  igreja, para assistir 
ao casamento. 
- Assim, eles tero alguma coisa para comentar! 
- Eu consideraria tal coisa lamentvel no caso de minha esposa. 
Lorinda o encarou com um sorriso zombeteiro. 
- No entanto, quis casar comigo! 
Sempre fui muito falada. 
- Eu sei. E  uma coisa que quero impedir que acontea no futuro. 
- Vamos ver! - observou Lorinda, enigmaticamente. 
Pegou a pena de pato e enfiou-a no tinteiro. 
- Onde quer que assine? - perguntou. Durstan Hayle ps a mo em cima dos documentos. 
- V mudar o vestido, primeiro. Lorinda encarou-o, e viu, pela sua cara fechada, que ele no estava brincando. 
- J lhe disse que quero casar-me vestida de verde. 
- A mulher com quem eu me casar ter que ir vestida de branco. 
Os dois se encararam, desafiadoramente, por cima da mesa. Depois, com um gesto sbito, Durstan Hayle apanhou os documentos. 
- Lamento, milorde - disse ao conde. 
- Mas, depois do que aconteceu, ser melhor assinar estes documentos na sacristia, aps realizado o casamento. 
Caminhou na direo da porta. 
- S me casarei com uma mulher vestida de branco, que parea realmente uma noiva, e no esperarei na igreja por mais de trs minutos, depois da hora marcada para 
a cerimnia. 
Tanto o conde como Lorinda foram apanhados de surpresa, e, quando pensaram em dizer alguma coisa, Hayle j se retirara. 
- Pelo amor de Deus, Lorinda! - exclamou o conde, quase gritando. - O que est fazendo? Por que est agindo desse modo? No tem juzo suficiente para ver que, com 
aquele homem, no se pode brincar? 
Lorinda ficou em silncio. 
- Suba e v mudar a roupa! - berrou o pai. - No se iluda: se voc se atrasar, ele no vai esperar! Meu Deus do cu, por que tenho uma doida dessas como filha? 
Estava furioso, e Lorinda sabia que era porque estava com medo de acabar no indo para a Irlanda. 
Sentindo que no podia privar o pai daquele prazer, e tambm que seria impossvel para eles continuar morando no priorato, sem dinheiro, Lorinda foi para o andar 
superior, subindo a escada como se estivesse galgando os degraus de um cadafalso. 
Por que se vira metida em tal embrulho? Por que no se casara com um dos homens apaixonados por ela em Londres? 
At mesmo ser amante de Ulric, pensou, teria sido melhor do que aquilo. 
Como, porm, o tempo estava passando, tirou o vestido verde, e a velha Sr.a Dogman subiu a escada apressadamente para ajud-la a pr o vestido novo e ajeitar o vu 
na cabea, seguro com a tradicional grinalda de flores de laranjeira. 
Quando acabou de vestir-se, Lorinda teve de admitir que, na realidade, estava mais bonita do que jamais estivera. 
O leve vu dava-lhe uma beleza etrea, como se fosse uma ninfa que, de acordo com as lendas da Cornualha, habitavam seus rios e lagos. 
Quando, porm, chegou ao pavimento inferior, para encontrar seu pai andando de um lado para o outro no vestbulo e consultando o relgio de momento a momento, a 
jovem sentiu que seu dio contra Durstan Hayle tornara-se ainda mais profundo. 
Fez votos de que, algum dia, o faria arrepender-se amargamente por t-la obrigado a tornar-se sua esposa. 
" porque ele quer um Camborne", disse consigo. " tudo que significo para ele. Um nome aristocrtico para dar-lhe a importncia que ele no tem pelo nascimento." 
Ao se dirigirem  igreja, em uma carruagem fechada que Durstan Hayle mandara do castelo, Lorinda, refletindo, lembrou-se de que nada sabia a respeito de seu futuro 
marido, a no ser que era rico. 
"Ele deve ser inteligente, para ter ganho dinheiro", pensou. 
Mas estava certa de que era to implacvel e antiptico nos negcios, como fora naquele episdio em que comprara o priorato e ela prpria. 
"Deve ser inescrupuloso, tambm!", pensou, com desprezo. "Um plebeu, um arrivista, que no tem noo do que  lcito e do que  ilcito!" 
Na verdade, porm, era difcil convencer a si mesma de que Durstan Hayle era um sujeito assim to ordinrio. Havia nele algo de autoritrio, que ela sempre associara 
s pessoas de bom nascimento. 
Pelo menos, ele se preocupava com os pormenores, pois, na carruagem, havia,  sua espera, um buqu que complementava o vestido que trazia, feito de lrios e gardnias, 
de grande beleza, e cujo perfume delicioso acalmou, por um momento, a tempestuosa revolta que lavrava no peito de Lorinda. 
Contudo, quando, de brao com o pai, atravessou a igreja, at o altar, onde Durstan Hayle a esperava, desapareceram, ao v-lo, todas as emoes que experimentava, 
exceto o dio. 
A igreja estava lindamente decorada, em meio a uma profuso de flores, com todos os bancos repletos, mas somente depois que saram da sacristia, foi que Lorinda 
teve oportunidade de procurar ver se havia rostos conhecidos entre os presentes. 
Tinham demorado mais do que contavam a princpio, porque os documentos do casamento e a escritura de compra e venda do priorato tiveram de ser assinados na sacristia. 
Lorinda notou um envelope no bolso do pai que, sem dvida, continha o cheque de quarenta mil libras. 
"Durstan Hayle assegurou-se que no poderamos trapace-lo", pensou Lorinda, jurando a si mesma que encontraria um meio de derrot-lo, embora ele se julgasse o vencedor. 
Voltaram ao castelo em uma carruagem aberta, enfeitada de flores e puxada por quatro cavalos brancos. 
"Tudo pronto para o espetculo!", disse Lorinda a si mesma, com desdm. "O que ele realmente queria era um circo!" 
No olhou para o homem sentado ao seu lado, mas acenou para as crianas, que os aclamavam, enquanto atravessavam a aldeia, e para os velhos criados que os saudaram, 
inclinando-se, quando chegaram  alia do castelo. Este parecia muito imponente, com o Sol iluminando-lhe as janelas. 
Quando Lorinda e o marido desceram da carruagem, o mordomo saudou-os com algumas breves palavras, e Lorinda viu que todos os outros criados estavam enfileirados, 
para os cumprimentos, quando se dirigissem ao salo de banquetes. 
Para sua surpresa, havia cinqenta pessoas  mesa. Quase todos os chefes das antigas famlias do condado estavam presentes. Muita gente cumprimentou o conde efusivamente, 
e Lorinda compreendeu quanto ele fora tolo de no entrar em contato com os velhos amigos, quando regressara. 
Era muito tarde, mas Lorinda imaginou que, se pudesse escolher de novo, ele preferiria ter ficado no povoado onde nascera do que comear vida nova em uma terra desconhecida. 
Muitos dos convidados disseram a Lorinda que haviam conhecido sua me, mas tambm teriam ouvido falar de suas faanhas em Londres, e a tratavam com certa reserva. 
A comida foi farta e tima, e o mesmo aconteceu com os vinhos. Todo mundo parecia estar se divertindo  farta, mas Lorinda no conseguiu comer coisa alguma. Estava 
vivamente consciente da presena da aliana em seu dedo anular, e do fato de Durstan Hayle a haver colocado com uma firmeza e uma autoridade inquietantes. 
O tom de sua voz, ao prestar os compromissos do casamento, por outro lado, fez Lorinda sentir que ele a desafiava mesmo ali, diante do altar. 
Ela, de sua parte, estava disposta a no parecer tmida e falar com voz forte e, ao chegar ao salo de banquetes, fazia questo, igualmente, de parecer muito  vontade. 
No queria que ningum, principalmente o marido, pensasse que ela estava apreensiva ou, de qualquer modo, intimidada pela ocasio. 
No querendo conversar com o marido, ignorou-o completamente, dedicando toda a sua ateno ao governador do condado, que estava sentado em frente a ela. 
Era um homem idoso, muito disposto a conversar sobre as dificuldades da indstria pesqueira, as despesas que tinham os agricultores quando levavam seus produtos 
ao mercado e diversos outros problemas regionais. 
Tudo aquilo, pensou Lorinda vagamente, era um eco das conversas que ouvira havia dez anos, quando ainda morava na Cornualha. 
O almoo pareceu arrastar-se indefinidamente, mas, afinal, o governador do condado ergueu um brinde aos noivos, e Durstan Hayle levantou-se para agradecer. 
Foi breve, conciso e espirituoso, para surpresa de Lorinda, e, alm disso, muito confiante em si mesmo. 
" to presunoso, que no sei por que precisa de meu ttulo, para ainda ficar mais convencido", pensou a jovem. 
Afinal, os convidados se retiraram, e Lorinda achou que era hora de ir para seu quarto. 
- Por favor, no tire o vestido disse-lhe o marido, quando ela j pusera o p no primeiro degrau da escada e segurara o corrimo. 
Ela o encarou com uma interrogao nos olhos. 
- Os rendeiros que vamos encontrar daqui a pouco querem v-la vestida de noiva, e no quero que os decepcione. 
- No tenho outra alternativa? - perguntou Lorinda. 
Eram as primeiras palavras que trocavam depois da cerimnia do casamento. 
- No! - respondeu ele, afastando-se, antes que ela pudesse replicar. 
Lorinda subiu a escada tremendo de raiva e, no alto, foi recebida por uma sorridente governanta, que a levou ao quarto que fora sempre conhecido no passado por Quarto 
da Rainha. 
Tratava-se, na realidade, de um equvoco. O Quarto do Rei, ocupado pelos donos da casa, era onde Carlos I dormira, combatendo as tropas do Parlamento. Os criados, 
porm, deduziram que, se o dono da casa dormia no Quarto do Rei, sua esposa deveria dormir no Quarto da Rainha. 
Assim, Lorinda encontrou-se no quarto que fora ocupado por geraes de Lady Penryn. Vira-o, pela ltima vez, sem mveis, com o papel da parede cado e metade do 
teto desabado. 
Agora, ao chegar  porta, ficou boquiaberta de admirao. 
O teto tinha sido pintado com deuses e deusas, sobre um firmamento azul-celeste. Cortinas azuis cobriam as compridas janelas e um tapete tambm azul cobria o cho. 
A cama, de ps torneados e dourados, estava coberta de veludo e seda, e era exatamente o tipo de leito que Lorinda, quando criana, imaginava que aquele quarto deveria 
ter. 
Os outros mveis tambm eram todos torneados e dourados, e sobre as mesas e cmodas havia enormes vasos com lrios brancos, como os do buqu de noiva, com cravos 
e gardnias para perfumar o ar. 
- Espero que lhe agrade, milady disse a governanta, respeitosamente. 
-  lindo! - replicou Lorinda. - Quando me lembro de como estava, custo a crer que tenha ocorrido tal transformao. 
- O castelo est timo agora, milady, e todo mundo que vem aqui diz que o patro tem um gosto excelente. 
Deu um suspiro. 
- Mas estou dando graas a Deus por haver terminado. Tivemos exrcitos de operrios aqui. Nunca vi uma obra acabar to depressa! Mas a verdade  que, quando o patro 
quer alguma coisa, ele consegue! 
Era verdade, pensou Lorinda, com amargura. 
Tirou a grinalda e o vu, e lavou o rosto e as mos. Depois, apareceu uma criada, para pentear-lhe o cabelo e tornar a pr o vu e a grinalda. 
No adiantava negar-se a usar o vestido com que tinha se casado. Travara uma batalha naquele dia, e a perdera. No estava disposta a enfrentar o marido em outro 
duelo pelo mesmo motivo. 
Acabara de aprontar-se, quando bateram  porta, e a criada abriu. O conde estava do lado de fora. 
- Vim para despedir-me de voc, Lorinda. 
A criada saiu do quarto, para deix-los a ss, e Lorinda aproximou-se do pai. 
- Seu marido fez sentir-me orgulhoso. Deu-me cavalos velozes e batedores para a primeira parte de minha viagem. 
- O senhor tenciona ir a Bristol? 
- Tomarei um navio l para ir  Irlanda. 
- Sei que o senhor est muito interessado, e espero que no se decepcione. 
- Acho que vai ser, pelo menos, muito divertido - replicou o conde. 
Ficou em silncio durante algum tempo, como se tivesse dificuldade em articular as palavras. 
- Vou ter saudades de voc, Lorinda- disse, depois. 
- Espero que sim, papai. 
O conde abraou a filha, afetuosamente. 
- Hayle cuidar de voc. No duvido que ele ser um marido muito aceitvel, embora, por enquanto, esteja se comportando como se fosse, de fato, Deus onipotente! 
Lorinda no conteve uma gargalhada. 
-  exatamente o que ele pensa que , papai. 
O pai sorriu-lhe. 
- Espero que voc o reduza s devidas propores. Todos os homens que voc conheceu acabaram se transformando em escravos, mais dia, menos dia, e no creio que Hayle 
constituir exceo. 
- Espero que no - replicou Lorinda. 
Na verdade, porm, no encarava, no momento, com muito otimismo a possibilidade de escravizar Durstan Hayle. Ele parecia de todo insensvel aos seus encantos, e 
sentia nele uma inflexibilidade que jamais percebera nos outros homens. 
Procurou confortar-se, contudo, dizendo a si mesma que estava indevidamente apreensiva. Nenhum dos beaux e dndis, que a haviam perseguido em Londres, se mostraram 
menos abjetamente servis depois que a conheceram melhor. 
Talvez fosse por causa de sua indiferena, talvez porque ela sempre se colocava fora do seu alcance. Fosse qual fosse a razo, contudo, eles acabavam se tornando 
humildes, gratos pelo mais leve favor que ela se dispusesse a conceder-lhes e obedientes a todas as suas ordens. 
Lorinda olhou para o pai, e sorriu. 
- No se preocupe, papai. Saberei como agir. 
- Espero que sim - replicou o conde, com toda a sinceridade. - Se as coisas ficarem muito ruins, sempre lhe restar a possibilidade de fugir. Vou escrever-lhes, 
dizendo como  a Irlanda. Poderemos ficar juntos de novo. 
Mais uma vez, pensou Lorinda, seu pai estava trapaceando. Nada disse, porm. 
- Est certo, papai - falou em voz alta, beijando-lhe a face. 
O conde abraou a filha, depois olhou em torno. 
- Pelo menos, voc no ter de preocupar-se com a prxima refeio! 
- Nem o senhor! - retrucou Lorinda-. - Mas tenha cuidado, papai. Da prxima vez que se meter em dificuldades, no vai aparecer um nababo da ndia para fazer apostas 
no escuro! 
A gria do jogo fez o conde sorrir. 
Afastou-se depois, e Lorinda, embora pensando que aquilo era supinamente ridculo, sentiu-se de repente muito s. 
Era o tamanho da casa, procurou convencer-se, mas sabia que esse era apenas um dos motivos de sua apreenso. 
O fato  que, para todos os efeitos, estava sozinha com o marido. 
***
A festa dos arrendatrios no grande celeiro chegara  fase ruidosa. Enormes barris de cerveja e de sidra da Cornualha, bebida muito forte, j estavam circulando 
havia algumas horas, quando Lorinda e seu marido chegaram. 
O casal foi aclamado com altos gritos, quando todos os presentes se ergueram, provocando uma grande balbrdia, e conduzido, pelo administrador, at duas cadeiras 
na extremidade do aposento, que pareciam tronos. 
Houve discursos, pronunciados pelos arrendatrios mais prsperos, e Durstan Hayle falou de novo. 
Dessa vez, o fez com tanto esprito, que manteve a assistncia dando risadas praticamente o tempo todo e, o que naturalmente provocou maior alegria, prometeu a suspenso 
do pagamento durante seis meses, para comemorar o casamento. 
Tumultuosos aplausos seguiram-se a esse anncio. 
Enquanto andavam ao redor, apertando a mo dos convidados, Lorinda no pde deixar de constatar que Durstan Hayle se firmara, no s como proprietrio territorial, 
como tambm como uma pessoa muito importante naquele mundo particular, ao passo que ela no tinha importncia alguma. 
As mulheres, contudo, desejavam-lhe felicidade, e algumas delas, encabuladas, ofereciam-lhe pedaos de urzes brancas e conchinhas, que eram talisms. 
Mais tarde, todos assistiram, ao ar livre,  exibio de fogos de artifcio, com os foguetes luminosos subindo pelo cu escuro e chuvas de ouro e de prata caindo 
sobre o mato. 
Lorinda comeou a sentir-se cansada, e quando, afinal, Durstan Hayle disse que se poderiam retirar, ela caminhou, aliviada, para uma grande sala, que ainda no havia 
visto antes. 
Era um belo cmodo, mas Lorinda estava cansada demais para admirar os quadros e os mveis e, olhando para o relgio, viu que j eram dez e meia. No era tarde, pelos 
padres londrinos, mas ela no descansara desde o meio-dia. 
- Quer beber alguma coisa? - perguntou Durstan Hayle. 
- No, obrigada. 
- Quero dizer-lhe que se saiu com brilho inexcedvel nessa experincia, que lhe deve ter sido uma terrvel provao. 
Lorinda ficou surpresa com o elogio. Tivera a desagradvel impresso de que, durante todo o dia, ele reprovava tudo que ela fazia ou dizia. 
- Amanh, tenho um grande nmero de presentes de casamento para mostrar-lhe - continuou ele. - No havia motivo para exp-los, e meu secretrio os arrumou na sala 
de visitas, para que voc os veja. 
- Naturalmente, nenhum deles  para mim, no  mesmo? 
Hayle no respondeu e, um momento depois, Lorinda perguntou: 
- Mandou dar notcia do nosso casamento em "The Gazette"? 
- No. 
Lorinda fez uma cara de espanto. 
- Por que no? 
- Achei que poderia parecer estranho voc casar to apressadamente, depois de sair de Londres. S poderia haver um motivo aparente para tanta pressa. 
- Por que voc  rico? 
- Exatamente! 
- Seria difcil para voc explicar que o motivo foi o de ter querido uma esposa que tivesse terras vizinhas e um ttulo? 
Lorinda falou para irrit-lo, mas ele no se deu por achado. 
- Acho que voc j deve estar querendo ir descansar - observou. 
Lorinda irritou-se, pelo fato de haver ele sugerido tal coisa, antes que ela prpria o fizesse. 
Ps-se de p. 
- Estou realmente fatigada - disse. -  cansativo apertar a mo de tanta gente. 
Caminharam juntos at a escada, onde havia um lacaio de servio. 
Lorinda queria despedir-se de maneira a mostrar que no esperava ver Durstan Hayle de novo seno na manh seguinte, mas teve medo de que isso o incitasse  ao 
que ela queria evitar. 
Sem olhar para ele, subiu a escada, vagarosamente. Teve curiosidade de saber se seu marido a estava olhando, mas no quis virar a cabea para ver. 
Ao entrar no quarto, onde as criadas estavam  sua espera, sentiu o corao bater desordenadamente. Somente quando ficou sozinha, foi que confessou a si mesma que 
estava amedrontada. 
A simples idia de Durstan Hayle toc-la, e muito mais ainda, de torn-la sua esposa de verdade, metia-lhe mais medo do que tudo que j imaginara na vida. 
Odiava o marido, e ser tocada por ele deveria ser um inferno pior que aquele que os missionrios descreviam. 
"Detesto-o!", disse a si mesma. 
Quando as criadas saram, correu para trancar a porta, mas constatou, estarrecida, que a porta no tinha chave. 
Jamais imaginara que uma casa em que tudo era torneado e dourado, inclusive as fechaduras, pudesse deixar de ter chaves. 
Abriu a porta para ver se, por acaso, por confuso, a chave no teria ficado do lado de fora. Mas no havia mesmo chave. 
Examinou o quarto de comunicao, que dava para a sala de estar, mas tambm ali no havia chave, e ela ficou de p, refletindo, por um momento, e sentindo o pnico 
tomar conta de seu esprito. 
Ento, fazendo um grande esforo, dominou-se e sentiu-se disposta a lutar com Hayle at o ltimo alento, para que, embora fosse sua esposa nominal, no o fosse de 
nenhuma outra maneira. 
Atravessou o quarto apressadamente e abriu as gavetas de uma arca embutida. Havia arrumado ali uma parte de sua bagagem e, no fundo da mesma gaveta em que guardara 
as luvas e os lenos, encontrou a pistola que sempre levava consigo para proteger-se contra os salteadores. Estava em uma caixa onde havia balas tambm, e Lorinda 
carregou a arma. O contato do ao frio em seus dedos deu-lhe uma certa sensao de segurana. 
"Se eu a utilizar, no vou atirar para matar", disse a si mesma. "Vou limitar-me a feri-lo no brao, e isso o impedir de me importunar durante algum tempo." 
Na verdade, Lorinda atirava otimamente. Conhecendo o profundo pesar que seu pai sentia pelo fato de no ter tido um filho varo, fizera questo de se destacar em 
todos os esportes, para mostrar que isso no seria prerrogativa de um irmo, se tivesse tido algum. 
Logo que crescera bastante para poder andar o cavalo, andara montada, como os homens, e no em silho. Atirava em aves voando do mesmo modo que em homens, e adquiriu 
tal prtica no tiro de pistola, que era raro errar o centro do alvo. 
Antes de sair da Cornualha, quando tinha dez anos, apostava corrida, no com as crianas de sua idade, mas com os palafreneiros, saltando obstculos. Montava os 
mesmos cavalos que eles montavam e dirigia-os de tal modo, que um velho palafreneiro dizia: 
- Milady j nasceu sabendo montar. No posso lhe ensinar nada! 
Empunhando a pistola, Lorinda sentou-se na cadeira diante da porta. 
As criadas haviam-na ajudado a vestir uma difana camisola de dormir enfeitada de rendas, que trouxera de Londres, mas pusera por cima no o nglige que combinava 
com ela, mas um peignoir pesado, de cetim com forro espesso, que era quente e muito mais recatado. 
Lorinda amarrou bem a faixa em torno da cintura, esperando que sua beleza no fizesse o marido perder a cabea, como j havia acontecido com tantos homens. 
Sempre, quando estava em companhia de algum, mais cedo ou mais tarde ele perdia o domnio sobre si mesmo e tentava agarr-la e beij-la. Lorinda tivera que enfrentar, 
de vez em quando, muitos admiradores ardentes, mas nenhum conseguira agarr-la por mais de alguns segundos, de sorte que jamais fora beijada. 
A simples idia de que a beijassem a enfurecia ao ponto de admitir a hiptese de cometer um homicdio, no caso de haver muita insistncia! 
"Hei de livrar-me de Durstan, como livrei-me dos outros", disse a si mesma. 
De repente, inesperadamente, lembrou-se do homem que a dominara com punhos de ao, quando quisera procurar os contrabandistas. 
Estivera to ocupada, naquelas duas ltimas semanas, que quase esquecera aquela experincia humilhante, da maneira com que um desconhecido amordaara sua boca com 
a mo e a carregara com uma fora irreprimvel. 
"Aquele homem me atacou pelas costas", desculpou-se. "Eu e Durstan vamos, enfrentar-nos face a face." 
Continuou sentada, com os olhos postos na porta, a pistola carregada ao seu lado, ao alcance da mo direita. 
Quando ele aparecesse, iria mostrar-lhe que, pelo menos naquele caso, ela seria a vitoriosa. 
* * *
Lorinda acordou sobressaltada. 
Durante um momento, ficou sem saber onde estava, depois percebeu que as velas estavam gastas e que ela continuava sentada na poltrona, rgida e fria. 
Durstan no viera! 
A pistola continuava ao seu lado, mas ningum abrira a porta. 
Levantando-se, trmula, olhou para o relgio de porcelana de Dresden que estava em cima da lareira, e viu que marcava trs horas. 
Ficou estarrecida. Devia ter dormido pelo menos durante trs horas! 
Uma coisa era certa: seu marido no viria visit-la agora, e podia meter-se na cama. 
Tirou o peignoir de cetim, olhando para a porta, apreensiva, diante da idia de que ele fosse escolher justamente aquele momento para aparecer. 
Meteu-se embaixo dos lenis e, por mera precauo, escondeu a pistola carregada sob o travesseiro ao lado. 
A cama era quente e confortvel, mas ela no adormeceu imediatamente, como esperava. Em vez disso, ficou pensando por que no fora procurada. Era surpreendente o 
fato de no haver Hayle insistido em gozar de seus direitos. 
De sbito, uma idia incrvel a perturbou. Seria possvel que o motivo fosse o fato de Hayle no ach-la atraente? 
Dificilmente Lorinda poderia acreditar que isso fosse verdade. 
No entanto, para ser sincera consigo mesma, tinha de admitir que, desde que conhecera Durstan Hayle, ele jamais a olhara deixando transparecer admirao. At mesmo 
no dia do casamento, quando pusera o vestido que ele escolhera e o vu que ele mesmo arranjara, havia em seus olhos uma expresso zombeteira e o costumeiro sorriso 
sarcstico, que sempre a haviam irritado grandemente. 
Seria possvel, seria crvel, que de todos os homens do mundo, ela fosse casar-se justamente com aquele que no demonstrava o menor interesse por ela, como mulher? 
Era uma idia to surpreendente que, por um momento, Lorinda achou que se enganara. Depois, ao mesmo tempo em que se sentia aliviada, sabendo que no teria de lutar 
contra o marido, para evitar que ele a tocasse, o seu lado feminil se sentiu ultrajado pela indiferena do esposo. 
Lorinda deixara atrs de si tantos homens apaixonados, e estava to acostumada com os galanteios e a adulao por parte de todos os homens, a no ser os muito velhos, 
que ficou surpreendida, petrificada, ao se deparar com uma situao to pouco habitual. 
E, de sbito, abatida, fez a si mesma uma pergunta. Se, no atraa fisicamente o marido, como iria conseguir domin-lo e a fazer o que ela quisesse? 
S ao amanhecer, Lorinda conseguiu dormir e, ao acordar, o problema que a atormentara na noite anterior continuava ainda em seu esprito. 
As criadas a chamaram, como ela havia mandado, s oito horas e, como no queria encontrar-se logo com o marido, mandou servir o caf na cama. Este foi trazido em 
uma linda bandeja coberta por uma toalha rendada e os bules e as travessas de prata e os pires e xcaras de porcelana de Svres. 
Lorinda no pde deixar de lembrar-se dos cafs servidos no priorato pela Sr.a Dogman, em vasilhas de prata enegrecida e xcaras de porcelana desbeiadas. 
- Quer fazer o favor de saber que planos h para esta manh? - pediu a uma das criadas. 
- O patro mandou que ns avisssemos, quando a senhora acordasse, milady, que ele vai sair a cavalo, s dez e meia, e quer que a senhora o acompanhe. 
- Obrigada - disse Lorinda. - Faa o favor de preparar minha amazona. 
No ntimo, porm, sentia-se revoltada, com aquela nova ordem do marido. No mandara perguntar se ela queria acompanh-lo. Simplesmente dissera que queria que ela 
o acompanhasse. 
"Temos de Chegar a um entendimento sobre isso, mais cedo ou mais tarde", pensou Lorinda, certa, no fundo, de que tal coisa no seria fcil. 
Ao se levantar para entrar no banho que lhe fora preparado, veio-lhe, de sbito, a idia de que, para impor sua prpria vontade, teria de fazer com que o marido 
se escravizasse tanto a ela como os outros homens o tinham feito e, para isso, a primeira coisa que tinha em mente era conquist-lo. 
Respirou fundo, sentindo que, instintivamente, o que desejava era continuar a desafi-lo e combat-lo, opondo a sua prpria vontade  dele, tornando a vida dele 
um purgatrio, at que, afinal, fosse forado a capitular. 
Tinha de admitir, porm, desconsoladamente, que tais tticas jamais dariam o resultado desejado e, se fosse travada apenas uma batalha de vontades, Hayle acabaria 
vitorioso. 
Tinha de agir com mais sutileza. Deveria primeiro enfeitiar o marido, faz-lo tornar-se escravo de sua beleza, como sempre acontecera com os outros homens. 
No seria fcil disfarar sua repugnncia, mas teria de consegui-lo. Como acontecera com tudo que quisera na vida, visaria a um objetivo certo, e o alcanaria, to-s 
pela persistncia. 
"Terei relaes com ele", disse a si mesma, com amargura. "Depois ele vai sofrer, como merece sofrer, pela maneira como agiu." 
No se lembrava de que Hayle salvara seu pai da misria, que comprara o priorato por muito mais que valia s pelo duvidoso privilgio de despos-la. 
Odiava-o a tal ponto, que estava disposta a venc-lo, por quaisquer meios, corretos ou incorretos. 
"Ele vai se apaixonar por mim e, ento, vou zombar dele, como tenho zombado de tantos outros", pensou. 
No tinha dvida de que o escrnio era uma arma mais sutil que o ao frio, especialmente quando esto em jogo as emoes de um homem. 
Lembrava-se como zombara de Edward, como o humilhara, e ele, no entanto, voltava sempre, como um co fiel, querendo mais. Seria assim que castigaria Durstan Hayle, 
por ter tido a ousadia de for-la a casar-se com ele. 
Assim se vingaria. Assim, sairia vitoriosa, fossem quais fossem as dificuldades que enfrentasse. 
De uma coisa tinha certeza: que no teria de sentar-se, todas as noites, apreensiva, esperando o marido de arma na mo. 
Com muita naturalidade, disse  criada: 
- No vi chave na fechadura. s vezes, gosto de fechar a porta com chave, para descansar  tarde sem ser molestada. Quer perguntar  governanta o que aconteceu? 
- Sim milady - respondeu a criada.- No sei por que a chave sumiu. 
Era de fato um mistrio, pensou Lorinda, pois no havia motivo para Durstan Hayle ter tirado a chave, se no tencionava utilizar a oportunidade que a porta do quarto 
aberta lhe oferecera. 
Vestindo um costume verde, debruado de branco, que combinava com seus olhos, Lorinda estava linda. O chapu de trs bicos que trazia tinha uma pluma verde, que se 
curvava, inclinando-se para a orelha e que causara sensao em Hyde Park, da primeira vez que o usara. 
Levou muito tempo penteando os cabelos. As botas de montar, por baixo da saia rodada, brilhava como espelhos, quando ela desceu a escada. As esporas de prata tilintavam, 
as anguas engomadas ruflavam, e o conjunto era uma perfeita combinao de uma mulher bem delicada, bem feminil, e de um homem bem agressivo! 
Procurou, com esforo, imprimir aos olhos uma expresso de doura, to antagnica ao que sentia. Seus lbios estavam vermelhos e convidativos e, quando viu Durstan 
Hayle no vestbulo, sorriu-lhe com coquetismo. 
- Aceito com o maior prazer o seu convite para andar a cavalo - disse. - Tem algum destino certo em idia? 
- Achei que voc gostaria de ver alguns melhoramentos que fiz nas granjas, iguais aos que, agora, pretendo fazer nas terras do priorato - disse Hayle. 
- Vai ser timo - replicou Lorinda, com doura. 
Se ele ficou surpreso com sua mudana na maneira de trat-lo, no demonstrou. 
Os dois caminharam, lado a lado, at a porta de entrada e, somente quando viu os cavalos que os esperavam do lado de fora, foi que Lorinda no precisou fingir, dando 
vazo ao entusiasmo e  excitao que realmente sentia. 
Jamais vira to magnficos exemplos de puros-sangues. A gua em que ia montar era negra como carvo, a no ser uma estrela branca no focinho e outra mancha branca 
na quartela. O garanho destinado a Durstan Hayle era preto, tambm, mas sem mancha de espcie alguma em seu plo liso e brilhante. 
Lorinda acariciou a cabea da gua, alisando-lhe o focinho, falando-lhe com voz macia, como se estivesse conversando com uma criancinha. 
- Como  o nome dela? - perguntou. 
- Ayshea - respondeu o marido. - Todos os meus cavalos tm nomes indianos, e o animal que vou montar se chama Akbah. 
Um palafreneiro ajudou Lorinda a montar. 
Ela sentiu Ayshea obedecer prontamente ao sinal da rdea, e teve o mesmo prazer e a mesma sensao de poderio que tem um msico, quando arranca acordes musicais 
de um instrumento magnfico. 
Pela primeira vez, depois de semanas, esqueceu-se de tudo mais que no fosse a alegria de cavalgar um animal, melhor do que todos que j conhecera at ento. 
Por um momento, seu dio desapareceu, e ela sentiu-se feliz, com uma felicidade que parecia fazer parte da alegria do Sol. 

CAPTULO V 
Enquanto descansava antes do jantar, Lorinda refletiu que aquele dia tinha sido bem pouco satisfatrio, no que dizia respeito aos seus esforos para enfeitiar o 
marido. 
Durstan mostrara-se corts e polido, revelando educao esmerada. Mas, embora conversasse com ela sobre assuntos interessantssimos, conversava do mesmo modo que 
o faria com uma tia solteirona, no que dizia respeito  impresso que ela pretendera estar causando. 
Em momento algum, Lorinda notou nos olhos do marido o brilho de admirao com que estava acostumada. 
Sempre, anteriormente, os homens a olhavam, a princpio, atnitos, deslumbrados com sua beleza, depois com o evidente desejo de torn-la sua, de toc-la, de possu-Ia 
dessa ou daquela maneira. Uma vez cativados, no tinham meios de escapar. 
Nem por um segundo, Durstan Hayle pareceu trat-la como uma mulher atraente, ou, na verdade, mesmo como uma mulher qualquer. 
Lorinda lanou mo de algumas das artimanhas que tinha visto anteriormente e que, embora ela mesma nunca as tivesse utilizado, constatara ser muito eficiente em 
outras mulheres. 
Fez ao marido perguntas com aquela espantada inocncia que faz todos os homens sentirem-se superiores. 
Durstan respondia de maneira interessante e positiva, depois, habitualmente, deixava o assunto morrer, de modo a deixar para Lorinda o cuidado de arranjar outro 
tpico de conversao. 
Ele falou com algum entusiasmo dos melhoramentos que estava fazendo em suas propriedades, e Lorinda constatou que, de fato, Durstan estava adotando todos os mtodos 
adiantados de agricultura, na maioria dos quais, ela teve a sinceridade de admitir, nunca ouvira falar. 
Durstan tambm destinara uma parte de suas terras ao cultivo de flores, especialmente narcisos e tulipas, que pretendia vender nos mercados das cidades maiores, 
se conseguisse fazer o seu transporte com bastante rapidez. Inventara um veculo especial, muito leve, que, puxado por duas parelhas de cavalos, poderia chegar a 
Plymouth, Bathe e talvez Bristol em muito menos tempo do que o habitual. 
Lorinda ficou mais interessada do que esperava e,  medida que as formulava, suas perguntas foram ficando mais inteligentes, e ela se esqueceu de que estava fingindo 
ser uma mulher totalmente feminil. 
Almoaram em uma granja situada bem no limite das terras. 
Somente quando estavam voltando para casa, foi que Lorinda descobriu que, embora estivesse gostando do passeio, seu projeto de fazer Durstan Hayle fascinar-se com 
sua beleza estava to longe de se concretizar como quando tinham sado naquela manh. 
- No posso compreender por que voc no se casou mais cedo - disse ela, provocante, quando os dois diminuram a andadura dos animais por terem chegado a um terreno 
pedregoso, onde seria perigoso galopar. 
- Eu morava no Oriente, que no tem um clima muito favorvel para as inglesas - replicou Hayle. 
- No posso acreditar que no tivesse encontrado uma companhia feminina. 
Durstan sorriu. 
- Isso  diferente ... 
- So muito sedutoras as mulheres indianas, que consideram os homens como seres superiores? 
- Muito! - limitou-se Durstan a responder. 
Lorinda empertigou-se. 
Era aquilo que ele queria, pensou, furiosa. Uma mulher que rastejasse diante dele, que se curvasse aos seus menores desejos. 
- Mas ficou satisfeito de voltar para a Inglaterra? - insistiu. - Mesmo tendo de deixar para trs as encantadoras huris de olhos negros? 
Durstan no respondeu, e Lorinda teve a impresso de que ele achara a pergunta de mau gosto. Embora no dissesse, parecia no concordar que uma senhora conversasse 
sobre assuntos que deveria ignorar. 
"Ele quer que eu seja um zero, uma boneca sem crebro!", pensou Lorinda, furiosa. "Podia perfeitamente ter se casado com uma carranca de navio!". 
Sentindo-se, de novo, dominada pelo dio ao marido, seguiu em silncio at chegarem ao castelo. 
- Tenho um trabalho para fazer que me ocupar at a hora do jantar - disse Hayle, ao apear-se. - Naturalmente, voc deve estar querendo descansar. 
- Quanta bondade, levar em considerao os meus desejos! - exclamou Lorinda, sarcasticamente. 
Subiu apressadamente a escada e entrou no quarto, ciente de que, mais uma vez, fora derrotada e que o marido era to inflexvel quanto uma muralha de ao. 
Um dos ces da Dalmcia de Durstan Hayle a seguira at o quarto. Eram dois, e chamavam-se Csar e Brutus, sendo to belos e perfeitos como os cavalos do seu dono. 
Sentindo, de sbito, necessidade de consolo, Lorinda tirou o chapu, que jogou em uma cadeira, e, sentando-se no cho, passou os braos em torno do pescoo de Csar. 
O co deleitou-se com a ateno recebida, e a moa o ficou acariciando durante muito tempo, sentindo que a afeio do animal constitua uma compensao pela frieza 
com que a tratava o seu dono. 
Depois, quando Lorinda tirou a roupa, o co deitou-se ao seu lado, com os olhos postos nela, de uma maneira confortadora. 
Depois do banho, a criada perguntou-lhe o que queria usar naquela noite, e abriu o guarda-roupa, expondo os inmeros vestidos que Durstan Hayle encomendara em Londres. 
Se se tratasse de outro homem, Lorinda teria apreciado o seu bom gosto, e o fato de haver ele procurado uma loja na qual ela prpria fazia compras de vez em quando. 
A modista, Madame Rachelle, que viera de Paris, conhecia as medidas de Lorinda, e tinha tambm sapatos combinando com todos os vestidos. 
Havia, ainda, uma profuso de roupas interiores de seda e renda, que ela jamais imaginara possuir. 
A irritao a levou, porm, a escolher um dos vestidos que levara consigo do priorato e, como queria ver a reao de Durstan Hayle, escolheu um to atrevido e exagerado, 
que ela prpria jamais tivera coragem de usar. 
Comprara-o impulsivamente, quando todas as suas amigas se mostravam dispostas a se tornar tentadoras at o ponto de desnudarem os seios ou apenas os cobrirem com 
uma gaze cor da pele. 
O vestido era amarelo muito claro, e de uma fazenda to fina que ela parecia estar nua da cintura para cima. O decote era exageradssimo, e a fazenda, leve e cor 
da pele, mal escondia os rosados bicos dos seios. 
Lorinda olhou-se no espelho, quando ficou pronta, e sentiu-se satisfeita pelo fato de somente seu marido poder v-la. Estava, por outro lado, extremamente interessada 
em saber qual seria a sua reao. 
Sabia muito bem que, vestida como estava, excitaria at  loucura qualquer dos outros homens seus conhecidos. No era difcil imaginar o que Lorde Wroxford sentiria, 
e aquele vestido amarelo, sem dvida alguma, reduziria Edward Hinton a um triste estado de imbecilidade. 
A criada penteou-lhe os cabelos ruivos de maneira que o rostinho pontudo pareceu menor e mais belo. 
Lorinda desceu a escadaria, com os olhos enormes, e os lbios artificialmente mais vermelhos do que de costume. 
Como previra, Durstan Hayle a estava esperando no salo. Ela procurou entrar da maneira mais espetacular possvel, parando por um momento  porta, depois caminhando 
em direo ao marido muito devagar, de maneira que ele a pudesse apreciar bem. 
Sabia que os candelabros acesos sobre suas cabeas iluminariam todos os pormenores de sua indumentria e dela prpria, e encarava o marido bem nos olhos, para ver-lhe 
a reao. 
Ele esperou at que ela chegasse ao seu lado, para dizer: 
- Encomendei alguns vestidos em Londres para voc. No posso acreditar que esta monstruosidade estivesse includa entre eles. 
- No est gostando? - perguntou Lorinda, com doura, fingindo surpresa. Pensei que ia achar bonito! 
- Um vestido desses pode ser muito apropriado para uma prostituta, mas no para minha esposa! 
- No acha que est sendo muito retrgrado? 
- Voc vai mud-lo, imediatamente, por um vestido mais decente! 
- J est muito tarde, e no estou com vontade de troc-lo. 
- Ordeno-lhe que mude! 
- No tenho inteno de obedecer a uma ordem, nem reconheo seu direito de me dar ordens. 
Lorinda encarou o marido desafiadoramente, com os olhos nos dele, consciente de que se tratava, de novo, um duelo de vontades. 
- Muito bem - disse Durstan Hayle afinal. - Se quer ficar nua, por que no fica de uma vez? 
Estendeu o brao e, agarrando o leve tecido que cobria o corpo da mulher, arrancou-o com um gesto rpido, da cintura para cima. 
Lorinda deu um grito de espanto e, instintivamente, cruzou os braos sobre os seios. 
Viu a expresso de triunfo estampar-se no rosto do marido e, virando as costas, fugiu. 
Somente quando j chegara  porta, ouviu a voz Durstan, forte e calma, dizendo:
 - Estou  sua espera para jantar comigo, e dou-lhe cinco minutos para trocar o vestido, depois do que, irei busc-la. 
Lorinda no respondeu nem olhou para trs. 
Atravessou correndo o vestbulo, segurando diante do peito os restos do vestido, esforando-se para manter uma aparncia recatada, at poder refugiar-se em seu quarto. 
- O que aconteceu, milady? - perguntou, consternada, a criada que estava arrumando o quarto. 
- Houve um acidente - foi forada a explicar. 
A criada ajudou-a a vestir um dos trajes que vieram de Londres, e este era realmente lindo. 
Nem ao menos se olhou no espelho. Deixou que a criada a vestisse, como se fosse uma boneca, bem consciente do tique-ta que do relgio em cima da lareira. 
Sabia que Durstan Hayle viria mesmo busc-la no quarto, como prometera, e ela j fora bastante humilhada para ainda o ser diante dos criados. 
- Quer que eu conserte este vestido, milady? - perguntou a criada, quando ela ficou pronta. 
- Jogue-o fora! - ordenou Lorinda, irritada. - No quero v-lo nunca mais! 
Enquanto descia a escada, Durstan Hayle saiu do salo, o que significava que o jantar estava servido. 
Ele no fez comentrio algum sobre a aparncia da esposa, limitando-se a oferecer-lhe o brao, e Lorinda caminhou, silenciosa, a seu lado, para a sala de jantar, 
detestando o seu contato e a sua pessoa. 
* * * 
Surpreendentemente, Lorinda teve um sono sem sonhos, para acordar sentindo-se envolvida por um pesadelo que poderia durar indefinidamente. 
"Como posso viver assim?", perguntou a si mesma. 
Pela primeira vez, a idia de lutar interminavelmente contra um homem que saa sempre vitorioso a encheu de apreenso e de desanimo. 
Fora bastante sincera consigo mesma, para reconhecer que o provocara deliberadamente na noite anterior, mas a reao do marido fora inesperada. Achou que ele iria 
ficar com raiva, mas a sua violncia a abalara at lev-la a admitir, agora, que estava com um pouco de medo dele. 
"Ele tem reaes imprevisveis", disse a si mesma. "Qualquer outro homem teria reagido de maneira de todo diferente, mas, com ele, nunca se pode saber o que vir." 
Quando lhe foi trazido, no quarto, o caf da manh, ela perguntou, um tanto apreensiva, quais eram os planos para aquele dia. 
- O patro est querendo que a senhora passeie a cavalo com ele de novo, milady - informou a criada. - Mandou selar a gua em que a senhora andou ontem. 
J era um alvio, pensou Lorinda. Quando montava Ayshea, esquecia-se do dio que nutria pelo homem que cavalgava a seu lado e concentrava todas as energias no puro 
prazer de estar passeando num animal to magnfico. 
Por outro lado, desconfiava que Ayshea era um dos animais favoritos do marido e, no mo..mento, no estava disposta a encarar com simpatia qualquer preferncia dele. 
Escolheu uma amazona amarela, ainda mais bonita do que a que usara na vspera. 
- No acho que ele vai notar - murmurou1consigo mesma. 
- O que foi que a senhora disse, milady? - perguntou a criada. 
- Estou falando comigo mesma. 
O chapu fora feito por uma das melhores chapeleiras de Londres. Lembrava-se de que uma dzia de homens lanara exclamaes de admirao ao v-Ia pela primeira vez 
com ele, demonstrando, pela expresso de seus olhos, ach-la ainda mais desejvel do que de costume. 
S um homem com corao de pedra poderia resistir-lhe. 
Imaginou, ento, se Durstan Hayle no se sentiria atrado apenas por mulheres de cabelos negros e olhos de cora, dotadas de uma graa sensual que nenhuma ocidental, 
por mais graciosa que fosse, conseguia ter. 
"Eu devia estar muito satisfeita porque ele no quer tocar em mim", disse a si mesma. 
No podia, porm, negar que se irritava pelo fato de que ele se mostrasse insensvel aos seus atrativos. 
Chegando ao andar de baixo, verificou que o marido no a estafa aguardando no vestbulo, como esperava.
- O patro est na biblioteca -         informou-lhe o mordomo. 
Lorinda j ia procur-lo, quando ele apareceu, acompanhado do secretrio e do administrador. 
Depois de ter-lhes dado instrues, voltou-se para a esposa: 
- Peo-lhe desculpas, Lorinda - disse. 
- Mas, infelizmente, no vou poder acompanh-la esta manh. Tendo de ir a Falmouth, para um caso urgente. 
Lorinda nada replicou, limitando-se a olhar, atravs da porta aberta, para os cavalos, que se encontravam do lado de fora. - Voc no vai perder o passeio continuou 
Hayle. - Um palafreneiro vai acompanh-la. 
- No h necessidade disso - disse Lorinda. - Prefiro ir sozinha. 
- Um criado ir com voc! - reafirmou Hayle. 
- J lhe disse que no preciso de criado algum. Sempre ando a cavalo sozinha. 
Hayle atravessou o vestbulo e abriu a porta do salo. 
- Quer chegar aqui um momento? perguntou. 
Lorinda obedeceu, imaginando o que ele iria dizer. 
Hayle fechou a porta pelo lado de dentro. 
- Quero deixar bem claro uma coisa, Lorinda - disse, sem se exaltar. - Uma senhora bem-educada e correta costuma sempre andar a cavalo acompanhada por um pajem, 
e minha esposa  ambas essas coisas. 
- Isso  ridculo! - exclamou Lorinda. - Quem  que vai me ver? 
- A questo no  essa. 
- No vou ser acompanhada por um criado que, sem dvida alguma, vai contar tudo que eu fizer! 
- Vou mandar um criado acompanh-la, e no quero mais discutir o assunto! 
Durstan Hayle abriu a porta e voltou ao vestbulo. Lorinda o ouviu dando ordens para que Akbar fosse desarreado e levado de volta para a cocheira, e fosse selado 
outro cavalo para o criado. 
Lorinda o ficou olhando e mordendo o lbio inferior, como costumava fazer. 
Estava furiosa, vendo que, seus desejos eram postos de lado, to arbitrariamente. Detestava a idia de andar a cavalo acompanhada por um criado. Sempre andara sozinha, 
mesmo quando era criana e, em Londres, jamais se preocupara em levar um pajem consigo, quando passeava a cavalo em Hyde Park.  bem verdade que, logo que aparecia, 
era rodeada por uma multido de admiradores, que cavalgavam a seu lado. 
Quando chegavam  parte do parque menos freqentada pela alta sociedade, Lorinda punha sempre seu cavalo a galope. s vezes, avanava, mesmo, pelos campos, por sua 
conta, andando pela charneca de Hampstead, ou at mesmo pela pradaria que se estendia alm de Chelsea. 
Agora, porm, teria de ser vigiada e pajeada, como se fosse uma criana ou uma das mulheres da sociedade das quais sempre zombara, dizendo que elas s sabiam andar 
em "cavalinhos de balano". 
Era um insulto ao seu orgulho. 
Como, porm, temia que, se fosse discutir, seu marido acabasse proibindo-a inteiramente de passear a cavalo, esperou, batendo os ps impaciente, o aparecimento do 
criado que a acompanharia. 
Enquanto isso, apareceu diante da porta do castelo o faton que havia admirado no dia em que Durstan Hayle fora, pela primeira vez; ao priorato, procurar seu         pai. 
Se ele lembrou-se de que ela estava no salo, no demonstrou, limitando-se a entrar no faton, pegar as rdeas e partir. 
Lorinda atravessou o vestbulo para v-lo.
No havia dvida de que ele dirigia a carruagem com rara percia, e no se podia negar que havia algo de muito elegante e, ao mesmo tempo, atrevido, na largura de 
seus ombros e na maneira de usar a cartola um pouco inclinada. 
"Ele pode andar assim", disse Lorinda a si mesma, desdenhosamente, "mas, por dentro  to fora de moda e obsoleto como um servio religioso!" 
Sentiu dio dele, ao v-lo desaparecer em uma nuvem de poeira. 
Viu, ento, o palafreneiro, vindo das cocheiras, montando em um cavalo fogoso, que tinha alguma dificuldade em dominar. 
Ajudada, cavalgou Ayshea, e saiu do ptio, certa de que o criado a estava seguindo,  distancia convencional. 
Seu crebro j estava arquitetando um plano, imaginando um meio de iludir as ordens do marido. 
Deliberadamente, seguiu para o norte e, dentro em pouco, estavam fora do parque e da aldeia, em pleno campo aberto, onde o capim era coberto de flores silvestres. 
Ento, ps Ayshea a galope, cavalgando com a habilidade que a tornara uma notvel amazona. 
O animal que o criado montava era vigoroso e a acompanhou bem, pelo menos at a distancia de uma milha. Depois, olhando para trs, Lorinda percebeu que estava comeando 
a distanciar-se dele.
No havia dvida de que, embora o cavalo fosse um excelente animal, no podia competir com Ayshea, do mesmo modo que o criado no podia, como cavaleiro, competir 
com Lorinda. 
A jovem continuou a manter o animal no galope, mas, olhando para trs, viu que o criado tambm estava disposto a no perd-la de vista. 
De sbito, sentiu que aquele criado era um smbolo de tudo que detestava em Durstan Hayle: sua atitude de censura para com ela, seu desejo de respeitabilidade e, 
acima de tudo, o fato de no ach-la uma mulher atraente. 
Fugir do criado que estava ali por ordem do marido, constituiria um golpe positivo contra o homem que odiava, que assim ficaria sabendo no ser ela a escrava que 
ele esperava. 
Pela primeira vez, chicoteou e esporeou Ayshea. A gua arremessou-se a maior velocidade para a frente, ao sentir aquele estmulo inabitual. 
Com os lbios cerrados, os olhos fuzilando de raiva, Lorinda continuou a usar as esporas. 
Era impelida por um frenesi quase incontrolvel, uma revolta contra tudo que sofrera nas mos do marido, desde o momento em que o conhecera. Trazia consigo um chicote 
comprido e flexvel, e comeou a fustigar Ayshea com ele, mantendo a gua em um galope a toda velocidade, chicoteando-a e esporeando-a alternadamente. 
Nada havia de racional em tal atitude, fruto de uma exploso emocional que a abalava at as profundezas de seu ser. 
Sabia que estava sendo cruel, mas sentia uma estranha excitao, ao dominar o animal favorito do marido, ao mesmo tempo em que se livrava do seu criado. Era como 
se Durstan a estivesse perseguindo, querendo aprision-la, disposto a no deix-la escapar da armadilha em que a apanhara. 
Continuou a chicotear e esporear Ayshea, para obrig-la a galopar cada vez mais depressa. Somente a velocidade a colocaria fora do alcance do homem que odiava! 
Devia ter galopado em uma extenso de vrias milhas, quando, de repente, sem advertncia, a gua enfiou o p em uma toca de coelho. Cambaleou, caiu de joelhos e 
atirou Lorinda para fora, por cima de sua cabea. 
O cho no era duro e, embora Lorinda ficasse abalada com a queda, no ficou inconsciente, mas apenas atordoada. Permaneceu deitada por um momento, e percebeu que 
o impulso louco, impetuoso, que lhe correra pelas veias como fogo, a havia abandonado, e que recuperara o bom senso. 
Sentou-se, consertando o chapu, e olhou para a gua. A primeira coisa que notou foi que Ayshea estava com a pata machucada, mas logo depois viu que o flanco do 
animal estava coberto de sangue. 
Ficou atnita. 
Nunca, em toda a sua vida, usara a espora em um animal ensinado, mas apenas quando amansava cavalos. Jamais fora cruel at o ponto de fazer sangrar ou infligir sofrimento 
a um cavalo que estava fazendo o que se exigia dele. 
Ps-se de p, desarvorada. 
- Desculpe-me, Ayshea! - exclamou. - Perdoe-me! Perdoe-me, querida! 
Estendeu os braos para afagar o amedrontado animal, acariciando-lhe o pescoo, falando-lhe em voz baixa, at que a gua esfregou nela o focinho, confiante, como 
que para perdo-la. 
"Como pude fazer uma coisa destas?", perguntou Lorinda a si mesma, horrorizada. 
Sempre detestara a crueldade, sob qualquer forma. No entanto, pensando no que sofrera do marido, fizera seu animal favorito, Ayshea, pagar brutalmente pelo no devia. 
Escondeu o rosto na crina da gua, procurando conter as lgrimas. Afinal, andou em torno do animal, constatando que a pata estava, de fato, seriamente machucada, 
o que significava que teriam de voltar para casa muito devagar, e tratou de voltar, seguindo por um terreno que qualquer cavaleiro sensato saberia ser imprprio 
para andar com um animal a galope. 
Sabia que levaria horas para seguir, em sentido contrrio, o espao de vrias milhas por onde viera. Era um castigo bem humilhante para a maneira com que se tinha 
comportado.  
Tentando animar Ayshea, Lorinda se viu, quase sem querer, sussurrando, repetidas vezes: 
- Desculpe-me! Desculpe-me, estou arrependida! 
E teve a impresso de que o animal compreendia. 
Somente mais de quatro horas depois foi que avistou o castelo, ao longe. Tivera esperana de encontrar o palafreneiro, que ainda a devia estar procurando. No esforo 
de livrar-se dele, porm, ela mudara a direo vrias vezes e, sem dvida, o criado ficara inteiramente desorientado, sem saber que rumo ela tomara. 
Levaria ainda mais uma hora, calculou, para chegar ao castelo e, quela altura, estava cansadssima e custando a caminhar com as botas de montar. Nada mais podia 
fazer, porm, do que se arrastar e estimular o animal machucado, sabendo que, quanto mais cedo Ayshea chegasse  cocheira e ficasse entregue aos cuidados do chefe 
dos palafreneiros, tanto melhor. 
A tarde j avanava, quando alcanou a alia que levava ao castelo. 
Devia ter sido vista  distncia, pois os criados da estrebaria, que a deviam estar aguardando, correram ao seu encontro. Lorinda percebeu, pela expresso de seus 
olhos, que o criado que a acompanhara j voltara, te revelara a sua conduta. 
- Ayshea no s est com a perna machucada, como precisando de um cataplasma no flanco - disse ao chefe dos palafreneiros. 
No esperou para ver a consternao estampada no rosto do homem, mas afastou-se logo, deixando a gua aos seus cuidados. Entrou em casa e subiu a escada, sem demora. 
Uma criada a ajudou a tirar a amazona e as altas botas de montar, cobertas de poeira, devido  caminhada, com as esporas cheias de sangue. A barra da saia estava 
manchada tambm, e Lorinda desviou os olhos, para no v-la. 
- Pode deixar tudo a - disse  criada. 
- Mais tarde, voc arruma. Quero ficar sozinha. 
- Pois no, milady. 
A criada ps as botas embaixo da penteadeira e deixou o chicote, o chapu e as luvas em cima de uma cadeira. 
Lorinda vestiu um fino nglige e deitou-se no div em frente  janela, recostada nas macias almofadas. A criada a cobriu com uma leve colcha de cetim e renda e 
saiu. 
Lorinda fechou os olhos. Estava atnita com o que fizera e com a sua incapacidade de dominar-se. Como machucara Ayshea at aquele ponto, como a castigara impiedosamente, 
quando a pessoa que queria realmente atingir era o seu marido? 
Sentia-se envergonhada, terrivelmente abatida. Como pudera degradar-se e agir com tal selvageria? 
Devia estar descansando havia meia hora, e estava mesmo cochilando, quando a porta se abriu, sem qualquer aviso ou rudo, e Durstan Hayle entrou no quarto. 
Era a primeira vez que entrava ali, e, surpreendida ao v-lo, Lorinda sentou-se no div. 
Encarou o marido. E teve a impresso de que o corao parara de bater, pois nunca em sua vida vira um homem to furioso. 
O rosto de Durstan Hayle estava contorcido pela raiva. At ento, Lorinda o julgara sempre duro e frio, mas agora a sua expresso mudara, e ele parecia to violento 
e feroz quanto o prprio demnio! 
Caminhou alguns passos e perguntou depois: 
- Acabo de ver Ayshea. Que explicao tem para uma conduta to brbara? 
Embora sua voz no fosse elevada, tinha uma entonao que fez com que Lorinda se pusesse de p, instintivamente. 
Estava, antes, disposta a pedir desculpas pelo que fizera com o animal, embora, certa de que fora Durstan Hayle quem a levara quilo. Agora, porm, o dio que sentia 
pelo marido inflamou-se de novo e ela achou, como achara quando fugira do criado que a acompanhava, que tinha de resistir  atitude de subservincia que ele exigia 
dela. 
Hayle aproximou-se ainda mais, e a fria refletida em seus olhos dava-lhe uma expresso que Lorinda nunca vira antes. Custava a acreditar que aquele fosse o homem 
com quem se casara. 
- Eu sabia que voc era completamente insensvel aos sentimentos dos outros - disse ele. - Sabia que era egosta, caprichosa e m, como nenhuma mulher deveria ser. 
Mas no acreditei que fosse capaz de tanta crueldade como a que infligiu a um de meus animais prediletos! 
Calou-se por um momento e depois disse, pausadamente, tornando o que falava ainda mais amedrontador: 
- Em tais circunstncias, acho mais do que justo que voc receba o mesmo tratamento! 
Lorinda no compreendeu. Depois, abriu a boca, estarrecida, ao ver Durstan Hayle pegar, em cima da cadeira, o chicote que ela usara para espancar to cruelmente 
Ayshea. 
Durante um instante, Lorinda sups que aquilo no estivesse acontecendo e fosse simples fruto de sua imaginao. 
Depois, com um gesto rpido, que a fez dar um grito de horror, Durstan Hayle agarrou-a e f-la virar-se, atirando-a, ao mesmo tempo, no div. 
Seu rosto encontrou a macieza de uma almofada de cetim e, quando virou a cabea, esforando-se para respirar, sentiu o chicote lhe atingir as costas. 
O sofrimento provocado pareceu escapar-lhe do corpo para penetrar no esprito. 
Hayle aplicou-lhe trs chibatadas e, afinal, quando ela sentiu que a dor se tornara quase intolervel, atirou o chicote para um lado, e Lorinda sentiu que a agarrava 
pelo brao. 
- Jamais qualquer dos meus cavalos precisou ser tratado com cataplasmas disse ele, no mesmo tom de voz que a aterrorizava. - Imagino que voc no sabe como di uma 
espora. Ento  melhor que aprenda! 
Pegou a bota esquerda, que a criada deixara embaixo da penteadeira, e levantou a manga do casaco de Lorinda. Depois, sem querer acreditar no que acontecia, Lorinda 
sentiu, na parte macia do ombro, a picada aguda da espora! 
Gritou, antes que se contivesse. 
Depois, com uma vontade de ferro, que o orgulho lhe deu, conseguiu sofrer sem um gemido mais duas outras picadas. 
Ouviu o rudo da bota atirada ao cho, junto do chicote, depois o eco de seus passos atravessando o quarto e da porta, batida com toda a fora. 
Lorinda ficou como o marido a deixara, incapaz de mover-se, com dificuldade at para respirar. 
No podia acreditar no que lhe acontecera. 
Ela, a mais aclamada e bela mulher de Londres, que jamais permitira que qualquer homem a tocasse, como prova de amor, fora chicoteada e esporeada como se fosse um 
cavalo. 
Suas costas latejavam intoleravelmente, mas, muito pior do que o sofrimento fsico, era a humilhao que sentia. 
Como a maior parte das mulheres, Lorinda jamais conhecera a violncia, exceto a sofreguido amorosa dos homens que desejavam tom-la nos braos. 
A crueldade que conhecera agora e a fora superior de um homem, contra o qual no tinha defesa, eram algo que feriu profundamente a prpria alma. 
Estava alm do dio; alm de qualquer sentimento, no momento, exceto o desejo de morrer, de escapar de um futuro desconhecido, mas to ameaador e to terrvel que 
ela mesma no sabia definir. 
"Que farei? Poderei suportar isso?", perguntou a si mesma. 
Ainda sem poder mover-se, imaginou fugir, sentindo que, depois do que seu marido lhe fizera, seria impossvel encar-lo de novo. 
Como o poderia, depois do modo que ele a tratara? 
Como voltaria a ver a expresso zombeteira de seus olhos e o sorriso sarcstico contorcendo-lhe os lbios, sabendo que ele estaria sempre lembrando a maneira com 
que a humilhara e espezinhara sua importncia? 
Naquele momento, Lorinda sentiu-se mergulhada em um inferno to profundo e to sombrio, que lhe pareceu impossvel escapar. 
Ento, o orgulho, que fora sempre uma de suas virtudes, e a coragem, que nunca lhe faltara, vieram em seu socorro. Aos, poucos, de seus sentimentos angustiosos veio 
um pensamento construtivo. 
Durstan Hayle a humilhara mais do que parecia possvel que um homem humilhasse uma mulher, tratando-a to cruelmente como se ela fosse um animal, mas no lhe daria 
a satisfao de compreender tal coisa. 
No se daria por derrotada, no se mostraria subserviente, fosse o que fosse que ele lhe pudesse fazer. 
Bem devagar, dominando o sofrimento, Lorinda levantou-se do div. 
No precisava ver as costas, para saber que o chicote deixara trs verges em sua pele alva, que no fora protegida pelo fino tecido do peignoir. Era fcil, por 
outro lado, ver os trs ferimentos feitos pela espora em seu ombro. Em todos havia sangue, e estavam comeando a inchar.  
Lorinda sentou-se diante da penteadeira e olhou-se no espelho. Pensou que, depois de tudo por que passara, deveria fiar diferente, mas, embora muito plida, estava 
na realidade to bela quanto sempre tinha sido. 
Sentiu o impulso louco de cortar o rosto com uma faca, para se enfear a tal ponto, que Durstan Hayle seria obrigado a atravessar a vida em companhia de uma esposa 
to horrorosa que todo mundo desviaria a vista quando a encontrasse. 
Depois, refletiu que, se demonstrasse que ficara transtornada com o que ele fizera, estaria exatamente agindo como ele queria. 
Ele a surpreendera, no havia dvida. 
Ela o surpreenderia, por sua vez. 
- No desistirei! - exclamou, em voz alta. - Lutarei contra ele, mesmo que me mate, at o meu ltimo alento! 
Foi doloroso o banho, sentindo a gua nos verges das costas e nos ferimentos dos ombros. A dor parecia aumentar, de minuto a minuto. 
Quando desceu para jantar, Lorinda escolheu, deliberadamente, um dos mais belos vestidos que haviam vindo de Londres, e a criada penteou-lhe os cabelos de maneira 
ainda mais espetacular. 
Lamentou no ter uma jia para usar, para que sua aparncia ainda ficasse mais sensacional. 
Cobriu com uma encharpe bordada os ombros e as costas e levou consigo um pequeno leque pintado por mo de mestre. 
Desceu lentamente a escada, cinco minutos antes da hora marcada para o jantar, consciente de que, embora parecesse calma, seu corao estava batendo descompassadamente. 
Era mais difcil do que previra encontrar-se com o marido e desafi-lo, mostrando-se inteiramente normal e despreocupada. 
Todos os instintos do seu corpo faziam-na odi-lo, e querer dizer-lhe o que pensava a seu respeito, na esperana de que, assim, o humilharia. 
O meio que escolhera, porm, era muito mais sutil. A uma hora daquelas, Hayle j deveria ter se acalmado e talvez estivesse envergonhado pela maneira pela qual a 
agredira. Um homem que se chamava de gentleman poderia sentir-se de outro modo? 
Mas seria ele mesmo um gentleman, perguntou Lorinda a si mesma, cheia de desdm, ou sua dignidade e aparncia distinta no passavam de um verniz superficial? 
No fundo, ele devia ser apenas um plebeu, um negociante que quisera casar-se com uma aristocrata. 
O desprezo que sentia fez com que Lorinda caminhasse com maior altivez ainda, mas, apesar de toda a sua disposio, sentiu-se nervosa, quando o lacaio abriu a porta 
que dava para o salo. 
Para sua surpresa, e, mais do que isso, para seu alvio, viu que o marido no estava s. O vigrio que os casara encontrava-se de p, com ele, na extremidade ela 
sala, com um clice de vinho Madeira na mo. 
Lorinda encaminhou-se, a passos lentos, em sua direo. 
- Esqueci-me de dizer, Lorinda, que o reverendo Augustine Trevagan  nosso convidado esta noite - disse Durstan, quando ela chegou perto deles. 
- Muito prazer em v-lo, vigrio! disse Lorinda, estendendo-lhe a mo. 
- Sinto-me honrado, milady, pois seu marido me disse que sou seu primeiro convidado. 
- , realmente, e, como nos casou, quem poderia substitu-lo melhor? - perguntou Lorinda. 
Forou um sorriso amvel para Durstan Hayle, enquanto falava, esperando que ele se sentisse embaraado e talvez desconcertado com sua atitude. 
Foram jantar, e a conversa girou inteiramente em torno de alguns melhoramentos que seriam feitos na igreja, e que deveriam ser custeados por Durstan. 
O jantar foi muito demorado e, enquanto os pratos iam se sucedendo, Lorinda comeou a sentir-se cansadssima. 
A disposio para o desafio, que a fizera enfrentar o homem que a agredira, foi se diluindo,  medida que as dores que sentia iam se tornando mais fortes, de minuto 
a minuto. Os ferimentos produzidos pela espora doam mais do que os verges do chicote, e a dor se tornou to intolervel, que ela no conseguiu mais comer coisa 
alguma. 
Servia-se de cada prato, mas, quando tentava levar uma garfada  boca, sentia que a comida no passaria pela garganta. Bebeu um pouco de vinho, mas, se este produziu 
algum efeito, foi o de tornar as dores mais intensas, a ponto de ter a impresso de que no estava sentada na cadeira, mas afundando pelo soalho adentro. 
"Preciso ir l para cima", disse a si mesma. 
Estava decidida a no permitir que, depois de todo o esforo que fizera, fosse abatida pela fraqueza. No havia, porm, comido coisa alguma, desde o caf da manh, 
e a longa caminhada que fizera, levando Ayshea para o castelo, a esgotara, fsica e mentalmente. 
A conversa desviara-se para os vitrais das janelas.
Durstan parecia muito enfronhado no assunto, e discutia com o vigrio as vantagens de vrios tipos de vidro, e quais seriam os mais adequados para a igreja. 
Era uma conversa incrivelmente tediosa, mas, na verdade, Lorinda sentia que, mesmo se fosse uma conversa entre os homens mais espirituosos e mais cultos, ela dificilmente 
a acompanharia naquele momento. 
Terminado o jantar, a garrafa de vinho do Porto foi colocada diante de Durstan, e os criados se retiraram. Era o momento em que Lorinda deveria retirar-se para o 
salo. 
J no poderia manter-se sentada, fingindo estar interessada pela conversa dos dois homens, e procurando esquecer-se da dor que a pungia. 
- Vou deix-los, meus senhores, para que saboreiem seu vinho do Porto... - tentou dizer, mas, tomada de pnico, constatou que no conseguiria levantar-se da mesa. 
Conseguiu afinal, mas a dor nas costas f-la sentir-se incapaz de focalizar a vista. Havia um nevoeiro diante de seus olhos, e tudo parecia estar muito longe. 
Durstan caminhou diante dela, para abrir a porta. 
Lorinda mal pde v-lo, e parecia que pancadas de tambor ressoavam em seus ouvidos. 
"No vou fraquejar! No vou!", disse a si mesma. "Ele me quer ver fraquejar, triunfar sobre mim, mas no permitirei!" 
Sentia os ps pesados como chumbo, mas conseguia mov-los, um depois do outro. Durante um momento, imaginou que estava caminhando com Ayshea, depois compreendeu 
que no era a gua que estava a seu lado, mas o marido. 
Atravessou a porta. Conseguira! Vencera! 
Depois, quando ouviu a porta fechar-se atrs de si, deixou as trevas a envolverem completamente e penetrou, quase satisfeita, em um estado de inconscincia no qual 
no precisava mais pensar ou sentir. 
No ficou sabendo que Durstan ouvira o leve rudo que ela fez, ao cair no tapete. 
Ele abriu de novo a porta que dava para a sala de jantar e, debruando-se, apanhou-a nos braos e levou-a, subindo a escada, para o seu quarto. 
***
 
CAPTULO VI 
Lorinda acordou e ficou imvel, lembrando-se do que acontecera na noite anterior. 
Recuperara, parcialmente, a conscincia, quando estava sendo carregada escada acima. 
Viu quem a estava carregando e, surpreendentemente, em vez de sentir repugnncia pelo braos do marido que a cingiam, experimentara uma sensao de proteo e segurana. 
No estava raciocinando claramente, mas, quando Durstan a colocou na cama, delicadamente, teve o impulso de agarrar-se a ele e pedir-lhe para no deix-la. 
Depois, lembrou-se do que sofrera em suas mos e no abriu os olhos. 
Ele puxou a campainha violentamente e um momento depois, quando apareceu uma criada, quase correndo, ordenou: 
- Tome conta de sua patroa. Ela est cansada. 
Afastou-se, e Lorinda ouviu o rudo de seus passos descendo a escada. 
Sentiu vontade de chorar, mas disse a si mesma que aquilo era uma fraqueza momentnea, resultado do desmaio e do que passara durante o dia. 
Enquanto estava ainda se lembrando do que ocorrera, a criada entrou no quarto, para abrir as cortinas. 
- Foi uma noite terrvel, milady - observou, quando viu que Lorinda j estava acordada. - A senhora devia ver a tempestade! Caram rvores no parque, e esto dizendo 
que vrios navios naufragaram. 
Lorinda sentou-se na cama, embora as costas doessem, ao faz-lo. Pde ver, atravs da janela, que o cu ainda estava cinzento e os ramos das rvores ainda estavam 
recurvados pelo efeito do vento. 
- Eu ia lhe dizer, milady, que o patro saiu para verificar os estragos e s vai voltar na hora do almoo - continuou a criada. 
Com um suspiro de alvio, Lorinda tornou a recostar-se no travesseiro. 
Isso significava que ela poderia descansar, pois, embora tivesse dormido a noite inteira, exausta, ainda estava muito cansada. 
Depois de tomar apenas uma xcara de caf, dormiu de novo, e s acordou pouco antes da hora do almoo. Realmente, havia apenas alguns minutos que se encontrava no 
andar de baixo, quando Durstan voltou. 
Ele entrou no salo, onde ela estava esperando, e Lorinda o encarou, apreensiva. Era a, primeira vez em que ficavam sozinhos, desde que ele a chicoteara. 
Lorinda se sentia muito fraca para comear outra briga, e seus olhos se arregalaram, ao v-lo aproximar-se. 
- Os danos no so to srios quanto eu temia, mas mesmo assim so bem grandes - disse ele, coloquialmente. - Dois celeiros de uma das granjas foram atingidos pelo 
vento, e as ardsias dos telhados se espalharam por todos os lados. 
Aproximou-se da bandeja de bebidas, para se servir de um clice de xerez. 
- Aceitaria um clice de Madeira? perguntou, polidamente. 
- No, obrigada - respondeu Lorinda. 
- Os piores estragos foram causados pelo mar - continuou Hayle. - Houve perigosas quedas de rochedos, em muitos lugares, e os contrabandistas vo ter de descobrir 
um outro lugar para descarregar suas mercadorias. 
Lorinda inteiriou-se. 
- Os contrabandistas? repetiu. 
Durstan encarou-a, sorrindo. 
-  impossvel um barco entrar na enseada de Keverne. 
Lorinda encarou-o, e ficou imvel, de repente. 
- Foi voc! - exclamou. - Foi voc, no bosque! 
- Eu estava querendo saber quando voc descobriria isso. 
- Mas ... por qu? Por que interferiu? O que tinha a ver com aquilo? 
Durstan aproximou-se de Lorinda. 
- Adivinhei o que voc iria fazer disse, um momento depois. 
- No era de sua conta ... Nem sequer me conhecia ... 
- Conheo alguns dos contrabandistas - disse Durstan, alguns momentos depois. - Na verdade, trabalham em minhas propriedades. So bons sujeitos, e no vou interferir 
em um passatempo tradicional da Cornualha, mas eles so grosseiros e, s vezes, brutais. 
- Nunca me maltratariam - retrucou Lorinda, orgulhosamente. 
Encarando-a nos olhos, Durstan disse, pausadamente: 
- No pode ter certeza disso. 
- A nica coisa que eu queria era aplicar meu dinheiro por intermdio deles. S isso. 
Durstan sorriu, e disse depois: 
- Parece que voc se olha poucas vezes no espelho. 
Lorinda encarou-o, atnita, mas, antes que pudesse replicar, o mordomo anunciou o almoo. 
Enquanto faziam a refeio ligeira, Lorinda achava difcil acreditar que, realmente, o marido lhe dirigira o primeiro elogio  sua beleza. 
Conversaram principalmente acerca da tempestade e dos efeitos da fria do mar sobre os rochedos. Lorinda lembrou-se de que a formao grantica dos rochedos da Cornualha 
tinha um revestimento de ardsia que se decompunha quando exposto ao ar. Disso resultava a estranha aparncia dos velhos rochedos, que no tinha semelhantes na Gr-Bretanha, 
mas podia provocar deslizamentos de terras, extremamente perigosos para os que se aventuravam perto de sua orla. 
- A tempestade passou, graas a Deus! - disse Durstan, quando terminaram o almoo. - Mas o mar est muito bravio, e receio, pelos destroos que tm sido atirados 
 terra pelas ondas, que mais de um navio tenha naufragado  noite passada. 
, - Esto procurando os sobreviventes? - perguntou Lorinda. 
- Vo procur-los, logo que o mar esteja suficientemente calmo. 
Os dois se levantaram da mesa, e Durstan encaminhou-se para o cavalo, que o esperava do lado de fora da porta de entrada. 
Brutus o acompanhava, mas Csar ficou com Lorinda. O co aparecera em seu quarto, pela manh, arranhando a porta, at ser admitido, e se deitara ao lado da cama. 
Lorinda acariciou-lhe a cabea, dizendo: 
- Vou lev-lo para dar um passeio. 
O co ficou alerta, ao ouvir estas palavras, e Lorinda apressou-se em subir a escada, a fim de vestir uma jaqueta curta, sobre o vestido de vero, e pr um chapu, 
preso por meio de fitas amarradas sob o queixo. 
O vento diminura de intensidade. 
Ao atravessar o jardim, acompanhada por Csar, Lorinda verificou que a tempestade arrancara as flores dos arbustos e havia, nos gramados, galhos quebrados, que os 
jardineiros estavam comeando a recolher. 
Depois de percorrer o jardim, Lorinda, atravessando o terreno plantado de arbustos, penetrou no bosque, at ouvir o rudo elas ondas, vendo, ento, que no estava 
distante do mar. Avistou-o, subindo a uma elevao. 
 luz do Sol, o mar era uma mistura de verde-esmeralda com azul-vivo, e as cristas brancas das ondas erguiam-se, impetuosamente, at onde os olhos alcanavam. 
O vento levantava a saia de Lorinda e da teve de levar a mo ao chapu, para segur-lo. 
Por outro lado, o vento era quente, e trazia uma sensao revigorante, que animava a jovem. Tinha o esprito ocupado com a descoberta que fizera de ter sido Durstan 
que a agarrara no bosque, ao amanhecer, impedindo-a de levar avante sua inteno de negociar com os contrabandistas. 
Arrependia-se de no lhe ter perguntado por que ele estava ali, como a reconhecera, embora ela estivesse usando roupas de homem, e por que, devido  sua beleza, 
a impedira de conversar com os contrabandistas. 
A questo mais pertinente era, na realidade, esta ltima. 
Seria realmente possvel que, a despeito do desprezo e da indiferena que sempre vira em seu rosto, ele realmente a admirava um pouco? 
No podia acreditar. 
Nenhum homem que a achasse atraente teria se comportado como seu marido fizera, e, no entanto, ele lhe dirigira um elogio, embora de maneira um tanto estranha. 
"Ele  imprevisvel... to difcil de se entender!...", disse a si mesma, dando um suspiro. 
Caminhou at perceber que estava bem na orla dos rochedos e que no deveria ir alm. Estava certa de que Durstan falara a verdade, quando dissera que os rochedos 
eram perigosos, especialmente depois de uma tempestade. 
Lembrava-se de que, quando era criana, era proibida de aproximar-se dos altos rochedos granticos das proximidades do priorato. 
O mar, porm, era uma atrao irresistvel e o ficou contemplando, pensando que no havia pintor capaz de reproduzir fielmente a beleza das ondas. 
Um forte latido chamou-lhe a ateno, e ela olhou em torno, procurando Csar. 
O latido repetiu-se e, horrorizada, Lorinda compreendeu que ele vinha da frente, dos prprios rochedos. Adiantando-se alguns passos, compreendeu o que acontecera. 
Andando em crculos, farejando o cho, Csar aproximara-se demais da beira do rochedo. Este cedera sob seu peso e o precipitara em uma salincia, situada vrios 
metros abaixo. 
De joelhos, Lorinda arrastou-se pelo rude terreno, at um ponto onde podia ver perfeitamente o co. Este se encontrava a salvo, mas, abaixo dele, estendia-se um 
precipcio vertical, quase at o nvel do mar.
Arrastando-se, polegada por polegada, Lorinda conseguiu estender o brao para fora da orla do rochedo, mas Csar estava em nvel mais inferior, e ela no pde alcan-lo. 
- Deite-se! - ordenou. 
Obediente, o co deitou-se, fitando-a com olhos confiantes, enquanto Lorinda, freneticamente, imaginava como poderia salv-lo. 
Era impossvel descer at junto do animal, e igualmente impossvel agarr-lo pela coleira e suspend-lo como um homem conseguiria fazer. 
Lorinda raciocinou com presteza e decidiu-se. 
- Deitado, Csar! - tornou a ordenar. - Em guarda! 
Sabia, porque j havia visto Durstan dar-lhe as mesmas ordens, que o co ficaria imvel, at que lhe fosse ordenada outra coisa. 
Fazendo votos para que ele entendesse o que ela estava ordenando, Lorinda recuou, bem devagar, e, quando achou que o terreno estava seguro, se ps de p. 
Era uma questo de tempo, pensou, at que pudesse encontrar algum antes que Csar se cansasse de obedecer, vendo que ela j no estava por perto. 
O castelo no ficava perto, mas Lorinda comeou a correr pelo caminho por onde viera. J havia quase chegado ao bosque, quando viu, abaixo dela, um homem a cavalo 
que logo reconheceu. 
Gritou, mas o vento afastou sua voz, e ficou certa de que ele no ouvira. 
Ento, arrancou o chapu e acenou com ele, violentamente, advertindo o cavaleiro que montava o animal negro, em que ela reconhecera Akbar. Levou, contudo, alguns 
segundos at despertar sua ateno. 
Viu Durstan voltar a cabea e, com uma profunda sensao de alvio, pde ver, tambm que ele estava galopando em sua direo. 
Antes que ele tivesse tido tempo de perguntar do que se tratava, Lorinda exclamou, com a voz entrecortada: 
- Csar! Caiu do rochedo e no posso alcan-lo. Por favor, Durstan, v salv-lo! 
-  claro! 
Debruou-se sobre o cavalo, ao dizer estas palavras, levantou Lorinda nos braos e colocou-a em sua frente. Apertou-a estreitamente com o brao esquerdo, enquanto 
guiava Akbar com o direito. 
- Por onde devemos seguir? - perguntou. 
Lorinda apontou para o caminho por onde viera, pouco mais que um trilho, e Durstan seguiu-o. 
- No sei como aquilo aconteceu disse Lorinda, desalentada. - Eu estava de p, olhando o mar, e Csar devia estar farejando, quando o rochedo despencou debaixo dele. 
Estava to perturbada e ansiosa, que mal tinha conscincia de se encontrar apertada nos braos do marido e que, como havia tirado o chapu, os cabelos batiam, impelidos 
pelo vento, em suas faces muito plidas. 
- Eu mandei que ele ficasse deitado - continuou Lorinda, com voz apreensiva. - Tenho certeza de que, se no se mover, no correr perigo. Acha que ele me obedeceu? 
- Estou certo que sim - respondeu Durstan, amavelmente. 
Chegando ao alto da ladeira, Durstan fez Akbar parar. 
-  aqui, bem aqui! - disse Lorinda, apontando para o local de onde Csar cara. 
Durstan, apeando-se, colocou a esposa no cho e depois prendeu o animal a uma rvore seca, que no sobrevivera a uma tempestade anterior. 
- Fique aqui! - disse a Lorinda. Depois, tendo deixado o chapu no cho, avanou at atingir a orla do rochedo, onde fez como Lorinda havia feito, avanando de gatinhas, 
depois deitando-se. 
Lorinda ouviu-o falando com Csar, e sentiu um alvio profundo, vendo que o co no se havia movido. 
Durstan avanou mais. Depois, devagar com muito cuidado, pulou ele prprio a borda do rochedo. 
- Cuidado! Cuidado! - gritou Lorinda, impulsivamente. 
Durstan, porm, no prestou ateno, desaparecendo, de sorte que sua esposa s pde ver o alto de sua cabea. 
Com medo at de respirar, Lorinda esperou e, um momento depois, viu Csar aparecer, tendo sido lanado de baixo para cima, sobre a orla do rochedo. 
- Csar! - gritou. 
O co correu ao seu encontro, e ela o apertou nos braos, sentindo uma intensa alegria que no podia expressar por palavras, ao v-l o salvo. 
Ao mesmo tempo, porm, ficou olhand0, apreensiva, para a orla do rochedo, esperando que Durstan reaparecesse. 
Finalmente, viu sua cabea e suas mos agarrando-se  pedra. Mas logo em seguida, ouviu-o dar um grito, seguido por um rudo de desmoronamento, que se fazia ouvir 
claro e amedrontador, sobre o barulho das ondas. 
Durante um momento, Lorinda ficou incapaz de mover-se. Depois, com o corao batendo descompassadamente, com os lbios ressecados, comeou a rastejar rumo ao ponto 
onde seu marido havia escorregado. 
- Em guarda! - ordenou ao co, virando-se de costas, com uma voz que parecia estrangulada na garganta. 
Csar obedeceu, e ela avanou, o mais depressa que pde, at a beira do rochedo. 
Olhou para baixo, e mal conteve um grito de horror. 
Foi fcil ver o que havia acontecido. A salincia, na qual Csar estivera e onde Durstan devia ter se firmado para salv-lo, havia cedido. 
Muito abaixo, no sop dos rochedos, quase ao nvel das ondas, estava o corpo estendido nas pedras. Durstan havia cado de costas e a avalanche de pedras quase lhe 
cobrira o corpo. 
O tempo parecia ter parado, enquanto Lorinda olhava, horrorizada. Afinal, compreendeu: tinha que salv-lo! 
Arrastou-se, de novo, afastando-se da orla do rochedo, e correu at junto de Akbar. Desamarrou o cabresto do tronco seco da rvore e cavalgou-o sem dificuldade, 
pois a saia muito rodada lhe permitia montar como homem. 
Seguida por Csar, voltou, com toda a rapidez, pelo caminho que atravessava o bosque, em direo ao castelo. 
O percurso no durou muito tempo, mas Lorinda teve a impresso de que se haviam passado horas, antes que ela chegasse s cocheiras onde disse a um palafreneiro que 
mandasse imediatamente algum procurar o administrador. Este chegou correndo, vindo do castelo. 
-  verdade que Mr. Hayle caiu dos rochedos, milady? - perguntou. 
- Ele estava salvando Csar - explicou Lorinda, em poucas palavras. - Est inconsciente, no sop do rochedo.  possvel chegar at junto dele em um barco? 
-  inteiramente impossvel, at que o mar se torne menos agitado - respondeu o administrador. - Uma embarcao seria despedaada de encontro s pedras, em questo 
de segundos. 
- Ento, temos de tentar, com cordas - disse Lorinda. - J ordenei aos criados que as procurassem. 
Viu, pela cara do administrador, que ele estava pensando que tal recurso poderia ser ainda mais difcil, mas limitou-se a acrescentar, energicamente: 
- Preciso de cobertores, um travesseiro e uma garrafa de conhaque, bem depressa! 
- Pois no, milady! 
O administrador correu a obedecer s suas ordens. Os palafreneiros j estavam selando cavalos e os retirando da estrebaria. Csar fora levado para o castelo. 
Finalmente, Lorinda partiu,  frente do grupo, ainda cavalgando Akbar. Seis homens a acompanhavam a cavalo, um deles levando a roupa de cama que ela ordenara. 
Pararam onde ela havia parado antes, mas, dessa vez, dois criados ficaram tomando conta dos cavalos, enquanto ela mostrava ao administrador e aos criados como tinham 
de atingir o rochedo. Todos olharam, e viram Durstan estendido onde Lorinda o deixara. 
As ondas se desfaziam impetuosamente de encontro s pedras, e no havia dvida de que o administrador falara a verdade; ao dizer que seria impossvel chegar ao local 
em um barco. 
- Tragam as cordas um pouco para a esquerda - disse Lorinda. - As rochas parecem mais firmes ali. 
- Duvido, milady - contestou o administrador. - Depois de uma tempestade Como a da noite passada, a ardsia se desfaz a um simples contato e, como a senhora sabe, 
 perigoso chegar muito perto da borda. 
- Vou explicar o que quero que faam - replicou Lorinda. 
Caminhou  frente, certa de que os homens que a seguiam estavam dispostos a discutir a respeito de tudo que ela sugerisse. 
Depois, fazendo uma parada, disse, com voz firme: 
- Quero que vocs passem -as cordas em torno de mim e me sustentem, daqui. Vou descer pelo rochedo abaixo. Enquanto eu no gritar, devem me agentar com toda sua 
fora. 
-  impossvel, milady! - protestou o administrador. - No posso permitir que raa isso. Um de ns ir. 
- Sou a mais leve e pretendo chegar at onde Mr. Hayle est - replicou Lorinda. - Por favor, faam exatamente o que estou mandando. 
Ditas estas palavras, virou-se para os criados e ordenou-lhes que amarrassem as cordas em torno de sua cintura. 
- Quando eu chegar l embaixo - remendou - quero que joguem os cobertores o mais depressa possvel no lugar onde se encontra o patro. No cheguem muito perto da 
borda, seno provocaro novo desabamento de pedras. Vou levar a garrafa comigo. 
Ps o frasco no bolso da jaqueta, e comeou a avanar para a beirada. 
- No posso permitir que faa isso, milady! - gritou o administrador. -  uma loucura! Pode ferir-se, talvez gravemente! 
- Eu costumava subir por estes rochedos quando era criana, e no tenho medo - afirmou Lorinda. - J lhe disse. 
Rastejou at a beira do precipcio e, com muito cuidado, agarrando-se s cordas, transps a borda. 
A princpio, foi-lhe difcil encontrar um apoio para o p. Depois, comeou a descer, sabendo que as cordas no lhe permitiriam cair. Estava ansiosa, por outro lado, 
para no provocar outra avalanche. 
Desceu, muito devagar, s vezes escorregando na ardsia mida, quase decomposta, outras vezes sentindo, como se estivesse suspensa no ar, os dedos deslizando em 
tudo que tocava. 
Afinal, alcanou a rocha firme, embaixo, e livrou-se das cordas. Deu um grito muito alto e, olhando para cima, viu o administrador que olhava de um ponto um pouco 
afastado do rochedo. Tivera a sensatez de no se colocar diretamente acima dela. Lorinda acenou, e ele respondeu com o mesmo gesto. 
A jovem comeou ento a caminhar, com todo o cuidado, pelos rochedos escorregadios, molhados pelas ondas, at onde se encontrava Durstan. 
No foi to fcil quanto imaginara, pois havia muitas fendas profundas. Houve, tambm, um momento de ansiedade, em que ela teve a impresso de que estava escorregando 
e cairia, irremediavelmente, no mar. 
A espuma das ondas quase a cegou, e Lorinda teve de limpar os olhos antes de prosseguir, mas, afinal, chegou junto do marido. 
Durstan estava deitado, imvel, e Lorinda foi tomada do sbito medo de que tivesse morrido. 
Havia um ferimento em sua testa, que sangrava, ferimento provocado, sem dvida, por uma grande pedra. Enquanto afastava os calhaus que o cobriam pela metade, a jovem 
imaginava quantos ossos teria ele fraturado em sua queda. 
Teve esperana de que as botas o tivessem salvo, pelo menos, de fraturar o tornozelo. 
Durstan ainda no estava propriamente molhado, mas apenas umedecido com o respingo das ondas. 
Lorinda levantou o rosto, quando ouviu um grito, e viu que os cobertores tinham cado apenas a uma distancia de uns dois metros. Desamarrou-os da corda, cobriu o 
marido com dois cobertores e, com todo o cuidado, enfiou o travesseiro embaixo de sua cabea. 
Ele estava de todo inconsciente, e ela imaginou se deveria tentar introduzir um pouco de conhaque entre seus dentes, mas chegou  concluso de que no convinha. 
Havia retirado todas as pedras que cobriam Durstan, e verificou se ele estava estendido em uma pedra maior, que tornasse a sua posio mais confortvel. 
Nada mais podia fazer, realmente. 
O Sol j baixara e a tarde j ia muito adiantada. Isso queria dizer que Lorinda teria de passar a noite ali, com o marido. Seria impossvel, mesmo se o mar serenasse 
dentro de uma ou duas horas, trazer um barco at junto dos rochedos. Havia muitas rochas submersas, que no poderiam ser evitadas, a no ser  luz do dia. 
Lorinda tinha certeza de que o administrador tomaria todas as providncias necessrias para que o salvamento se efetuasse no dia seguinte. 
Por enquanto, Lorinda teria, no somente de manter Durstan vivo, como de impedir que ela prpria sofresse, devido ao fato de ficar exposta aos elementos da natureza. 
Tocou primeiro as mos, depois o rosto do marido, muito de leve. Com os olhos fechados, ele parecia mais moo, e muito menos amedrontador do que habitualmente. Havia 
nele algo de pattico, agora que perdera o ar autoritrio e imperioso, amedrontando Lorinda com sua cara fechada. 
Era, ao contrrio, um homem que estava sofrendo, por culpa dela. 
Era doloroso para Lorinda pensar tal coisa, mas era a verdade. Ela no devia ter ido passear com Csar nos rochedos. Se tivesse juzo, teria compreendido o perigo, 
e prendido o co em uma trela. 
"Tudo que fiz depois que me casei foi errado", disse a si mesma, mal contendo um soluo. 
Lembrou-se do que fizera na vspera, da crueldade com que tratara Ayshea. 
Estremeceu, no de frio, mas diante da acusao que fazia a si mesma. Como pudera ser to perversa e to desagradvel? 
"Jamais usarei espora de novo... jamais!", prometeu. 
Sentindo-se infeliz, instintivamente aproximou-se mais de Durstan. 
Imaginou se seus sofrimentos seriam muito graves, e lembrou-se, horrorizada, que havia oito anos dois meninos da aldeia tinham cado nos rochedos, quando procuravam 
ninhos de aves, e morrido. 
"Eles eram crianas, e Durstan  um homem forte", disse a si mesma, mas sentiu medo. 
A noite ficou mais escura, e Lorinda chegou  concluso de que a nica coisa que convinha fazer era ficar o mais perto possvel do marido, a fim de que seus corpos 
aquecessem um ao outro. 
J o havia coberto com dois cobertores, e agora cobriu os dois com um terceiro, puxando-o sobre sua cabea, e deixando apenas os rostos expostos ao ar, para que 
pudessem respirar. 
Passou os braos em torno do corpo de Durstan, apertando-o com fora e, quando escureceu de todo, j no o via, apenas sentia o peso de sua cabea contra os seus 
seios. 
- Tudo ficar bem - sussurrou, como se estivesse falando com uma criana. - Se voc fraturou algum osso, vai sarar, e se foi apenas uma concusso, em poucos dias 
estar bom. 
Ouvia a prpria voz, sobrepondo-se ao rudo das vagas e, como aquilo lhe trazia um certo conforto, na escurido, continuou falando: 
- Voc  to forte! ... Mais forte do que a maioria dos homens, e no vai ficar invlido... embora possa ter que sofrer um pouco... 
A noite estava tenebrosa, sem uma estrela, e, de sbito, Lorinda teve medo, no da noite, mas de que Durstan tivesse morrido enquanto o abraava. 
Ele estava imvel de todo, e Lorinda encostou a mo em suas faces muito frias, e depois, enfiando-a dentro do seu casaco, desabotoou a camisa, procurando, freneticamente, 
o corao. 
Estava batendo, e ela deu um suspiro de alvio. 
No lhe pareceu estranho ou condenvel tocar o corpo nu de um homem, e deixou a mo continuar ali, sentindo o calor e a macieza da pele. 
- Tudo est bem! - sussurrou. - Voc est vivo! Voc est vivo! 
Moveu o rosto para junto do dele, enquanto falava, e sentiu o frio de sua face. 
- Voc tem que resistir - disse. Tem que viver! Quero que viva!... Para mim! ... 
Sentiu-se, de sbito, surpreendida com as prprias palavras. 
Mas compreendeu que dissera apenas a verdade. Queria que fosse salvo! Queria viver com ele e j no o odiava! 
O brao que tinha embaixo dele estava dormente, mas no o retirou. Dava-lhe uma estranha sensao, que nunca havia conhecido antes, estar assim juntinha dele. Pela 
primeira vez em sua vida, no se sentia revoltada com a proximidade de um homem. 
"Ele precisa de mim", pensou. "Ningum no mundo  capaz de dar-lhe o que estou lhe dando neste momento." 
Teve a impresso de que todo o seu ser o socorria, para mant-lo aquecido, e que somente lhe oferecendo uma parte indivisvel de si mesma tal coisa se completaria. 
Em certo momento, adormeceu ligeiramente, depois acordou sobressaltada, procurando de novo, freneticamente, o corao de Durstan. Sentiu que de certo modo o traa, 
por no lhe continuar a transmitir a fora, que flua do seu corpo para o dele. 
Antes do amanhecer, comeou a rezar.
- Fazei com que ele fique bom, meu Deus! No deixeis que haja conseqncias nefastas de sua queda... ou do frio ou da umidade do mar. Tomai conta dele, protegei-o, 
como tenho tentado fazer. 
Foi uma prece que veio das profundezas do corao. 
Vagamente, como se algum estivesse tentando reconfort-la, ela lembrou-se de ter ouvido dizer que a umidade do mar no era to perigosa quanto a da chuva. 
Alm disso, mantivera o marido aquecido. Tinha certeza disso! 
O cu estava ficando mais claro: Durante a noite, quando no podia ver as ondas, mas apenas ouvir o seu barulho, Lorinda tinha percebido que as vagas estavam se 
quebrando com menos fora de encontro aos rochedos, at que o barulho se transformou em um simples murmrio. 
Agora, uma luz plida comeou a varrer a escurido, e a jovem pde notar que o mar estava muito calmo. No se viam mais as grandes ondas espalhando espuma sobre 
as pedras. Havia apenas o leve marulho da mar montante. No iriam tardar muito a ser socorridos, pensou Lorinda. 
Sua mo ainda se encontrava sobre o corao de Durstan, e ela pensou que, embora ele jamais fosse saber como passara aquela noite, ela, por seu lado, jamais a poderia 
esquecer. 
- Cuidei de voc - disse, com doura. Poderia ser seu filho, e no seu marido. 
Ele havia precisado dela, e ela no o desamparara, e o tomara nos braos, to indefeso quanto um beb. 
Lorinda ficou imaginando como seria a sensao de cuidar do prprio filho. 
"Quando eu tiver um filho, jamais deixarei que ele pense que no foi desejado", pensou. 
No desejado como ela sempre fora. Ainda a magoava lembrar-se como o pai lamentava que ela fosse menina e no menino, e de como no lhe dedicara afeio, mas muitas 
vezes uma positiva repulsa. 
Tambm sua me no quisera o seu amor. Completamente fascinada pelo marido, sempre deixara evidente que, em vez de Lorinda, deveriam ter tido um filho homem. 
"Nunca tive ningum para amar", disse Lorinda a si mesma. 
Fora isso, deduziu, com sbita percepo, que a levara a afirmar-se, a mostrar que no se preocupava com a sociedade. 
"Sou auto-suficiente! Tenho a mim mesma, e  quanto basta!" 
Frequentemente afirmara tal coisa. 
Mas no era verdade! Sempre tivera vontade de oferecer seu amor a algum que precisasse dele. 
No era a paixo - que era uma coisa diferente e a amedrontava - mas um amor profundo, abnegado, mais espiritual do que fsico. 
Um amor que uma mulher poderia oferecer a seu filho ou a um homem que precisasse no apenas de seu corpo, mas de sua prpria alma. 
"Foi isto que eu sempre quis", disse a si mesma. 
Sentiu os primeiros raios do Sol ferirem-lhe as plpebras, e levantou a cabea. 
Viu um barco com seis remadores vindo em sua direo. 
Poderiam voltar para casa! 
Quando os remadores trouxeram a embarcao at bem perto, Lorinda, cuidadosamente, ergueu-se e tirou o brao dormente de sob a cabea de Durstan. 
E foi ento que compreendeu que quisera ficar ao seu lado porque o amava! 
* * * 
Os dias seguintes foram, para Lorinda, um pesadelo de ansiedade. 
o mdico veio de Falmouth. O administrador assegurou que era o mais experiente, em um raio de cem milhas. Lorinda, porm, teve a impresso de que ele sabia muito 
pouco acerca dos efeitos que uma queda to sria produziria sobre um homem da compleio e da idade de Durstan. 
- Talvez tenha fraturado uma ou duas costelas, no posso ter certeza - disse ele. - Est, sem dvida, cheio de escoriaes e tem uma toro muito sria no punho 
esquerdo. 
- Ele no recuperou a conscincia disse - Lorinda, depois do terceiro dia. 
O mdico encolheu os ombros. 
- A concusso  uma coisa estranha, milady, e seu marido  um homem robusto. Se ele bateu com a cabea, pode haver complicaes. 
- Que espcie de complicaes? - insistiu Lorinda. 
O mdico mostrou-se reticente. 
Falou em hemorragia cerebral, disse que era difcil diagnosticar, e contou uma longa histria sobre um paciente que ficara sem sentidos durante trs semanas, e depois 
sofrera uma cegueira temporria. 
No era animador, mas Lorinda chegou finalmente  concluso de que o mdico, na realidade, sabia muito pouco a respeito de qualquer coisa que no fosse uma ferida 
aberta. 
Quando ele retirou-se, Lorinda voltou para a cabeceira de Durstan, e ficou olhando-o, calado e imvel, sem a menor possibilidade de comunicar-se com ele. 
O criado de quarto de Durstan, um homenzinho chamado Gribbon, que o servia havia anos, era uma torre de fortaleza e encorajamento. 
- O patro vai ficar bom, milady - disse, ao ver Lorinda to abatida. - J tratei dele quando teve malria, febre tifide e vrias outras febres indianas, e, quando 
sarava, ficava melhor do que antes! 
- Ele est to plido! - murmurou Lorinda. - E, naturalmente, emagreceu muito. 
- Ele ficou pele e osso, depois de uma doena que teve na ndia - disse Gribbon, jovialmente. - Mas, logo que comeou a comer, a gordura voltou. No se preocupe, 
milady. Dentro de pouco tempo ele estar bem de novo. 
Lorinda sabia que, mesmo se quisessem contratar alguma, seria impossvel encontrar enfermeiras naquele lugar, ou mesmo em toda a Inglaterra. Em geral, eram velhas 
parteiras bbadas, que nenhuma pessoa sensata se resignaria a empregar em casa. 
Lorinda sentia-se, assim, na obrigao de servir de enfermeira do marido. Gribbon, porm, opinava sobre o assunto como conhecedor, e ela teve de lhe ceder uma parte 
do que ele considerava como "seus direitos". 
Gribbon fazia a toalete de Durstan e cuidava dele durante a manh, enquanto Lorinda cuidava do marido  noite, dormindo ao seu lado. 
Ela "entrava de servio", como dizia Gribbon,  hora do ch, depois de haver passeado no jardim com Csar e Brutus. Precisava do ar livre, embora seu paciente tivesse 
de ficar privado dele. 
- A senhora no pode ficar esgotada, milady - dizia Gribbon, com a energia afetuosa de uma bab, cuidando de uma criana teimosa. 
Foi Gribbon quem teve a idia de que, embora Dustran estivesse inconsciente, seria capaz de ouvir msica. 
- Por que no toca para ele, milady? 
- Tocar piano? 
- O patro gosta de msica. Sempre gostou. 
- Na ndia, havia uma dama que ele gostava de ouvir tocar. Tocava muito bem. A gente nunca pde saber mas, embora ele se encontre muito longe de ns, talvez possa 
ouvir a msica, sem poder ouvir as vozes. 
Lorinda deu ordem para se colocar um piano no boudoir que ficava entre os quartos do Rei e da Rainha. Viu, pela disposio dos mveis, que se tratava de um quarto 
destinado a uma mulher, pois nada havia de masculino nas cores leves das cortinas e nos belos mveis que completavam os de seu prprio quarto de dormir. 
O piano foi colocado em um canto do aposento, e ele deixou aberta a porta que dava para o quarto do marido, de modo que pudesse v-lo, enquanto tocava. 
Era pouco provvel, pensava, que conseguisse igualar a dama que ele ouvia na ndia, e experimentou um indiscutvel e pungente sentimento de cime, ao imaginar quem 
poderia ser aquela mulher. No parecia que se tratasse de uma das huris de olhos negros com que ele se consolava em sua solido. 
"Como sei pouca coisa a seu respeito!", disse a si mesma, dando um suspiro, e refletindo que a nica coisa que sabia era justamente que ele desaprovava tudo quanto 
ela fazia. 
No entanto, quisera despos-la e, como agora ela o amava, ps-se a rezar para que no tivesse sido apenas porque queria as terras do priorato ou uma mulher aristocrata. 
Ao v-lo estendido, imvel, no leito, Lorinda disse a si mesma ser impossvel que ele no fosse to bem-nascido quanto ela prpria. Nada havia nele de plebeu, de 
vulgar. 
Uma semana depois do acidente, quando Lorinda voltava ao castelo, depois de seu passeio com os ces, o mordomo disse-lhe, ao receb-la no vestbulo: 
- Est a um cavalheiro de Londres, querendo conversar com o patro, milady. Eu lhe disse que ele est doente, e o cavalheiro pediu para falar com a senhora. 
- Um cavalheiro de Londres? - perguntou Lorinda, surpresa. 
- Acho que so negcios do patro, milady. 
- Ele no quer falar com Mr. Ashwin? - sugeriu Lorinda, achando que o administrador ou talvez o secretrio de Durstan pudessem tratar do assunto melhor do que ela 
prpria. 
- No, milady. Ele insiste em falar com o patro, ou com a senhora. 
- Est bem. Vou v-lo. 
Estava impaciente, pois desejava subir ao andar de cima, a fim de ver como estava o doente, depois que o deixara. 
O mordomo levou-a  biblioteca, e ela viu que l estava um homem idoso, de cabelos grisalhos, que se ps de p, ao v-Ia entrar. 
- Boa tarde - disse Lorinda. 
- A senhora  Lady Lorinda Hayle, no  verdade? 
- Sou sim. 
- Perteno ao escritrio de Hickman, Links e Hickman - disse o visitante. Sou Mr. Ebenezer Hayle. Somos os advogados de Lorde Penryn. 
Lorinda arregalou os olhos, surpresa. 
- Lorde Penryn? - perguntou. 
Mr. Hickman sorriu. 
- Creio que ele ainda se chama de Durstan Hayle, como fazia, quando saiu da Inglaterra, mas, de fato, ele  Lorde Penryn, h seis anos! 
Lorinda conteve a respirao. 
- Est dizendo que meu marido  Lorde Penryn? - perguntou. - Da mesma famlia que era dona do castelo? 
- Ele herdou o ttulo, por morte de seu pai, mas estava na ndia na ocasio, milady. Sei que ele preferiu no usar o ttulo, depois que voltou. 
- Por qu? - quis saber Lorinda. 
Mr. Hickman sorriu. 
- Estou certo de que Lorde Penryn prefere expor os fatos ele mesmo, mas posso adiantar que houve uma altercao com seu pai, porque ele queria sair da Inglaterra, 
a fim de ver se fazia fortuna em outro lugar. 
Fez uma pausa. 
- O velho fidalgo ficou exasperado, na ocasio, acusando o filho de querer explorar comercialmente o nome da famlia. 
Mr. Hickman sorriu de novo. 
- Conhecendo seu marido, milady, a senhora saber que nada podia ofend-lo mais do que isso. Ele tomou o nome de Durstan Hayle, e enriqueceu sem recorrer ao nome 
ancestral. 
Lorinda no conseguia articular as palavras. S podia lembrar-se das vezes que escarnecera de Durstan, pensando que ele s a desposara porque queria uma esposa aristocrata. 
Os Camborne eram uma velha famlia da Cornualha, mas de modo algum to antiga e notvel como os Penryn, a despeito da superioridade de seu ttulo. Os Penryn faziam 
parte da histria da Cornualha e seus feitos gloriosos tinham repercutido atravs dos sculos. 
Afinal, Lorinda conseguiu dizer, com muito esforo: 
- Por que quis ver-me, Mr. Hickman? O advogado tirou alguns papis, que pareciam escrituras, da pasta negra que trazia consigo. 
- Preparei estes papis, de acordo com as instrues de Lorde Penryn, e so necessrias tanto a assinatura dele como a sua. 
- Que so eles? - perguntou Lorinda. 
Mr. Hickman no escondeu sua surpresa. 
- So a escritura de doao de cem mil libras feitas por Lorde Penryn  senhora, milady, incondicionalmente, e tambm as escrituras relativas  manso de Londres, 
de que a senhora poder dispor durante toda a vida. 
Lorinda teve a impresso de que as palavras do advogado foram punhaladas que a atingiram no corao. Durstan a estava tornando independente! Durstan, de fato, estava 
tomando providncias para que pudesse se ver livre dela! 
O aposento pareceu girar em seu redor, e teve de agarrar-se  mesa, a fim de manter-se firme. 
- No ... quero ... o dinheiro ... , nem a casa ... - gaguejou. 
o advogado olhou para os documentos. 
- Espero que a senhora pense assim, milady, porque est casada h pouco tempo. Acha que nada poder acontecer entre a senhora e seu marido, e que vivero felizes 
para sempre, como em uma histria de fadas. 
Fez uma pausa significativa, antes de acrescentar: 
- Mas, depois de uma longa experincia de vida, cheguei  concluso, milady, que  sempre bom a mulher ser independente. Seja o que for que acontea no futuro, sejam 
quais forem as dificuldades que possa vir a encontrar, ser dona de si mesma e ter um teto para morar. 
No estava sendo impertinente, reconheceu Lorinda. Falava com a bondosa compreenso de um velho para com uma jovem impetuosa, que no fazia idia das dificuldades 
e choques que o casamento traz consigo. Talvez Mr. Hickman soubesse que seu marido poderia ser, no apenas um homem difcil, mas tambm imprevisvel. 
Com efeito, Durstan continuava a surpreend-la, desde que haviam se conhecido e, agora, vinha a maior surpresa de todas. Ele se dispusera a torn-la livre, a deix-la 
ir-se embora, depois das dificuldades que enfrentara para torn-la sua esposa. 
Com que alegria teria recebido aquele generoso presente uma semana antes!. .. Teria, ento, tomado o dinheiro, aceitado a casa, e voltado para Londres, deixando 
para trs o dio que sentia ao castelo. 
Agora, porm, tudo era diferente. No podia partir. Na verdade, no queria partir! 
Concatenou as idias. 
- Muito obrigada, Mr. Hickman, por ter vindo aqui - disse, afinal. - Lamento que o senhor tenha feito em vo esta longa viagem, pois meu marido sofreu um grave acidente. 
Enquanto ele no se recuperar e ns pudermos conversar, nada poder ser feito. 
- O mordomo me disse que Lorde Penryn est passando muito mal para me ver - disse Mr. Hickman. - Naturalmente, nestas circunstncias, nada mais poderei fazer, seno 
esperar que ele melhore. 
- Obrigada, mais uma vez - disse Lorinda. - Espero poder oferecer-lhe um jantar, antes de partir, e se quiser passar a noite aqui conosco, naturalmente no faltam 
acomodaes no castelo. 
O advogado agradeceu, e Lorinda tratou de afastar-se logo, subindo apressadamente a escada, em direo ao Quarto do Rei. Tinha a impresso terrvel de que talvez 
a porta j estivesse fechada para ela, e que no poderia ver Durstan de novo. 
Ao entrar no quarto, porm, Gribbon, que estava sentado junto ao leito, ergueu-se impetuosamente. 
- Ele voltou a si, milady! 
- Quando? 
- H meia hora. 
- Est mesmo consciente? 
- Sim, milady, mas um pouco atordoado, embora falando com muita sensatez. 
- O que foi que ele disse? - perguntou Lorinda. 
- S disse isto: "Que diabo aconteceu comigo, Gribbon?" 
Dei-lhe alguma coisa para beber, e ele tornou a dormir. 
- Isso quer dizer que seu crebro no ficou prejudicado - observou Lorinda, com a voz alterada. 
Ajoelhou-se ao lado da cama. O corao batia descompassadamente de alegria. 
- Obrigada, meu Deus! obrigada! murmurou, sem se conter. 

CAPTULO VII 
Lorinda tocou um acorde abafado, depois levantou-se do piano e entrou no Quarto do Rei. Durstan estava sentado em uma poltrona e, ao chegar junto dele, Lorinda viu 
que ele dormia. 
J dera um passeio a cavalo naquela manh e, embora Lorinda sugerisse que deveria descansar, ele se recusara, desdenhosamente. No princpio da semana, o mdico anunciara 
que no havia mais necessidade de visit-lo. 
- Seu marido est inteiramente bom, milady - anunciara, insistindo, porm, que Durstan no deveria fazer excesso durante uma semana, mais ou menos. 
- Muito ar livre, mas no andar a cavalo excessivamente - tinham sido suas ltimas recomendaes, quando partiu em uma velha traquitana, bem conhecida em todo o 
condado. 
No fora fcil, porm, persuadir Durstan a obedecer-lhe. Enquanto ele estivera doente, guardando o leito, Lorinda pudera impor-lhe a sua vontade, mas, agora, voltara 
a andar a cavalo e a fazer o que muito bem queria. 
.Ao v-lo dormindo, Lorinda pensou que o amava cada dia mais, porque ele precisava dela, e ela podia dar-lhe o amor e os cuidados que ningum mais lhe pedira antes. 
Embora ele tivesse readquirido a conscincia uma semana depois do acidente, e pudesse passar a se alimentar um pouco, na verdade o seu estado continuou a ser muito 
grave. 
Havia, mesmo, ocasies em que Lorinda, percebendo que ele se afastara dela, durante o sono, receava que seu corao tivesse cessado de bater. Era ento que sentia, 
como sentira quando, nos rochedos, se deitara agarrada a ele, que deveria transmitir-lhe uma parte de sua prpria alma, de seu prprio vigor, e sua fora vital para 
mant-lo salvo. 
Aos poucos, Durstan foi se revigorando. 
Se quebrara alguma costela, como o mdico receara, a fratura devia ter sido reduzida, e as contuses e o terrvel ferimento da testa desapareceram. 
Durstan no falava muito, o que Lorinda atribuiu  dor de cabea que deveria estar sofrendo, embora no se queixasse. Gostava de ouvir a esposa tocar-piano, e a 
escutava at que a msica o fazia cair em um sono profundo, como aquele a que, agora, estava entregue. 
Lorinda evitara p-lo a par de qualquer coisa que pudesse preocup-lo ou agit-lo. Por intermdio de Mr. Ashwin, o administrador, estava a par de tudo que acontecia 
na propriedade, e tomava as decises e dava as ordens que estava certa de que seu marido aprovaria. 
Estava disposta, porm, a no discutir assunto algum controvertido, at que o marido estivesse passando realmente bem. Por outro lado, dava-lhe notcias dos cavalos, 
e levava-lhe grandes buqus de flores do jardim. Algumas vezes, Durstan pedia-lhe que lesse para ele. 
- Com quem voc aprendeu a tocar piano to bem? - perguntou-lhe, certa vez. 
- Est me lisonjeando! - protestou Lorinda, sorrindo. - Estou bem ciente de minhas limitaes musicais. Quando tinha doze anos, eu mesma contratei um professor, 
mas, de vez em quando, meu pai dizia que era caro demais. Ento, eu tinha de esperar, at que uma rodada feliz na mesa de jogo me permitisse contrat-lo outra vez. 
- Quer dizer que voc mesma foi que procurou se educar - observou Durstan, pausadamente. 
- Antes eu tivesse sabido quanto a instruo  importante! - exclamou Lorinda, dando um suspiro. 
Contou ao marido como, enquanto ele ainda estava mal e passava a maior parte do tempo dormindo, ela costumava ir  biblioteca, procurar um livro para ler. 
- O nmero deles  incrvel, fazendo-me compreender quantas coisas h que eu no sei. 
- E o que concluiu? - perguntou Durstan. 
- Vi como a minha preceptora, que era muito mal paga, me ensinara pouco acerca do mundo. 
- Ento, por onde comeou a estudar para conhec-lo? 
- Comecei pela ndia, porque voc ... 
Lorinda cortou a frase pelo meio. Percebeu que o que ia dizer era revelador, e apressou-se a emendar: 
- Gribbon me falou tanto a respeito daquele pas, que, naturalmente, me despertou o interesse. 
No contou que o livro que encontrara na biblioteca tinha belas gravuras das jovens danarinas de Rajput. 
Quando as olhara, sentira um cime atroz, pensando que era aquele o tipo de beleza que Durstan mais admirava. 
O fato, porm,  que, quer ele a admirasse, quer no, sabia que era necessrio tratar dele, velar por ele e adivinhar os seus desejos e, assim fazendo, nunca fora 
to feliz. 
Era aquilo o que sempre desejara na vida, que algum precisasse dela, que ela fosse capaz de oferecer a algum, no sua beleza, mas seu ser interior. 
Afastou-se, sem rudo, da poltrona de Durstan e sentou-se perto. Ficou olhando para ele como se estivesse vendo a areia da ampulheta escorrer e aproximar-se o tempo 
em que no mais poderia faz-lo. 
No fundo de seu esprito, havia sempre o temor que Mr. Hickman lhe provocara, quando lhe trouxera os documentos que, uma vez assinados, a tornariam independente. 
Ainda no falara a Durstan sobre a visita do advogado, mas sabia que estava se aproximando o dia em que ele teria de saber. 
"Eu o amo!", disse a si mesma. "Meu Deus, fazei com que ele me ame um pouco, ou, pelo menos, precise de mim, como precisou neste ltimo ms!" 
232 
* * * 
o jantar estava terminando. O cozinheiro caprichara como nunca, pois aquela era a primeira vez que Durstan jantava no pavimento inferior, desde o acidente. 
Nenhum homem poderia ser mais distinto do que ele, com seus trajes de noite. Estava quase to bem quanto antes da queda. Apenas um pouco mais magro e ainda com uma 
cicatriz na testa. 
Por outro lado com a gravata meticulosamente atada, o cetim azul da casaca e um diamante brilhando na camisa, mostrava-se extremamente elegante e mais atraente do 
que qualquer outro homem que Lorinda conhecera. 
Ela tambm fizera um esforo, e trazia um vestido que achava que agradaria ao marido. De acordo, no era muito diferente do seu vestido de casamento. Era branco, 
com o drapeado da saia preso por camlias, flor que enfeitava tambm os cabelos, em que a criada fizera um penteado pouco espetacular, mas muito belo. 
Quando ela saiu da mesa, dirigindo-se ao salo, Durstan a acompanhou. O mordomo colocou a seu lado uma garrafa de vinho do Porto e outra de conhaque, e retirou-se. 
Durstan, porm, em vez de servir-se da bebida, ficou olhando para a esposa, e disse, depois: 
- Preciso agradecer-lhe muita coisa! Lorinda encarou-o, surpresa. 
- Agradecer-me? - perguntou. 
- Soube que, depois que ca, voc desceu pelo rochedo, para ficar ao meu lado a noite toda. 
Lorinda guardou silncio, e ele indagou: 
- Por que fez isso? 
- Foi minha culpa ... Eu no devia ter levado Csar perto do precipcio ... 
- Voc salvou minha vida, Lorinda! Queria que eu vivesse? 
- Queria. 
- Por qu? 
Lorinda no podia encar-lo, nem encontrou palavras para responder. Um momento depois, Durstan apanhou uma caixa que se encontrava a seu lado. 
- Aqui est um presente, para mostrar a minha gratido, por voc me tratar enquanto estive mal - disse Durstan, em outro tom. 
- Eu no quero ... - comeou Lorinda a dizer, mas sua voz morreu na garganta, ao ver o estojo que o marido abrira. 
L estava, no escrnio de veludo, o colar de esmeraldas que pertencera  sua me e que fora a nica coisa que realmente sentira perder, quando sua casa e tudo que 
ela continha fora vendida em leilo. 
- Voc comprou isto! - exclamou, um tanto incoerentemente. 
- Para voc. 
Durstan tirou o colar da caixa e apresentou-o. Lorinda deixou que ele o passasse em torno do seu pescoo, e virou as costas, para que o marido prendesse o fecho. 
- Como pde ter comprado isto para mim? - perguntou. - Nem me conhecia, ento. 
- Eu a tinha visto em um baile em Hampstead, quando voc apareceu de Lady Godiva. 
- Voc estava l? 
Lorinda perguntou em voz baixa, e o rubor cobriu-lhe as faces. 
- Estava l! - disse Durstan, com uma voz em que transparecia a censura. 
- Ficou chocado? 
- Estarrecido  uma palavra melhor! 
- Ento, por que se casou comigo? No posso compreender. 
- Eu acabara de regressar  Inglaterra, e no estava esperando que o nosso comportamento social tivesse mudado to drasticamente. Fiz uma aposta com um amigo, Lorde 
Charlton. 
Houve um momento de silncio, depois Lorinda perguntou, com uma voz que mal se podia ouvir: 
- Qual foi a aposta? 
- Apostei que era capaz de domar uma fmea de tigre. Ele achava impossvel. 
Lorinda conteve a respirao. 
Estava comeando a compreender e sentiu uma angstia pior do que tudo que sofrera na vida. 
Afastou os olhos de Durstan, tentando falar com voz firme, como se j no estivesse sofrendo horrivelmente, e o sofrimento aumentando, de momento a momento. 
- Quer dizer que foi apenas uma experincia! 
- Como est dizendo: uma experincia - concordou Durstan. 
Como estava compreendendo que tudo se explicava, Lorinda disse, com uma voz que pareceu estranha at para ela mesma: 
- Um homem chamado Hickman esteve aqui, quando voc estava passando mal. 
- Imagino o que ele fez . 
- Disse-me que o seu nome , na realidade, Lorde Penryn. 
- Naturalmente, disse tambm que mudei meu nome, quando fui para o exterior. 
- Tenciona retomar o seu ttulo verdadeiro e o seu lugar na Cmara dos Lordes? 
Houve um silncio, depois Durstan respondeu: 
- Talvez pudesse fazer isso, se tivesse um filho. 
Lorinda sentiu como se o cho estivesse fugindo debaixo de seus ps. No era a resposta que esperara. 
- Mr. Hickman me disse - acrescentou - que voc separou algum dinheiro para mim e me ofereceu uma casa em Londres. 
- As escrituras esto aguardando nossas assinaturas. 
- Est mesmo fazendo isso? Quer dizer que est me mandando embora? 
Foi quase impossvel articular estas palavras e, sentindo que as lgrimas lhe irrompiam dos olhos, Lorinda aproximou-se de uma mesa lateral, onde havia um grande 
vaso de flores. 
Estendeu os braos para as flores, sabendo que no podia encarar Durstan, que todos os nervos do corpo estavam tensos, esperando a resposta do marido. 
Houve um silncio amedrontador. Um momento depois, no podendo tolerar mais a expectativa, Lorinda disse, gaguejando: 
- Recebi... ontem ... uma carta de papai... Ele est muito feliz ... na Irlanda. Acho que jamais voltar  Inglaterra. 
- Mas voc tem muitos amigos em Londres. 
Lorinda lembrou-se daqueles que acreditara que fossem seus amigos e que to desleais tinham sido, quando ela se vira em dificuldade. No queria v-los nunca mais. 
Sabia tambm que no poderia voltar. 
Depois de viver no castelo, ao lado de Durstan, jamais poderia tolerar de novo a vida que antes achava to divertida. 
Tinha a impresso, porm, que o marido iria dizer-lhe que no precisava mais dela. Todos os nervos do corpo pareciam retesados, aguardando o golpe decisivo, as palavras 
que destruiriam sua ltima esperana de felicidade. 
- Est me mandando embora? 
Foi com muito esforo que fez a pergunta, por sentir que no tolerava continuar por mais tempo na expectativa, que iria gritar se Durstan no lhe dissesse o que 
pretendia. 
- Venha c, Lorinda! 
Havia, na voz dele, o tom autoritrio que ela conhecia to bem, e um remanescente de orgulho f-la lutar para conter as lgrimas que lhe vinham aos olhos. 
Durstan jamais poderia saber o que ela estava sentindo! No iria perturb-lo, implorando-lhe piedade! 
- Estou lhe dizendo para vir aqui! 
A voz era grave, e como se acostumara a satisfazer os desejos do marido, Lorinda virou-se, submissa. Era difcil v-lo, porque as lgrimas a cegavam, mas no as 
deixou cair, ao caminhar em sua direo, de cabea erguida. 
Parou bem perto dele. 
- Estou lhe oferecendo a liberdade - disse Durstan, muito calmo. 
Lorinda encarou-o, desvairada. A tenso chegou ao limite extremo, e as ltimas defesas ruram. 
- No quero ser livre! Quero ficar com voc! Por favor, no me mande embora! 
Sua voz era embargada pelas lgrimas e as palavras quase incoerentes. Perdendo o ltimo vestgio de orgulho e de domnio de         si mesma, disse, soluando: 
- Eu lhe obedecerei... Farei tudo que quiser. A nica coisa que quero  que me deixe ficar ... Por favor, deixe-me ficar! 
Mal sabia o que estava fazendo, e teria cado de joelhos, se o marido no a tivesse tomado nos braos e a apertado bem junto dele. 
Lorinda escondeu o rosto em seu ombro, chorando, como uma criana o faria. 
- Por que quer ficar comigo? - perguntou Durstan, com voz baixa e profunda. 
- Porque o amo! Amo-o com todas as foras da minha alma! 
As palavras foram ditas, e, confusamente, Lorinda imaginou que aquele era o momento em que Durstan poderia castig-la por seu dio e desafio e pela maneira como 
lutara contra ele desde que haviam se conhecido. 
Poderia zombar dela e, se isso acontecesse, nada mais lhe restaria seno morrer! 
Sentiu que ele apertava um dos braos em torno dela e, com a outra mo, levantava-lhe o queixo, fazendo-a encar-lo. 
Lorinda tinha os lbios trmulos, e no podia ver Durstan, atravs das lgrimas que lhe escorriam pelas faces, mas percebeu que ele a olhara durante bastante tempo, 
antes de dizer: 
- H uma experincia que ainda no tinha feito, e  a de beijar a mulher que amo! 
Seus lbios encontraram-se com os dela, e Lorinda pde compreender o que ele dissera. Ento, quando a boca de Durstan tomou posse da sua, ela sentiu algo de selvagem 
e de maravilhoso expulsar de dentro dela a desventura e as lgrimas. 
Era uma sensao bela, perfeita, que expressa, ativamente, todo o amor que sentira nas ltimas semanas. 
Sentiu que os lbios de Durstan no somente sugavam a vida e a energia que procurara dar-lhe, como tambm invadiam uma parte secreta que ela prpria no sabia possuir. 
Sentiu-o chegar mais perto, seus lbios se tornaram mais possessivos, mais exigentes, e ela retribuiu, arrebatadamente... 
No era s amor ... aquilo era vida, era uma fora divina vinda de Deus, a quem ela rezara, em suas provaes. 
Sentiu um arrebatamento maravilhoso percorr-la, varrendo sua atitude de desafio, sua sensao de ser rejeitada. 
Teve a impresso de que uma msica celeste enchia o ar e que tudo que havia de belo flua entre eles dois, tornando-os uma s pessoa. 
Durstan levantou a cabea e baixou a vista, para contemplar os olhos brilhantes e os lbios trmulos da esposa. 
- Eu o amo, Durstan! - murmurou Lorinda. - Eu o amo! 
- Achou mesmo que eu a deixaria ir embora? - perguntou ele, com voz rouca. 
E comeou a beij-la de novo, furiosa, apaixonada, exigentemente, e o mundo desapareceu. 
Havia somente o amor, unindo seus coraes, a ponto de torn-los indivisveis. 
* * * 
Lorinda levantou-se e caminhou, sem rudo, atravessando o quarto s escuras, at a janela. 
Insinuou-se atravs das cortinas fechadas e ficou olhando para fora. 
As estrelas empalideciam e, dentro em pouco, a aurora surgiria. 
A jovem respirou fundo, sentindo-se plenamente feliz, e no mais sozinha. Sentiu os braos de Durstan que a cingiam, e descansou a cabea em seu ombro. 
- Pensei que estivesse dormindo. 
- Como poderia deix-la afastar-se de mim sem sentir? 
Lorinda aproximou-se ainda mais um pouco dele, murmurando: 
- Queria ver o dia nascer.  o comeo de uma nova vida. 
- Para ns ambos - disse ele, com doura. 
- Voc me ama? 
- Mais do que sou capaz de dizer. 
- E me admira ... um pouquinho? 
- Nunca vi coisa alguma mais bela do que seu rosto ou mais perfeita de que seu corpo. 
Lorinda conteve a respirao. Aquelas palavras lhe provocavam um arrepio. 
- Mas h muito mais que sua beleza- prosseguiu Durstan. - H algo que emana de voc e me d uma sensao de plenitude. Algo que nunca pessoa alguma me deu. 
Lorinda beijou-o no ombro. Compreendia o que ele estava querendo dizer. Era o que ela quisera dar-lhe, quando tivera medo que ele morresse. 
A idia de que poderia t-lo perdido levou-a a perguntar: 
- Vai continuar me amando? 
- Apenas comeamos a nos amar nesta vida, mas j estivemos juntos em muitas outras vidas, no passado. 
- Acredita mesmo nisso? 
- Vivi muito tempo no Oriente, para no acreditar no destino, Kismet, e na roda do renascimento. 
Lorinda levantou o rosto para o marido, embora estivesse muito escuro para ver mais que o contorno de seu perfil desenhado contra o cu. 
- Voc sabia, quando me viu pela primeira vez? 
- Fiquei sabendo que voc me pertencia, que voc era a mulher por quem eu estivera esperando havia muitos anos. 
- Embora eu o tenha chocado? 
- Foi por isso que voc me chocou. Eu no podia tolerar que outros homens olhassem para seu corpo, que era meu, como era meu tudo de voc! 
Lorinda estremeceu diante da paixo que havia em sua voz e, com o rosto escondido em seu ombro, sussurrou: 
- Eu no estava nua. Estava trapaceando, ao fazer com que os outros acreditassem. 
- E quando voc posou diante de Pris, para ganhar a ma de ouro? 
- Isso  uma mentira. Inventaram que era eu, mas, realmente, no estive l. 
Durstan deu um suspiro de alvio. Era visvel que aquilo o preocupara muito. 
- Por que fez aquela aposta? - perguntou Lorinda. 
- Porque, instintivamente, percebi que, por baixo do comportamento ultrajante, do exibicionismo e do desprezo por todas as convenes, voc era a mulher que eu j 
cultuava no corao. 
- Como podia saber? - perguntou Lorinda. - Oh, querido, tenho tanta vergonha de estar cega at o ponto de, quando o vi, no ter sentido a mesma coisa! 
Os braos de Durstan a apertaram com fora, levando-a para bem juntinho dele. 
- H tempo de sobra para voc me mostrar quanto est arrependida - replicou. - Uma vida inteira, na verdade! 
- Eu o amarei mais de dia para dia prometeu Lorinda. - Tudo que quero dar-lhe meu amor ... e eu mesma. 
O tom apaixonado de sua voz era iniludvel, e Durstan beijou-lhe os cabelos, enquanto dizia: 
- Na verdade, no ganhei a aposta. Estou disposto a admitir que a perdi. 
- Voc a perdeu? - surpreendeu-se Lorinda. 
- Cheguei  concluso de que, afinal de contas, a gente no consegue domar uma fmea de tigre que tem cabelos ruivos e olhos verdes que brilham no escuro. 
Sentiu o corpo da esposa I estremecer junto do seu. 
- Voc ficou chocado - sussurrou Lorinda, depois - pelo fato de eu am-lo tanto, to arrebatadoramente, e de seu contato me excitar to violentamente? 
Durstan beijou-lhe a testa. 
- Isso  uma coisa maravilhosa, perfeita, suprema, e sempre a farei sentir assim, minha amada - disse ele. - Mas devo adverti-la ... 
Agarrou-lhe a suave coluna do pescoo, antes de acrescentar: 
- Se algum dia vir um homem olhando para voc, de maneira que no seja absolutamente respeitosa, eu o matarei, e a estrangularei! Sou ciumento at a loucura! 
Lorinda soltou uma gargalhada. 
- No tenho medo! Se existe outro homem no mundo, ainda no o vi. S h voc ... e voc ... e voc ... 
Levantou os lbios at os dele, e as ltimas palavras j foram ditas boca com boca. 
Durstan apertou-a contra o peito, beijando-a com um desejo intenso que no podia ser reprimido, uma paixo que era como uma chama, transformada em incndio, quando 
Lorinda retribuiu. 
A aurora surgia, dourada, no horizonte, expulsando as trevas noturnas e envolvendo o casal em uma luminosidade difana. 
Lorinda passou o brao em torno do pescoo de Durstan e puxou-o para mais perto ainda. Ento, percebendo que j podia ver os olhos dele, fixados nos seus, disse, 
com a voz entrecortada: 
- Nosso novo dia nasceu, meu querido, meu magnfico marido! 
- Um novo dia - repetiu ele. 
E, ento, com os lbios junto aos dela, murmurou: 
- Olhe-me! Pense em mim! Eu a quero!
Levou-a de volta ao quarto e, enquanto as cortinas se fechavam, escondendo o dia, carregou-a nos braos. 
- Voc  minha, minha beleza! - disse, na escurido. - Completa e absolutamente minha, agora e para toda a eternidade! 
Mantendo seus lbios e seu corpo bem cativos, carregou-a de volta para o leito. 
* * * 

SOBRE A AUTORA 
 * * * 
Barbara Cartland, famosa romancista, historiadora, teatrloga, conferencista, oradora poltica e personalidade de televiso, escreveu mais de duzentos livros, alm 
de haver publicado diversas obras histricas e biogrficas. Dentre essas obras, encontra-se a biografia de seu irmo, Ronald Cartland, o primeiro membro do Parlamento 
ingls morto na guerra, livro que foi prefaciado por Sir Winston Churchill. 
Preside a Ordem de So Joo de Jerusalm, que congrega todas as enfermeiras da Inglaterra, tendo sido agraciada, pela primeira vez, com o diploma Badge of Office. 
Interessou-se profundamente pela terapia  base de vitaminas e  Presidente da Associao Nacional Britnica Para a Sade. 
Considerada a mais famosa escritora mundial do gnero fico romntica, conta com mais de cinqenta milhes de livros vendidos. Fez 76 anos em julho de 1977. 
Seu editor americano, ao visit-la na Inglaterra, ficou impressionado: "Ela escreve livros maravilhosos e  tambm uma mulher maravilhosa, glamourosa. Vive numa 
manso espetacular, luxuosamente decorada, cercada de bosques e jardins. Est sempre vestida de forma requintada, cabelos platinum-blonde, jias. Tem  sua disposio 
e  disposio dos visitantes um Rolls-Royce branco, sob os cuidados de um imponente chauffeur uniformizado.". 
 
1
